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Entrevista com Alex Klein
Abril/2004


Alex Klein é um dos oboístas de maior destaque da atualidade. Atualmente trabalha com a Chicago Symphony Orchestra, nos Estados Unidos. Faz parte da Comissão diretora da Oficina de Música de Curitiba, realizada todos os anos no mês de janeiro. De passagem pelo Brasil, gentilmente concedeu esta entrevista ao nosso site. Confira a seguir um pouco da grande carreira

deste excepcional músico brasileiro, que nos brindará com diversos concertos em 2004.



Você começou sua carreira aos 9 anos de idade e aos 10 já fazia seu primeiro solo com orquestra. O que o fez optar pelo oboé?

É sempre engraçado olhar para trás e fazer esta pergunta. Acho que foi um toque de personalidade, algo dentro de mim dizendo que o oboé ia mais com a minha personalidade, com meu jeito de ser. Acredito muito na capacidade de crianças fazerem este tipo de decisões por conta própria, e sempre reforço a idéia a pais que procuram um instrumento para seus filhos.


Daniel Barenboim nomeou você como Principal Oboé da Sinfônica de Chicago. Como isto aconteceu?

Em março de 1995 eu fui chamado, com 3 dias de antecipação para as finais das audições que iriam selecionar a próximo solista de oboé da CSO. Barenboim, como diretor artístico da orquestra, estava presente e liderou o processo de seleção. Primeiro eu apresentei o concerto para oboé de Mozart. Após uma pausa para deliberações da comissão, voltei e toquei trechos orquestrais selecionados préviamente e anunciados em uma lista, que tinham enviado a mim na sexta-feira (a audição foi na segunda-feira seguinte...). Mais deliberações se seguiram, e então fui chamado para tocar o concerto para oboé de Richard Strauss, obra cuja gravação três anos depois nos rendeu o "Grammy" de "Melhor Solista Instrumental com Orquestra". A certo ponto três outros candidatos foram dispensados, e fiquei somente eu tocando. Após ainda mais deliberações e um curto almoço-conversa com Barenboim sobre as esperanças da orquestra sobre esta posição, eu voltei para tocar mais trechos de orquestra, mas que desta vez não estavam na "lista de sexta-feira" (leitura a primeira vista). Desta vez Barenboim sentou ao meu lado no palco do Orchestra Hall e fez a escolha pessoalmente. Mais deliberações se seguiram e eu fui chamado ao palco mais uma última vez, para tocar o Quinteto de Mozart para Oboé, Clarinete, Trompa, Fagote e Piano, com Barenboim ao piano, e os outros solistas de sopros da CSO, Larry Combs, Dale Clevenger e Willard Elliot, respectivamente.

Ao final do dia, e de cinco apresentações frente à comissão e o maestro Barenboim, fui informado que minha audição tinha sido "estendida", e que restavam agora apresentações com orquestra, sob a regência de Barenboim. Devido a conflitos diversos, só foi possível eu me apresentar em um concerto da CSO (eles preferiam que fossem uns 6...). Meu pai tinha sofrido um derrame na época, e eu precisava voltar ao Brasil

urgentemente. Após o concerto, onde toquei a Rapsódia Espanhola de Ravel e a Vida de Herói de Strauss, Barenboim mencionou que iria me contratar oficialmente para a cadeira.


Trabalhar com grandes nomes internacionais como Vermeer Quartet, Itzhak Perlman, Pinchas Zukerman, Christoph Eschenbach e o próprio Daniel Barenboim deve ser extremamente gratificante. Como você vê essas experiências e o que isto acrescentou em sua carreira?

Vejo neles não só grandes instrumentistas, mas pessoas que alcançaram uma maneira natural de viver suas vidas e seus sonhos artísticos. Cada um consegue expressar sua personalidade própria de maneira clara, como se não tivessem instrumentos nas mãos, mas estivessem simplesmente conversando com o ouvinte. Itzhak é um milagre ambulante, na minha opinião. Seus dedos são gordos, mas ele sobe e desce no violino com uma facilidade e precisão descomunais, e tudo isso regado a boas piadas. Pinky carrega em si não só a perícia artística, mas uma indomável vontade de modificar o "status quo" de uma apresentação, sempre mudando arcadas para produzir combinações diferentes de sons e cores. Christoph toca piano com tal suavidade, que as Romanças de Schumann que toquei com ele sempre ficarão em minha mente com um dos momentos mais especiais da minha vida como músico. Barenboim é o verdadeiro herdeiro da grande tradição alemã de liderança orquestral, desde Furtwangler (com quem estudou) e Karajan. É admirável ver como Barenboim não cansa de procurar um ideal artístico. O "está bom o suficiente" parece não existir para ele. Mesmo em obras que a orquestra conhece bem, ou quando não há muito tempo restantre para ensaio. A filosofia musical, ou seja, a concentração mental dos músicos é de maior importância para ele do que a necessidade de gastar a mesma quantidade de tempo ensaiando cada trecho da obra. Pensa ele que se o músico estiver com a idéia certa em sua mente, os detalhes menores cairão em seus devidos lugares. Fascinante... E o Vermeer faz isto tudo como um grupo, delineando com exemplar precisão onde acabam as liberdades individuais, e onde iniciam as responsabilidades individuais pelo desempenho artístico do grupo todo.


Fale um pouco sobre sua participação em concursos e suas premiações.

