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A soprano Cláudia Riccitelli consagrou-se no cenário lírico nacional como uma das artistas mais completas de sua geração.
É detentora de vários prêmios nacionais, dentre eles o Prêmio Carlos Gomes de Destaque Vocal de 2001 e o Prêmio Revelação da Revista BRAVO!, em 1999.
Formou-se em Composição e Regência pela Faculdade Paulista de Arte, tendo aperfeiçoado seus estudos teoricos com H.J.Koellreutter. Estudou canto com Leilah Farah, Helly-Anne Karan e Anna Maria Kieffer, no Brasil, e com Rita Patané, em Milão. |
Guia Erudito: Um dos grandes destaques da sua carreira foi a sua participação nos concertos da primeira turnê da Filarmonica de Berlim a convite de Claudio Abbado. Como isto aconteceu?
Claudia Riccitelli: Bem, essa história tem lances realmente divertidos! Eu estava em Milão, numa temporada de estudos com a minha professora, a Rita Patané. Recebi um telefonema da minha empresaria, a Cristiane Rossetto, por volta das três da tarde (horario de Milão), dizendo que a condessa Sabine Lovatelli ,do Mozarteum, a havia procurado, querendo saber se eu estaria disponível para realizar uma participação especial no concerto da Filarmônica de Berlim em São Paulo. A idéia de chamar uma artista brasileira para interpretar a Cantilena das Bachianas nº 5 partiu do próprio Abbado, até onde eu sei, como forma de homenagear os quinhentos anos de descobrimento do Brasil (só para lembrar, isto foi em 2000). A sra. Lovatelli pensou em mim muito em função da minha participação na abertura da Sala São Paulo, alguns meses antes.
Haviam dois grandes obstaculos a serem superados, entretanto: primeiro, eu teria que estar pronta para ensaiar as Bachianas Brasileiras com a Filarmônica no dia seguinte às nove da manhã (horario brasileiro)!! Segundo: o maestro Abbado não me conhecia, nunca tinha me escutado. Se por acaso ele não gostasse da minha voz no ensaio, eu estaria por minha conta e risco...
Bem, depois de muitos telefonemas e sustos, sai de Milão com a roupa do corpo disposta a correr todos os riscos (tá brincando? Abbado e Filarmônica de Berlim? No Brasil? Na minha cidade? Só louco diria não...). Eram seis da tarde.
Cheguei às seis da manhã em São Paulo, corri para a minha casa, tomei um banho voando, vasculhei a casa para encontrar a partitura das Bachianas que euhavia cantado uma única vez muitos anos antes, aqueci a voz e corri para o TMSP...Minha empresária me levou para o ensaio e eu fiquei estudando as Bachianas no trajeto casa-teatro, imagina!! Curiosamente, quando eu fui
ensaiar, estava surpreendentemente calma. O ensaio correu tranquilo, o maestro e a orquestra gostaram muito de mim e o concerto foi um deslumbramento, quem estava lá deve se lembrar muito bem. Inicialmente, minha participação estava prevista somente para SP. A convite do próprio maestro, segui junto com eles para o Rio, onde repetimos o imenso sucesso de SP no bis das Bachianas. Depois desses concertos, choveram convites para cantar essa obra! Cantei as Bachianas no Brasil inteiro...
G.E.: Como efetivamente começou a sua carreira?
C.R.: Meu primeiro trabalho como cantora profissional (leia-se: remunerado), foi como backing vocal de uma pequena turnê brasileira do ...Ronnie Von!!!! Foi uma experiência inenarrável...muito divertido, com direito a coreografia no refrão "Teu amoor, é...cachoeira" e tudo! Diga-se de passagem, eu fui muitíssimo bem paga...
Em 1986, cantei meu primeiro concerto com orquestra. Foi a obra "Prossissão das Carpideiras" (sic), do Lindemberg Cardoso, com a OSB, dirigida pelo maestro Leon Halegua. Considero este concerto como o verdadeiro início da minha carreira como cantora lírica. Portanto, no ano que vem estarei comemorando 20 anos de carreira...
Alguns anos depois, em 1989, entrei no Coral Paulistano pelas mãos do maestro Abel Rocha. Nesse mesmo ano, estreei no espetáculo "Elsinore", com direção do William Pereira, regência de Samuel Kerr e preparação corporal de Vivian Buckup, junto à extinta Cia Coral; ficamos praticamente um ano em cartaz e eu devo confessar que aprendi praticamente tudo o que sei da arte de representar e de me apresentar em público nessa experiência.
A partir de 1990, comecei a fazer pontas e pequenos papéis nas temporadas do Municipal de São Paulo, no Teatro Lírico de Equipe, nas Vesperais, etc...
