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Eduardo Bochicchio é regente, pianista
e cantor, formado pela Faculdade Santa Marcelina
de São Paulo, e pelo Conservatório
San Pietro a Majella, na Itália.
É regente titular do CamPet Singers,
premiado conjunto vocal italiano. O seu
trabalho poderá ser conhecido na
capela do Páteo do Colégio,
em 3 de setembro, apresentando um concerto
de música sacra barroca junto ao
Coral e Orquestra da Associação
Cultural Opera Mundi de São Paulo.
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Você
começou sua carreira como pianista. Conte-nos
um pouco a respeito desse início.
Começou em 1979 aos 13 anos, sem querer.
Um simples telefonema da minha tia que queria falar
comigo acabou se transformando na minha primeira
aula de piano. A professora já estava me
esperando. Como eu não podia sair correndo
aceitei aquele "presente". Os primeiros
2 anos foram assim: sem o piano em casa eu ia a
cada 2 dias estudar na casa da minha tia. Em 1981
chegou em casa o piano que me levaria até
o final da faculdade. Naquele mesmo ano conheci
uma pessoa muito importante na minha vida musical,
Afonso Celso Figueiredo, que de amigo se transformou
no meu professor de piano. A sua paixão pela
música acabou me contagiando. E tenho certeza
que a minha vida foi decidida naqueles anos.
Em 1984 entrei para a Faculdade Santa Marcelina
em São Paulo onde tive os meus primeiros
contactos mais sérios com o mundo musical.
Durante o periodo da faculdade eu estudei piano
com a Profª. Maria Helena Amaral, aluna da
Sra. Menininha Lobo. A cada dois meses tinhamos
que apresentar um concerto novo, e esta experiência
formou o que seria no futuro uma das minhas principais
caracteristicas: a leitura á primeira vista
e a velocidade de preparação dos concertos.
A decisão de não ser pianista solista
veio já durante os primeiros anos de faculdade.
Eu me divertia mais fazendo música com outras
pessoas ao mesmo tempo. Este divertimento eu levo
até hoje nos meus trabalhos como maestro
acompanhador e como camerista.
Como foi a sua "iniciação"
no canto lírico?
| A
minha paixão pelo canto começou
logo depois do piano. Em 1981 entrei no
coral de um pequeno conservatório
de São Paulo e nunca mais parei.
Será difícil esquecer a emoção
dos primeiros ensaios. Em 1983 fui cantar
num dos principais corais amadores da época,
o Madrigal Veredas, regido pelo M° Abel
Rocha, outra figura importantíssima
na minha vida musical.
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Dois anos mais tarde consegui entrar no Coral do
Estado de São Paulo, regido pela Profª.
Matha Herr. O meu primeiro "salário"
foi usado para ter as primeiras aulas de canto,
com a Profª Marta Laurito e logo depois com
a Profª Martha Herr. Posso dizer que aquele
período foi o mais importante para a base
da minha formação musical. Em 1988
eu entrei no Coral Paulistano do Teatro Municipal
de São Paulo por um breve período,
até a minha transferência para a Italia
em 1989.
Por
que você escolheu a Itália?
Foi uma escolha quase natural. O lado paterno da
minha familia é italiana. E a curiosidade
de conhecer o país do canto lírico
era muito forte. Eu fui para ter um confronto com
uma cultura radicada há séculos. O
impacto foi muito forte. Eu escolhi uma região
da Italia muito rica de tradições
e história. Antes de chegar lá eu
não tinha a mínima idéia que
a diferença entre as cidades fosse tão
grande. As dominações que a Italia
sofreu em toda a sua história formou uma
popolação rica de cultura mas de comportamentos
completamente diferentes. Napoli é, talvez,
o exemplo maior dessa diferença. Tudo é
extremamente exagerado, no bem e no mal. E no começo
eu tive não poucas dificuldades com isso,
a começar com o "dialetto napoletano",
hoje considerada uma lingua, com gramática
e dicionário, que uma boa parte da popolação
usa normalmente.
Depois de uma semana eu fiz uma audição
para o Conservatório San Pietro a Majella
e entrei na classe de canto lírico do M°
Raffaele Passaro.
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Comecei a entrar assim mais a fundo no mundo
da música lírica, no país
dela. Foram 5 anos difíceis mas muito
importantes. Além de estudar no conservatorio
eu precisava me sustentar. Assim eu começei
a dar aulas de piano
(ainda bem que a linguagem musical é
universal!!!) e cantar em alguns corais.
Entrar no meio musical napolitano era a
parte mais difícil e fundamental
da história.
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Que
tipo de trabalho você desenvolve na Itália?
Atualmente desenvolvo um trabalho didático
com o piano, aulas de teoria musical, pianista acompanhador,
cantor, regente coral e orquestral. No final, todas
as minhas experiências passadas estão
sendo usadas no meu trabalho atual. Além
dos alunos de piano e teoria musical, eu sou cantor
de um dos principais grupos corais de música
barroca da Italia, "Ensemble Vocale di Napoli".
Quando necessário faço o trabalho
de pianista acompanhador para este grupo. Como regente
coral tenho atualmente 2 grupos e um terceiro se
formando. O principal trabalho coral estou desenvolvendo
com o grupo " CamPet Singers" de Napoli.
Estou tendo um contato muito interessante com a
"Orchestra Philharmonia Mediterranea"
de Cosenza (Calabria).
Fale
um pouco sobre a sua experiência nos principais
teatros liricos italianos.
