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Entrevista com Cyclophonica
Julho/2003

Desde a Idade Média tocam-se instrumentos sobre cavalos, camelos,
elefantes. Mas só no Brasil existe um grupo que faz música erudita e
popular, com instrumentos acústicos, em cima de bicicletas: é a
Cyclophonica, liderada pelo oboísta e professor universitário Leonardo Fuks.

CYCLOPHONICA: o maior "movimento musical" da história

Para muitos desavisados, o título acima parecerá um exagero publicitário, uma falta absoluta de humildade e uma inaceitável arrogância anti-musicológica.
Entretanto, se considerarmos que esta inusitada orquestra sobre bicicletas toca ao longo de trajetórias de mais de 10 km (como em 25/01/2003, no aniversário de São Paulo) e atinge 50 km/h em ladeiras íngremes, deveremos reconhecer este mérito ao menos cinemático...

Como começou este movimento musical ?

Teremos que nos remeter a Estocolmo, Suécia, ano de 1997, onde um brasileiro cursava o doutorado em acústica musical, tocava oboé na orquestra filarmônica de Nacka (a 15 km de Estocolmo) e se transportava exclusivamente de bicicleta nas perfeitas ciclovias suecas, inclusive durante os dias de inverno. Leonardo Fuks, oboísta e engenheiro, hoje professor adjunto de Acústica Musical e de Fisiologia da Voz da Escola de Música da UFRJ, sonhou numa noite com uma mistura destes três elementos : a pesquisa em seu laboratório acústico-musical, a prática musical instrumental e o ciclismo urbano. No dia seguinte, adaptou à bicicleta uma flauta Selje escandinava de apenas um furo e começou a dar voltas dentro do estacionamento do sisudo prédio do Instituto Real de Tecnologia da Suécia enquanto tocava melodias nordestinas brasileiras. Embora sem testemunhas ou qualquer registro válido, este experimento foi considerado como bem sucedido e o candidato a cientista partiu imediatamente para elaborar um projeto sob a forma de um Manifesto Cyclophonico, conforme em anexo. Vale lembrar que diversos movimentos
artísticos foram deflagrados através de manifestos; portanto, o Cyclophonico representa talvez o último manifesto estético produzido no século passado...

"A Cyclophonica deve ir aonde o Povo está: localizá-lo, segui-lo e persegui-lo, se necessário for."

O que diz o Manifesto Cyclophonico?

CYCLOPHONICA: Uma modalidade artístico-desportiva, interagindo música, ciclismo e Urbanismo.

Música é a mais difundida, universal e estimulante forma de expressão humana e ciclismo é o mais popular, econômico, ecológico e acessível meio de transporte e de lazer no planeta. Entretanto, estas duas atividades raramente se encontram reunidas. Em uma orquestra convencional os músicos sentam-se, assim como seus ouvintes. Em uma banda marcial, os executantes marcham monotonamente e seus ouvintes se posicionam às margens de uma trajetória previsível. Entretanto, música é movimento e tanto músicos quanto público tendem a mover-se, apesar das limitações impostas pelas regras de comportamento e pelo próprio espaço físico. O Projeto Cyclophonica consiste em um novo conceito de orquestra e de ambiente de projeção artística no qual os músicos se locomovem de bicicleta tocando instrumentos especialmente desenhados, a que denominamos bicicletas-instrumentos.

Bicicletas-instrumentos fazem uso da energia disponível nas formas mecânica/elétrica/eólica e das possibilidades cinemáticas oferecidas pela bicicleta. O performance, portanto, é feito de maneira interativa através de ciclovias, ruas, monumentos, jardins, estradas e cidades. Diversas formações musicais são possíveis e um novo campo de som, imagem, composição e execução pode ser