Em 1992 veio o meu primeiro papel de destaque no TMSP, a Lauretta no "Gianni Schicchi", com direção de Gabriel Vilela e regência de Alessandro Sangiorgi. Seguiram-se outros papéis de algum destaque nos anos seguintes, mas meu primeiro grande papel viria em 1995, a convite do maestro Jamil Maluf (que, aliás, já havia investido muito em mim em anos anteriores me dando papéis menores que foram fundamentais no meu desenvolvimento artístico, como a Ida no "O Morcego" com direção de Iacov Hillel, e a Berta no "Barbeiro de Sevilha", com direção de Marcelo Marchioro). Esse papel
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foi exatamente a Leilah,
nos "Pescadores de Pérolas", que agora está sendo remontado no TMSP, com direção do Naum Alves de Souza. Nesse mesmo ano, estreei no TMRJ retomando o personagem da Lauretta, numa outra montagem com direção do Hamilton Vaz Pereira.
G.E.: Na reabertura da Sala São Paulo sua participação foi bastante elogiada. Do seu ponto de vista, como foi esse concerto?
C.R.: Tão marcante quanto as apresentações junto à Filarmônica de Berlim. Considero estes dois eventos como dois marcos na minha vida, para além da carreira. Só que, ao contrário dos concertos com a Filarmônica, onde eu estava surpreendentemente calma, me lembro de quase entrar em pânico na noite da inauguração da Sala...meu coração batia tão forte que a cadeira onde eu estava
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sentada chegou a balançar no ritmo das minhas batidas cardíacas!! Eu tinha plena consciência de estar participando de um evento histórico na minha cidade, no meu país, e isso me comoveu profundamente. No final de 1998, apareceu uma chance de audicionar para o maestro John Neschling e para o maestro Roberto Minczuck. O Neschling nunca tinha me escutado. A época da audição era péssima; ela foi marcada de ultima hora e eu tinha menos de quinze dias de operada de uma cirurgia para correção de septo nasal e sinusite. Fui assim mesmo, toda inchada, e saí dessa audição com o convite para inaugurar a Sala São Paulo! Foi uma virada na minha vida profissional e o |
concerto em si foi absolutamente maravilhoso. O resultado se escuta no CD que foi gravado na ocasião...Mais do que qualquer memória musical, ficou impressa na minha mente a alegria, o êxtase com que todos os envolvidos se entregaram a esse projeto, da orquestra aos maestros, técnicos, solistas, todo mundo. Uma verdadeira comoção.
G.E.: Você pode nos contar um pouquinho a respeito do CD com canções inéditas de Villa-Lobos?
C.R.: Eu estou gravando algumas das canções mais modernas (musicalmente falando) escritas pelo Villa. São elas:" Oito Epigramas Irônicos e Sentimentais", versão para piano do próprio compositor com o maravilhoso pianista Nahim Marun, meu parceiro de recitais há alguns anos, e "Poema da Criança e sua Mamã", para voz, clarinete, flauta e cello com os igualmente maravilhosos
Antônio Carrasqueira, Watson Clis e Sergio Burgani. A direção artística é do maestro Gil Jardim, um grande musico com quem tenho aprendido demais e com quem tenho trabalhado com uma certa frequência nos ultimos anos, e que é um dos grandes especialista em Villa-Lobos neste país. Em muitas medidas , este CD (que ainda contém obras como o Noneto, a Prole do Bebê e o Quatour) é histórico. Será a primeira gravação de várias dessas obras e se tornará, queira ou não, referencial. Este CD ampliará consideravelmente a visão musical que se tem habitualmente do Villa. Os "Eprigramas..." e o |

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"Poema..." são obras contemporâneas, nada a ver com o Villa da Floresta do Amazonas, das Canções Folclóricas, das Bachianas. É um outro universo sonoro, sem deixar de ser Villa-Lobos. Talvez você encontre uma certa semelhança, ou uma vaga memória dessa modernidade em algumas das serestas (as menos executadas...) e na série Cromos, restringindo a comparação à musica vocal.
G.E.: Agora, fale um pouco sobre a "Leilah", dos Pescadores de Pérolas, que você está interpretando no Theatro Municipal de SP.
C.R.: A Leilah é um papel que possui uma complexidade vocal considerável. Costumo dizer que, vocalmente, ela guarda incríveis semelhanças com a personagem Violetta, da "Traviata" de Verdi; no primeiro ato, o papel da Leilah exige da cantora leveza e coloraturas, no segundo ato mais lirismo na voz; o terceiro ato é bastante dramático. Ou seja, um desenho vocal idêntico ao da Violetta, mas as comparações param por aí...emocionalmente, Leilah não chega a ser um personagem linear, mas certamente não oferece grandes
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profundidades ou conflitos. Eu adoro cantar essa ópera, que é de uma beleza musical estonteante. Estou tendo o privilégio de cantá-la no Brasil em várias ocasiões, palcos e produções diferentes, com diferentes parceiros em todos os âmbitos. As mudanças mais expressivas que eu vejo na minha interpretação, se |
compararmos com a montagem de 1995, diz respeito às mudanças vocais naturais que o tempo trouxe para a minha voz, facilitando (e muito!) as demandas vocais do terceiro ato, mais dramáticas. Também ressalto o uso expressivo de alguns passos e posturas corporais baseados nas danças indianas. Nesta montagem, fui coreografada pelo J.C.Violla. Esta produção é praticamente a mesma de 1995, com algumas mudanças nos cenários e figurinos, mas a concepção original (e brilhante) do Naum Alves de Souza é a mesma. O Naum é um ícone, um mito do teatro brasileiro. Trabalhar com ele é uma honra, um constante aprendizado, um desafio contínuo e uma delícia! O maestro Jamil Maluf está alcançando momentos de pura magia musical com a OER. Meus colegas de elenco (Fernando Portari, Sebastião Teixeira e Luis
Ottavio Faria), todos cantores consagrados, mais o Coral Paulistano, estão no auge das suas possibilidades vocais. Sinceramente, acredito que vamos marcar outro gol de placa, como fizemos em 1995...
