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Entrevista com Adriana Clis
Outubro/2003

Adriana Clis Iniciou seus estudos musicais, aos seis anos de idade, com sua mãe, Marcilda Clis, no Rio de Janeiro, onde fez parte do Coral Infantil do Teatro Municipal. Transferindo-se para São Paulo, começou seus estudos de canto com a professora Regina de Boer. Em 1994 passou a estudar com o professor Carmo Barbosa, nesse mesmo ano, integrou o Coral Sinfônico do Estado de São Paulo, e no ano de 1996 ganhou o Primeiro lugar no I Concurso de Canto de Araçatuba. Em 1997, a convite do Maestro Samuel Kerr participou do Coral Paulistano do Teatro Municipal de São Paulo. Atualmente estuda canto com a Professora Leilah

Farah. Com cursos de aperfeiçoamento no exterior e diversas premiações em concursos no seu curriculum, Adriana vem se destacando cada vez mais na cena lírica nacional. Acaba de receber o primeiro prêmio na edição de 2003 do Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão.


Você iniciou a sua carreira muito cedo. Conte-nos um pouco a respeito disso e da experiência de encenar uma ópera com apenas 10 anos de idade.

Eu comecei a estudar música aos seis anos com minha mãe, Marcilda Clis (piano) e flauta doce, no ano seguinte entrei no Coral Infantil do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde aprendi muito com a Maestrina Elza Lakschevitz, exemplo de respiração que já naquela época ela cobrava e muito. Esta fase no coral foi maravilhosa, onde tive a oportunidade de participar de várias montagens de ópera no teatro e uma delas foi a "Artemis" de Nepomuceno, onde tive o privilégio de fazer o primeiro solo de minha vida ao lado de Ruth Staerke e Carmo Barbosa, junto à Orquestra Sinfônica Brasileira sob a batuta de Isaac Karabtchevsky.


Podemos dizer que sua mudança para São Paulo deu um novo rumo à sua carreira? Como foi isso?

Vindo para São Paulo, continuei meus estudos de piano, até que um dia o Gilberto Tinetti, presenciando algumas brigas minha com minha mãe referente a estudar piano, perguntou, Porque ela insistia tanto que eu estudasse piano se eu não parava era de cantar por todos os cantos da casa. E foi assim que eu procurei o Prof. Caio

Ferraz e passei a ter algumas aulas de canto, depois entrei na Faculdade de música Carlos Gomes e passei a estudar com a Profª Regina de Boer, dois anos, depois mais uma vez auxiliada pelo "Tio" Tinetti, fui fazer uma entrevista com o Carmo Barbosa e logo lembrei que havia sido sua filha na ópera e tivemos uma afinidade de ambos os lados.

Qual a importância do período em que você estudou na Rússia?

Foi maravilhosa a oportunidade de estar não só num país deslumbrante e cheio de mistérios, como ter tido a oportunidade de conhecer a Profª Klara Kadinskaya, que fez com que eu acreditasse que eu realmente era uma mezzo-soprano e deveria trabalhar como tal.

Seu curriculum traz diversos primeiros lugares em concursos. Qual a real importância da participação em concursos para a carreira de um cantor?

Primeiramente estar conhecendo pessoas de diversos níveis e técnica. Ao meu ver a competição também deve ser trabalhada, pois nós artisias devemos estar preparados em ganhar mais sobretudo em perder e jamais deixar de crer que sempre há um dia após o outro, onde temos a oportunidade de "Levantar a poeira e dar a volta por cima" (Como diz a música!) Gosto de concursos, não é fácil de participar, digamos que é uma adrenalina diferente, mas é foi bom ter tido a oportunidade de vencê-los.

Infelizmente nos deparamos este ano com o encerramento das Bolsas Vitae de estudos. Este era um incentivo importantíssimo para muitos artistas brasileiros, você mesma foi ganhadora da bolsa por 3 vezes. Qual a sua opinião a respeito disso?

É com grande tristeza que falo neste assunto, pois já citado a cima, eu realmente fui contemplada pela Vitae durante três ano e foi ela que me deu a oportunidade de estudar em Milão com o Maestro Ferraro (foi maravilhoso!) e depois aqui no Brasil com a Profª Leilah Farah, onde fiz três aulas por semana. É certo que

sem este grande incentivo eu jamais poderia ter dedicado tanto tempo de aprendizado. É impressionante acreditar que num país tão grande como o nosso e cheio de talentos espalhados por aí, de repente não terão esta mesma oportunidade que tive, pois todos nós sabemos o quão a arte de cantar exige: aulas particulares, aulas de percepção, gastos com partituras, CDs e outras coias mais. Ou seja, não é só ter vontade, precisa-se de ajudas financeiras.

Como foi sua recente tournée pela França?

Essa foi uma experiência única em minha vida, onde fui cantar na bela Embaixada Brasileira (em Paris) às margens do Rio Sena à convite do Sr. Embaixador do Brasil, o melhor de tudo, fazendo música brasileira, ao lado do pianista Gilberto Tinetti. Depois fomos para as cidades de Sévres e Bellegarde, onde fomos muito bem recebidos mostrando a nossa música (Mignone, Camargo Guarnieri, Valdemar Henrique etc...) obtendo um grande sucesso, sendo este o verdadeiro fator que me fez ser convidada novamente a retornar com um novo repertório para um outro recital.

Estamos vivendo a "era dos cantores de ópera". Os jovens cantores só querem fazer ópera, deixando grandes obras camerísticas de lado. Este não é o seu caso. Qual a importância do repertório camerístico para a formação de um bom cantor?

Essencial!!! Eu adoro música de câmara, não sei se é porque desde dentro da barriga da minha mãe ouço estudos, ensaios do meu pai (Watson Clis), um

tremendo músico que fez com que a música de câmara estivesse sempre presente em minha vida. Adoro a Ópera, mas não posso deixar de falar que aprendemos e muito com Lieds, chanson, os fraseados a musicalidade são muito mais evidentes no repertório camerístico. Para mim, estar fazendo um trabalho ao lado de Gilberto

Tinetti e Watson Clis é simplesmente um Luxo! Como eu aprendo com estes grandes músicos!

Você recebeu merecidamente o Prêmio Carlos Gomes de Revelação 2002? O que isto significou para a sua carreira?

Merecidamente? Espero que sim, afinal desde que eu retornei da Itália (isto fazem 3 anos) as coisas começaram a acontecer. Logo que cheguei, fui convidada pelo Maestro Malheiro para fazer a primeira Ópera de minha vida (sendo solista profissional) e devo muito a ele e ao elenco (Trabalhar com a Rosana Lamosa, foi uma experiência inesquecível). Depois eu não parei, fui para o Festival de Manaus, recitais, concertos com o TRIO etc... E graças à Deus, sempre que tive críticas, foram mais elogios, que fizeram com que eu acreditasse no meu trabalho e seguisse em frente.
Digamos que o Prêmio "Carlos Gomes" foi um grande impulso para as pessoas terem vontade de me conhecer, sendo assim, um grande incentivo à minha carreira.

E o Prêmio Bidu Sayão, sua última conquista, como pode ser encarado?

Este sem dúvida nenhuma o mais difícil ! Foi uma grande conquista, onde dependia somente de mim e de Deus! O nível não estava nenhum pouco fácil e me senti muito lisonjeada justamente por isso, disputar com pessoas estrangeiras e melhor, com grandes cantoras, só veio a enaltecer o meu 1° lugar. E sempre que posso agradeço à minha Família, D. Leilah e amigos que torceram muito por mim, pois sem a ajuda de todos eles, eu poderia não acreditar na minha arte!

 

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