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Desde a Idade Média tocam-se instrumentos
sobre cavalos, camelos,
elefantes. Mas só no Brasil existe
um grupo que faz música erudita e
popular, com instrumentos acústicos,
em cima de bicicletas: é a
Cyclophonica, liderada pelo oboísta
e professor universitário Leonardo
Fuks.
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CYCLOPHONICA:
o maior "movimento musical" da história
Para muitos desavisados, o título acima
parecerá um exagero publicitário,
uma falta absoluta de humildade e uma inaceitável
arrogância anti-musicológica.
Entretanto, se considerarmos que esta inusitada
orquestra sobre bicicletas toca ao longo de trajetórias
de mais de 10 km (como em 25/01/2003, no aniversário
de São Paulo) e atinge 50 km/h em ladeiras
íngremes, deveremos reconhecer este mérito
ao menos cinemático...
Como
começou este movimento musical ?
Teremos que nos remeter a Estocolmo, Suécia,
ano de 1997, onde um brasileiro cursava o doutorado
em acústica musical, tocava oboé na
orquestra filarmônica de Nacka (a 15 km de
Estocolmo) e se transportava exclusivamente de bicicleta
nas perfeitas ciclovias suecas, inclusive durante
os dias de inverno. Leonardo Fuks, oboísta
e engenheiro, hoje professor adjunto de Acústica
Musical e de Fisiologia da Voz da Escola de Música
da UFRJ, sonhou numa noite com uma mistura destes
três elementos : a pesquisa em seu laboratório
acústico-musical, a prática musical
instrumental e o ciclismo urbano. No dia seguinte,
adaptou à bicicleta uma flauta Selje escandinava
de apenas um furo e começou a dar voltas
dentro do estacionamento do sisudo prédio
do Instituto Real de Tecnologia da Suécia
enquanto tocava melodias nordestinas brasileiras.
Embora sem testemunhas ou qualquer registro válido,
este experimento foi considerado como bem sucedido
e o candidato a cientista partiu imediatamente para
elaborar um projeto sob a forma de um Manifesto
Cyclophonico, conforme em anexo. Vale lembrar que
diversos movimentos
artísticos foram deflagrados através
de manifestos; portanto, o Cyclophonico representa
talvez o último manifesto estético
produzido no século passado... "A
Cyclophonica deve ir aonde o Povo está:
localizá-lo, segui-lo e persegui-lo, se
necessário for."
O
que diz o Manifesto Cyclophonico?
CYCLOPHONICA: Uma modalidade artístico-desportiva,
interagindo música, ciclismo e Urbanismo.
Música é a mais difundida, universal
e estimulante forma de expressão humana e
ciclismo é o mais popular, econômico,
ecológico e acessível meio de transporte
e de lazer no planeta. Entretanto, estas duas atividades
raramente se encontram reunidas. Em uma orquestra
convencional os músicos sentam-se, assim
como seus ouvintes. Em uma banda marcial, os executantes
marcham monotonamente e seus ouvintes se posicionam
às margens de uma trajetória previsível.
Entretanto, música é movimento e tanto
músicos quanto público tendem a mover-se,
apesar das limitações impostas pelas
regras de comportamento e pelo próprio espaço
físico. O Projeto Cyclophonica consiste em
um novo conceito de orquestra e de ambiente de projeção
artística no qual os músicos se locomovem
de bicicleta tocando instrumentos especialmente
desenhados, a que denominamos bicicletas-instrumentos.
| Bicicletas-instrumentos
fazem uso da energia disponível nas
formas mecânica/elétrica/eólica
e das possibilidades cinemáticas
oferecidas pela bicicleta. O performance,
portanto, é feito de maneira interativa
através de ciclovias, ruas, monumentos,
jardins, estradas e cidades. Diversas formações
musicais são possíveis e um
novo campo de som, imagem, composição
e execução pode ser
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explorado. O público pode assumir diversas
configurações com relação
à formação, tais como estática,
caminhando, de bicicleta, de patins e combinações
destas. Soluções ergonômicas
estão sendo buscadas com o intuito de adaptar
instrumentos tradicionais ou mesmo de desenvolver
novos instrumentos. Os sistemas serão projetados
de forma a assegurar uso otimizado da energia e
da capacidade de controle dos artistas, enquanto
garantindo os mesmos níveis de segurança
encontrado em veículos convencionais. Por
exemplo, as barras de direção poderão
ser modificadas para o controle através dos
cotovelos, assim liberando o ante-braço e
mãos para o controle dos instrumentos. Os
instrumentos de sopro serão ativados pelo
próprio sistema respiratório ou por
sistemas mecânicos de bombeamento. Instrumentos
poderão ter seus mecanismos de chaves modificados
para possibilitar um controle flexível e
funcional. Apitos de diversos tipos poderão
ser utilizados, viabilizando a formação
de um naipe que executa padrões ritmicos
e timbrísticos sem o emprego das mãos.
As tradicionais buzinas de bicicletas, que utilizam
foles e palhetas, serão certamente aproveitadas.