explorado. O público pode assumir diversas configurações com relação à formação, tais como estática, caminhando, de bicicleta, de patins e combinações destas. Soluções ergonômicas estão sendo buscadas com o intuito de adaptar instrumentos tradicionais ou mesmo de desenvolver novos instrumentos. Os sistemas serão projetados de forma a assegurar uso otimizado da energia e da capacidade de controle dos artistas, enquanto garantindo os mesmos níveis de segurança encontrado em veículos convencionais. Por exemplo, as barras de direção poderão ser modificadas para o controle através dos cotovelos, assim liberando o ante-braço e mãos para o controle dos instrumentos. Os instrumentos de sopro serão ativados pelo próprio sistema respiratório ou por sistemas mecânicos de bombeamento. Instrumentos poderão ter seus mecanismos de chaves modificados para possibilitar um controle flexível e funcional. Apitos de diversos tipos poderão ser utilizados, viabilizando a formação de um naipe que executa padrões ritmicos e timbrísticos sem o emprego das mãos. As tradicionais buzinas de bicicletas, que utilizam foles e palhetas, serão certamente aproveitadas. Cornetas, didjeridus (instrumento de sopro da Austrália) e outros instrumentos que não requerem uso de duas mãos são também altamente apropriados. Instrumentos de percussão poderão ser acoplados ao movimento das rodas ou do pedal e acumuladores mecânicos poderão viabilizar novas soluções de geradores e dispositivos de ritmos. Os diversos modelos de sinetas de biciletas serão também incorporados. Intrumentos de cordas tais como vielas de roda e cítaras poderão ser adotados. Também, instrumentos não convencionais poderão ser adaptados, por exemplo a harmônica de vidro e o serrote musical. A possibilidade de emprego de instrumentos elétricos e eletrônicos também oferece a vantagem dos recursos de geração elétrica na bicicleta e também o transporte de uma bateria e caixas de som. A voz humana é certamente outro membro potencial da formação e um sistema individual de amplificação poderá ser proporcionado. O conjunto cyclophonica irá incorporar um sistema de comunicação por rádio entre os executantes, fornecendo informações e instruções relevantes referentes ao posicionamento espacial, sincronia musical e também para a eventual gravação e difusão da execução de cada músico. Um sistema de luzes pulsantes será projetado para assegurar a execução precisa e sincronizada.
Este sistema de comunicações será coordenado por um dirigente que será capaz de se mover entre os subgrupos e também atuar como executante.
Planeja-se também desenvolver, em etapa posterior, um sistema de simulação por computadores com o objetivo de auxiliar no ensaio e preparação das
execuções. O simulador incluirá uma base de dados que conterá o mapeamento espacial e acústico das locações, e os executantes poderão simular toda a performance em bicicletas ergonômicas conectadas a tal sistema de navegação virtual, sem a necessidade de conhecer as locações antecipadamente, assim barateando a produção e aumentando o impacto dos espetáculos. Compositores e coreógrafos serão convidados para escreveram obras originais ou adaptarem obras pré-existentes. A equipe multidisciplinar de profissionais consistirá de engenheiros, técnicos, compositores, instrutores físicos, técnicos e construtores de instrumentos musiciais, arquitetos, instrumentistas-ciclistas, programadores de computadores, etc.
Indústrias de bicicletas, institutos de design, companhias de telecomunicações e fábricas de instrumentos serão contactados para colaboração técnica e artística e também para o patrocínio conforme suas especificidades. Agências de viagem, redes hoteleiras e companhias aéres serão contactadas para apoio e para a parceria nos eventos. O patrocínio será preferencialmente proposto a companhias e organizações que promovam produtos e serviços que promovam a saúde, a cultura e o bem-estar.

Como foi a história dos "Happening & Cancelling"?

No ano de 1998, Leonardo contactou uma grande fábrica sueca de bicicletas e propôs a realização de um primeiro "happening" cyclophonico. A empresa imediatamente contra-propôs a realização de um grande evento de verão na belíssima ilha de Gottland (onde vive Ingmar Bergman), combinando ciclistas
desnudos (!) e cyclophonistas com trajes de banho. A empresa ofereceu dez bicicletas e uma determinada verba para a produção. Entretanto,

os compromissos acadêmicos do doutorando e a escassez de tempo livre para a produção impediram a execução do projeto, transformando este happening em um primeiro "cancelling" cyclophonico.

Como foi o início no Brasil?

Ao retornar ao Brasil após a defesa de sua tese (http://www.speech.kth.se/music/publications/leofuks/thesis/contents.html), em 1999, Fuks contactou diversos amigos músicos profissionais que também praticavam o ciclismo. Nesta mesma época surgiu um convite por parte do Congresso Internacional de Engenharia de Produção para um evento que reunisse arte e aspectos da engenharia de produção, como interface homem-máquina (ergonomia), organização do trabalho, movimentos e tempos, entre outros. O professor Luiz Meirelles (da UFRJ), então presidente do referido congresso, viabilizou este primeiro evento que se realizou na tradicional Praça Paris do Rio de Janeiro. A idéia era a de contar a história daquela praça, com um projeto arquitetônico semelhante aos jardins de Versailles, construída numa região de aterro no mar, perto de onde outrora viviam índios Tamoios e Tupinambás, embaixo da qual passava o metrô, etc.
Após a estréia na Praça Paris, Fuks esteve em contato com o grande músico Hermeto Pascoal, que se entusiasmou com a idéia e se tornou o padrinho espiritual do grupo. Numa entrevista ao Jornal do Brasil, Hermeto delarou "É um negócio muito bom, não apelativo, de bom gosto. Se arrumarem uma bicicleta elétrica com controle remoto, podem contar comigo".


E como são feitos os ensaios?

Fazer um ensaio padrão para a Cylcophonica não é tarefa fácil: por se tratar de uma execução complexa, que envolve tocar e se equilibrar ao mesmo tempo, escutar e sincronizar com os outros em movimento, tocar de memória, trocar freqüentemente de instrumento, adaptar os mesmos às bicicletas e ao corpo e

realizar determinadas "cyclocoreografias" , optou-se por fazer alguns ensaios "parados" complementados com ensaios com as bicicletas. O lugar mais freqüentemente usado para os ensaios com bicicletas é o Parque dos Patins, localizado à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, distante da parte residencial, relativamente seguro e constantemente iluminado. Nos primeiros ensaios realizados num parque da Praia de Botafogo, o grupo foi surpreendido com alguns cães que corriam atrás das bicicletas sonoras, e que constitutiu o primeiro público da Cyclophonica.


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