G.E.: Qual a perspectiva que você enxerga para os cantores líricos brasileiros aqui dentro do país?
C.R.: A história do canto lírico brasileiro é permeada por muitos altos e baixos. Tivemos um ano difícil, infelizmente não posso dizer atípico...eu tenho muita sorte, pois tive e terei trabalho para todo o ano e já tenho compromissos para o ano que vem agendados, mas sei que o mesmo não acontece com a maioria esmagadora dos meus colegas neste momento. Eu mesma amarguei vários periodos sem trabalho, anos até, por motivos que iam desde a falta de trabalho em si a boicotes inexplicáveis por parte de instâncias superiores...
Não deveria ser otimista olhando para o quadro atual: três operas na temporada do TMSP, duas, talvez três na temporada do TMRJ, nossos templos da lírica nacional.
Mas eu sinto os ventos da mudança e não consigo deixar de ser mimimamente otimista. Desejo ardentemente que o maestro Maluf consiga (ou melhor dizendo, que o deixem!) fazer todas as mudanças propostas para o nosso amado TMSP (algumas ja são realidade, como a central de produção, o intercâmbio de montagens e a reedição de montagens existentes no TMSP e que sobreviveram a todas as intempéries...). Só isso já abriria enormemente o mercado de trabalho para os cantores. Vejo renascer, ainda que com imensas dificuldades (certamente por falta de apoio), a ópera em Curitiba; vejo o Palácio das Artes em BH produzindo montagens de qualidade, vejo o Festival de Ópera em
Manaus repercurtindo no mundo inteiro, vejo o Festival de Ópera de Belém se firmando como mais um pólo produtor de óperas de qualidade no Norte; vemos montagens de ópera na Bahia, Brasília, Recife, Bebedouro, Campinas, Florianópolis...concursos de canto como o Bidu Sayão, Maria Callas,
Aldo Baldin, etc...
Podemos ainda destacar o "boom" de orquestras pelo Brasil inteiro; nunca tivemos tantas orquestras, muitas de grande qualidade, como agora. Vejo também um aumento no numero de grupos vocais profissionalizados. A situação hoje é muito melhor do que quando eu comecei, vinte e poucos anos atrás (contando os anos de estudos). Então, eu acredito que, a médio prazo, o cantor lírico brasileiro que conseguir se afirmar e passar pelo funil da seleção natural terá cada vez mais condições de sobreviver do seu trabalho. Agora, nem todos serão contemplados pela sorte (acreditem, precisa ter muita para fazer carreira, tanto quanto talento e dedicação...) com uma carreira realmente expressiva, mas isso faz parte do
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"jogo"... Ainda acho que um cantor lírico, em particular o brasileiro, deva passar pela experiência de estudar fora do país, em algum grande centro de tradição ou de produção de ópera, como Itália, EUA, Áustria ou Alemanha, porque isso efetivamente muda muito a maneira de cantar e de entender a música lírica e erudita em geral.
O que eu gostaria de ver?
Maior distribuição dos trabalhos (poucos ainda cantam muito e muitos ainda cantam pouco...), para que novos talentos possam surgir, e para que os emergentes possam se aperfeiçoar; maior visibilidade para o cantor brasileiro no exterior ou, em outras palavras, a internacionalização e exportação de cantores brasileiros e, num quadro maior, da música lírica e erudita brasileira.
G.E.: Quando teremos o prazer de assistí-la novamente, após a ópera "Os Pescadores de Pérolas"?
C.R.: Este "Pescadores..." de SP será remontado no Palácio das Artes, em BH, com alterações no elenco (sou a única do elenco de SP que cantará também
em BH) e regência do maestro Marcelo Ramos. A estréia é em 08/10, com dois elencos, infelizmente até este momento não sei exatamente quem serão os meus
colegas...Depois, canto a Missa em Si Bemol Menor, de Bach, com a
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Amazonas Filarmônica, e regência do maestro Marcelo de Jesus. Devo fazer alguns concertos para o lançamento do CD do Villa-Lobos ainda neste semestre, e encerro o ano com um concerto junto à OCAM, com regência do maestro Gil Jardim. Já' tenho alguns compromissos agendados para o ano que vem, com destaque para a minha estréia num papel rossiniano como a Desdêmona, no "Otello" de Rossini, no X Festival Amazonas de Ópera, com regência de Marcelo de Jesus. |
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