Sempre procurei participar do maior número possível de concursos. Foi uma estratégia de avanço na carreira que me rendeu muitos dividendos. Pude, em pouco tempo, chamar a atenção de muitas pessoas importantes e que me ajudaram a subir rapidamente, devido à série de prêmios importantes que recebi. Os mais famosos são, é claro, o Grammy de 2002, o 1º prêmio no Concurso Internacional de Execução Musical de Genebra, em 1988, e o 1º prêmio no 1º. Conurso Internacional de Nova Iorque para Solistas de Oboé, em 1986, quando ainda era estudante e tinha recém chegado do Brasil. Muitos outros ajudaram também a me impulsionar, como o Concurso de Piracicaba, o Concurso Internacional de Tóquio, a Menção Honrosa e Prêmio Especial no Internacional de Praga, assim como os Concursos Jovens Solistas e Jovens Regentes da OSESP e OSPA.


Como é o seu trabalho nos Estados Unidos hoje?

Além do trabalho com a CSO, leciono na Roosevelt University e na DePaul University. Viajo regularmente a outras cidades onde dou master classes, de Los Angeles a Nova Iorque. Recentemente tenho me interessado muito pelo lado social e educacional, e como posso usar meu tempo para obras de maior impacto neste mundo. Assim sendo, adoro meu envolvimento com a Oficina de Música de Curitiba, e este ano iniciarei festivais menores, mas com igual abertura de coração, na Cidade do Panamá e na cidade de Qing-Dao, na China.


Você recebeu o Grammy em 2002. Deve ser emocionante receber um prêmio tão importante para a música em geral. Como foi essa premiação?

Fomos nomeados em janeiro de 2002. O prêmio foi anunciado um mês depois. Foi uma grande honra ter recebido este Grammy, e espero que este não seja o único Grammy clássico brasileiro por muito tempo.


Você tem um papel fundamental na Oficina de Música de Curitiba, realizada todos os anos no mês de janeiro. Qual a importância deste trabalho?

O Brasil precisa dinamizar e multiplicar seus esforços educacionais, com vista à equalização de nossas apresentações artísticas com as melhores instituições artísticas do mundo. Assim sendo, e como não é possível que nossos talentos viajem em massa para estudar no exterior, a Oficina de Música se esforça para trazer grandes professores e instrumentistas do exterior para cá. As atividades são intensas. Os 1000 alunos da Oficina, provenientes de 20 países e 4 continentes, confrontam-se com 6 conjuntos orquestrais, mais de 100 concertos, 14 horas de atividades artísticas e educacionais por dia, e um quadro de professores de pôr inveja em qualquer um

dos melhores festivais de música do mundo. Tudo isso num período de somente 10 dias. O resultado não é de surpreender, e os alunos hoje já apresentaram a 4a Sinfonia de Mahler, a Sagração da Primavera de Stravinsky (diz-se que foi a primeira apresentação desta obra em Curitiba, e a primeira por uma orquestra de jovens na América Latina), além de numerosas outras obras que de outra forma não receberiam a atenção destes jovens que tanto merecem este acesso.


Este ano você trouxe para a XXII Oficina de Música de Curitiba uma pessoa bastante importante: Bud Herseth. O que você pode nos dizer sobre ele?

Bud é um outro milagre ambulante. Dada a limitação física e muscular do corpo humano, e sua tendência a se deteriorar com o tempo, é quase que inadmissível compreender como ele, aos 80 anos, gravou, ao vivo, a 5a Sinfonia de Mahler conosco. Quem ouve aquela gravação sabe do que estou falando. Não é normal. Aos 80 anos, os lábios geralmente perdem seu teor muscular. Como pode então o Bud soprar um trompete com tal precisão, musicalidade, dimensão de som e personalidade da interpretação à tão alta idade? Isso sem falar que ele tinha sido recém-safenado 5 vezes.... Para nós foi uma grande honra recebê-lo na Oficina de Música. Bud geralmente não leciona trompete. Raras são as oportunidades em que alunos podem conversar com ele. Tanto é que um aluno brasileiro, o Marlon, atualmente estudando em Chicago, onde vive o Bud, decidiu fazer a viagem até Curitiba, para participar das aulas do Bud, que nem em Chicago alunos podem usufruir.


O que podemos esperar para a Oficina de música de 2005?

A Oficina de Música de Curitiba, apesar de seu incontestável sucesso entre alunos, professores e o público curitibano, passará por um grande teste em 2005, devido às eleições para a prefeitura de Curitiba. O teste na verdade será para a própria maturidade do sistema político do Paraná. Caso haja uma mudança partidária na prefeitura, será que a grandeza alcançada pela Oficina será mantida por uma nova administração (como o fez, de maneira exemplar, nosso presidente Lula), ou será que, por ser um sucesso tão grandioso de uma prévia administração, será designada como de importância menor por uma nova administração? De qualquer forma, estamos empenhados em trazer à Curitiba uma Oficina de Música tão

dedicada ao conhecimento artístico e à maneira natural do aprendizado, como qualquer uma das Oficinas passadas. Será com certeza um grande evento. Mas detalhes da programação eu ainda não vou contar. Shhhh.....!!!


Quando poderemos assistí-lo?

Dia 25 de setembro, em Jundiaí, SP, como solista da Orquestra de Câmara Villa-Lobos. Dia 29 de setembro, em São Paulo capital, como solista da Banda do Estado. Estarei também em Belo Horizonte, Curitiba, Uberlândia e possivelmente Petrópolis em novembro.




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