Foi a realização de um sonho e fruto
de muito trabalho e perseverança. Depois
de me formar no Conservatorio em 1994, eu fiz uma
viagem para a Suiça e a França com
uma produção operistica italiana.
Ao voltar para a Italia eu fiz uma audição
para o coro da Arena di Verona. Dai pra frente eu
trabalhei em alguns dos principais coros dos teatros
líricos italianos como: Ente Lirico Arena
di Verona; Sferisterio di Macerata; Teatro Bellini
(Catania); Teatro La Fenice (Venezia); Teatro Alla
Scala (Milano); Teatro Lirico (Cagliari). Nestes
teatros eu trabalhei com grandes regentes como:
Riccardo Muti; Lorin Maazel; Tom Koopman; Daniel
Oren; Peter Maag; Donato Renzetti; V. Jurowskj;
G. Rozhdestvensky; etc....e diretores de cena como:
Franco Zefirelli; Hugo de Anna; Giuliano Montaldo;
Gilbert Deflo; Henning Brockhaus; etc....
O
que é o CamPet Singers e como surgiu o
trabalho que você desenvolve com este grupo?
| Posso
dizer que foi o meu começo como regente
coral na Italia. CamPet Singers é
um grupo vocal de Napoli que tem como caracteristica
principal a realização de
músicas instrumentais com arranjos
vocais. Eles sempre trabalharam sem regente
até a proposta que tiveram de fazer
um concerto com musicas de Brahms. De uma
ajuda inicial para a preparação
do concerto, eu fui nomeado diretor musical
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do grupo. E´ um trabalho dos mais divertentes.
O grupo é composto por 12 pessoas, e a maioria
se conhece há mais de 20 anos. Desde que
eu entrei para o grupo, eu uso a experiência
deles no campo da música "a cappella"
com a minha. O resultado final é de uma música
feita com grande intensidade emotiva. Como premio
pelo trabalho, em novembro de 2002, fomos premiados
com o 2° lugar ( 1° non dado ) no I°
Concorso Corale Cittá di Napoli. Se hoje
eu consegui um espaço na regencia coral italiana
é graças a eles.
Você
regeu o coro da cidade de Crotone no Festival
dell'Aurora. Quais os frutos deste trabalho?
No início de 2002 fui chamado para formar
e reger o "Coro dell´Aurora" da
cidade de Crotone (Calabria). Este coro participaria
ao "Festival dell´Aurora", festival
internacional de música que acontece no mes
de maio desde 1995. Depois do trabalho inicial de
formação, o coro participou do festival
com grande sucesso e o meu trabalho foi confirmado.
No mes de novembro participamos a um importante
festival de música sacra na cidade de Monreale
(Calabria), executando o Requiem de Cherubini e
outras peças sacras, junto com o soprano
Cecilia Gasdia e acompanhados pela Orchestra Philharmonia
Mediterranea. Infelizmente, por motivos politicos,
o coro parou de existir desde o começo de
2003. Foi muito importante o meu trabalho em Crotone,
porque pude abrir os meus primeiros contatos com
a Orchestra Philharmonia de Cosenza, que tive a
honra de reger no final de 2002. Fui convidado a
reger a Orquestra no festival " Itinerari Musicali
nell´Europa Rinascimentale e Barocca"
na cidade de Cosenza.
Nesta
sua temporada de férias no Brasil, o que
mais te chamou a atenção na cena
lírica nacional?
Na verdade eu não trabalhei com música
no Brasil desde que eu fui para a Italia. Mantive
contatos de grande amizade com pessoas com quem
eu tinha trabalhado na época, e agora surgiu
esta oportunidade de realizar este pequeno concerto
em São Paulo com uma nova associação
chamada ACOM - Associação Cultural
Opera Mundi, representada pela Profª. Teresa
Longatto da FAAM.Pela primeira vez, depois de 14
anos eu pude trabalhar com alguns
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músicos brasileiros. O coral e a
orquestra da associação são
de bom nível, com grandes perpectivas
de melhoras. O trabalho foi muito interessante,
principalmente porque fizemos 2 peças
de compositores napolitanos: " Veni
Creator Spiritus" para soprano solo,
coro e orquestra de cordas de Niccoló
Jomelli; "Magnificat" para coro
e instrumentos de Domenico Cimarosa, e "Magnificat"
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Vivaldi, onde eu pude transmitir um pouco da minha
experiência napolitana a eles. Associações
como esta podem ser uma escola importante para a
formação do músico, desde que
tenham a ajuda de órgãos competentes
e patrocinadores, para um maior intercambio de artistas
importantes e músicos no inicio da carreira.
Como
você vê o futuro dos músicos
eruditos brasileiros? É realmente necessário
sair do país para ter uma formação
completa e uma carreira de prestígio?
Bom, a história não é tão
simples assim. Uma viagem ao exterior é um
conselho que dou á todas as pessoas que querem
seguir a profissão. Não porque o país
não tenha bons professores, mas para um confronto
profissional mais completo. Infelizmente o Brasil
não é um país de tradição
musical erudita. A importância que a Europa
ou os EUA dão á música será
sempre diferente em
| relação
ao Brasil. Nós temos muitos exemplos
de ótimos músicos brasileiros
em carreira internacional. Mas a questão
principal é: " E´ possível
viver de música erudita no Brasil?"
A possibilidade de trabalhar com músicos
importantes de nivel internacional será
possível só saindo do país.
Para que isso possa ser mudado no futuro,
o Brasil e os seus dirigentes precisam criar
um polo de atração e transformar
o Brasil num dos principais países
do circuito internacional.
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