Cornetas, didjeridus (instrumento de sopro da Austrália)
e outros instrumentos que não requerem uso
de duas mãos são também altamente
apropriados. Instrumentos de percussão poderão
ser acoplados ao movimento das rodas ou do pedal
e acumuladores mecânicos poderão viabilizar
novas soluções de geradores e dispositivos
de ritmos. Os diversos modelos de sinetas de biciletas
serão também incorporados. Intrumentos
de cordas tais como vielas de roda e cítaras
poderão ser adotados. Também, instrumentos
não convencionais poderão ser adaptados,
por exemplo a harmônica de vidro e o serrote
musical. A possibilidade de emprego de instrumentos
elétricos e eletrônicos também
oferece a vantagem dos recursos de geração
elétrica na bicicleta e também o transporte
de uma bateria e caixas de som. A voz humana é
certamente outro membro potencial da formação
e um sistema individual de amplificação
poderá ser proporcionado. O conjunto cyclophonica
irá incorporar um sistema de comunicação
por rádio entre os executantes, fornecendo
informações e instruções
relevantes referentes ao posicionamento espacial,
sincronia musical e também para a eventual
gravação e difusão da execução
de cada músico. Um sistema de luzes pulsantes
será projetado para assegurar a execução
precisa e sincronizada.
Este sistema de comunicações será
coordenado por um dirigente que será capaz
de se mover entre os subgrupos e também atuar
como executante.
Planeja-se também desenvolver, em etapa
posterior, um sistema de simulação
por computadores com o objetivo de auxiliar no
ensaio e preparação das
execuções. O simulador incluirá
uma base de dados que conterá o mapeamento
espacial e acústico das locações,
e os executantes poderão simular toda a
performance em bicicletas ergonômicas conectadas
a tal sistema de navegação virtual,
sem a necessidade de conhecer as locações
antecipadamente, assim barateando a produção
e aumentando o impacto dos espetáculos.
Compositores e coreógrafos serão
convidados para escreveram obras originais ou
adaptarem obras pré-existentes. A equipe
multidisciplinar de profissionais consistirá
de engenheiros, técnicos, compositores,
instrutores físicos, técnicos e
construtores de instrumentos musiciais, arquitetos,
instrumentistas-ciclistas, programadores de computadores,
etc.
Indústrias de bicicletas, institutos de design,
companhias de telecomunicações e fábricas
de instrumentos serão contactados para colaboração
técnica e artística e também
para o patrocínio conforme suas especificidades.
Agências de viagem, redes hoteleiras e companhias
aéres serão contactadas para apoio
e para a parceria nos eventos. O patrocínio
será preferencialmente proposto a companhias
e organizações que promovam produtos
e serviços que promovam a saúde, a
cultura e o bem-estar.
Como
foi a história dos "Happening &
Cancelling"?
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No ano de 1998, Leonardo contactou uma grande
fábrica sueca de bicicletas e propôs
a realização de um primeiro
"happening" cyclophonico. A empresa
imediatamente contra-propôs a realização
de um grande evento de verão na belíssima
ilha de Gottland (onde vive Ingmar Bergman),
combinando ciclistas
desnudos (!) e cyclophonistas com trajes
de banho. A empresa ofereceu dez bicicletas
e uma determinada verba para a produção.
Entretanto,
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os compromissos acadêmicos do doutorando e
a escassez de tempo livre para a produção
impediram a execução do projeto, transformando
este happening em um primeiro "cancelling"
cyclophonico.
Como
foi o início no Brasil?
Ao retornar ao Brasil após a defesa de sua
tese (http://www.speech.kth.se/music/publications/leofuks/thesis/contents.html),
em 1999, Fuks contactou diversos amigos músicos
profissionais que também praticavam o ciclismo.
Nesta mesma época surgiu um convite por parte
do Congresso Internacional de Engenharia de Produção
para um evento que reunisse arte e aspectos da engenharia
de produção, como interface homem-máquina
(ergonomia), organização do trabalho,
movimentos e tempos, entre outros. O professor Luiz
Meirelles (da UFRJ), então presidente do
referido congresso, viabilizou este primeiro evento
que se realizou na tradicional Praça Paris
do Rio de Janeiro. A idéia era a de contar
a história daquela praça, com um projeto
arquitetônico semelhante aos jardins de Versailles,
construída numa região de aterro no
mar, perto de onde outrora viviam índios
Tamoios e Tupinambás, embaixo da qual passava
o metrô, etc.
Após a estréia na Praça Paris,
Fuks esteve em contato com o grande músico
Hermeto Pascoal, que se entusiasmou com a idéia
e se tornou o padrinho espiritual do grupo. Numa
entrevista ao Jornal do Brasil, Hermeto delarou
"É um negócio muito bom, não
apelativo, de bom gosto. Se arrumarem uma bicicleta
elétrica com controle remoto, podem contar
comigo".
E como são feitos os ensaios?
| Fazer
um ensaio padrão para a Cylcophonica
não é tarefa fácil:
por se tratar de uma execução
complexa, que envolve tocar e se equilibrar
ao mesmo tempo, escutar e sincronizar com
os outros em movimento, tocar de memória,
trocar freqüentemente de instrumento,
adaptar os mesmos às bicicletas e
ao corpo e |

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realizar determinadas "cyclocoreografias"
, optou-se por fazer alguns ensaios "parados"
complementados com ensaios com as bicicletas. O
lugar mais freqüentemente usado para os ensaios
com bicicletas é o Parque dos Patins, localizado
à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, distante
da parte residencial, relativamente seguro e constantemente
iluminado. Nos primeiros ensaios realizados num
parque da Praia de Botafogo, o grupo foi surpreendido
com alguns cães que corriam atrás
das bicicletas sonoras, e que constitutiu o primeiro
público da Cyclophonica.
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