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Entrevista com Eduardo Bochicchio
Setembro/2003

Eduardo Bochicchio é regente, pianista e cantor, formado pela Faculdade Santa Marcelina de São Paulo, e pelo Conservatório San Pietro a Majella, na Itália. É regente titular do CamPet Singers, premiado conjunto vocal italiano. O seu trabalho poderá ser conhecido na capela do Páteo do Colégio, em 3 de setembro, apresentando um concerto de música sacra barroca junto ao Coral e Orquestra da Associação Cultural Opera Mundi de São Paulo.

Você começou sua carreira como pianista. Conte-nos um pouco a respeito desse início.

Começou em 1979 aos 13 anos, sem querer. Um simples telefonema da minha tia que queria falar comigo acabou se transformando na minha primeira aula de piano. A professora já estava me esperando. Como eu não podia sair correndo aceitei aquele "presente". Os primeiros 2 anos foram assim: sem o piano em casa eu ia a cada 2 dias estudar na casa da minha tia. Em 1981 chegou em casa o piano que me levaria até o final da faculdade. Naquele mesmo ano conheci uma pessoa muito importante na minha vida musical, Afonso Celso Figueiredo, que de amigo se transformou no meu professor de piano. A sua paixão pela música acabou me contagiando. E tenho certeza que a minha vida foi decidida naqueles anos.
Em 1984 entrei para a Faculdade Santa Marcelina em São Paulo onde tive os meus primeiros contactos mais sérios com o mundo musical. Durante o periodo da faculdade eu estudei piano com a Profª. Maria Helena Amaral, aluna da Sra. Menininha Lobo. A cada dois meses tinhamos que apresentar um concerto novo, e esta experiência formou o que seria no futuro uma das minhas principais caracteristicas: a leitura á primeira vista e a velocidade de preparação dos concertos. A decisão de não ser pianista solista veio já durante os primeiros anos de faculdade. Eu me divertia mais fazendo música com outras pessoas ao mesmo tempo. Este divertimento eu levo até hoje nos meus trabalhos como maestro acompanhador e como camerista.


Como foi a sua "iniciação" no canto lírico?

A minha paixão pelo canto começou logo depois do piano. Em 1981 entrei no coral de um pequeno conservatório de São Paulo e nunca mais parei. Será difícil esquecer a emoção dos primeiros ensaios. Em 1983 fui cantar num dos principais corais amadores da época, o Madrigal Veredas, regido pelo M° Abel Rocha, outra figura importantíssima na minha vida musical.

Dois anos mais tarde consegui entrar no Coral do Estado de São Paulo, regido pela Profª. Matha Herr. O meu primeiro "salário" foi usado para ter as primeiras aulas de canto, com a Profª Marta Laurito e logo depois com a Profª Martha Herr. Posso dizer que aquele período foi o mais importante para a base da minha formação musical. Em 1988 eu entrei no Coral Paulistano do Teatro Municipal de São Paulo por um breve período, até a minha transferência para a Italia em 1989.

Por que você escolheu a Itália?

Foi uma escolha quase natural. O lado paterno da minha familia é italiana. E a curiosidade de conhecer o país do canto lírico era muito forte. Eu fui para ter um confronto com uma cultura radicada há séculos. O impacto foi muito forte. Eu escolhi uma região da Italia muito rica de tradições e história. Antes de chegar lá eu não tinha a mínima idéia que a diferença entre as cidades fosse tão grande. As dominações que a Italia sofreu em toda a sua história formou uma popolação rica de cultura mas de comportamentos completamente diferentes. Napoli é, talvez, o exemplo maior dessa diferença. Tudo é extremamente exagerado, no bem e no mal. E no começo eu tive não poucas dificuldades com isso, a começar com o "dialetto napoletano", hoje considerada uma lingua, com gramática e dicionário, que uma boa parte da popolação usa normalmente.
Depois de uma semana eu fiz uma audição para o Conservatório San Pietro a Majella e entrei na classe de canto lírico do M° Raffaele Passaro.

Comecei a entrar assim mais a fundo no mundo da música lírica, no país dela. Foram 5 anos difíceis mas muito importantes. Além de estudar no conservatorio eu precisava me sustentar. Assim eu começei a dar aulas de piano
(ainda bem que a linguagem musical é universal!!!) e cantar em alguns corais. Entrar no meio musical napolitano era a parte mais difícil e fundamental da história.


Que tipo de trabalho você desenvolve na Itália?

Atualmente desenvolvo um trabalho didático com o piano, aulas de teoria musical, pianista acompanhador, cantor, regente coral e orquestral. No final, todas as minhas experiências passadas estão sendo usadas no meu trabalho atual. Além dos alunos de piano e teoria musical, eu sou cantor de um dos principais grupos corais de música barroca da Italia, "Ensemble Vocale di Napoli". Quando necessário faço o trabalho de pianista acompanhador para este grupo. Como regente coral tenho atualmente 2 grupos e um terceiro se formando. O principal trabalho coral estou desenvolvendo com o grupo " CamPet Singers" de Napoli. Estou tendo um contato muito interessante com a "Orchestra Philharmonia Mediterranea" de Cosenza (Calabria).

Fale um pouco sobre a sua experiência nos principais teatros liricos italianos.

Foi a realização de um sonho e fruto de muito trabalho e perseverança. Depois de me formar no Conservatorio em 1994, eu fiz uma viagem para a Suiça e a França com uma produção operistica italiana. Ao voltar para a Italia eu fiz uma audição para o coro da Arena di Verona. Dai pra frente eu trabalhei em alguns dos principais coros dos teatros líricos italianos como: Ente Lirico Arena di Verona; Sferisterio di Macerata; Teatro Bellini (Catania); Teatro La Fenice (Venezia); Teatro Alla Scala (Milano); Teatro Lirico (Cagliari). Nestes teatros eu trabalhei com grandes regentes como: Riccardo Muti; Lorin Maazel; Tom Koopman; Daniel Oren; Peter Maag; Donato Renzetti; V. Jurowskj; G. Rozhdestvensky; etc....e diretores de cena como: Franco Zefirelli; Hugo de Anna; Giuliano Montaldo; Gilbert Deflo; Henning Brockhaus; etc....


O que é o CamPet Singers e como surgiu o trabalho que você desenvolve com este grupo?

Posso dizer que foi o meu começo como regente coral na Italia. CamPet Singers é um grupo vocal de Napoli que tem como caracteristica principal a realização de músicas instrumentais com arranjos vocais. Eles sempre trabalharam sem regente até a proposta que tiveram de fazer um concerto com musicas de Brahms. De uma ajuda inicial para a preparação do concerto, eu fui nomeado diretor musical

do grupo. E´ um trabalho dos mais divertentes. O grupo é composto por 12 pessoas, e a maioria se conhece há mais de 20 anos. Desde que eu entrei para o grupo, eu uso a experiência deles no campo da música "a cappella" com a minha. O resultado final é de uma música feita com grande intensidade emotiva. Como premio pelo trabalho, em novembro de 2002, fomos premiados com o 2° lugar ( 1° non dado ) no I° Concorso Corale Cittá di Napoli. Se hoje eu consegui um espaço na regencia coral italiana é graças a eles.

Você regeu o coro da cidade de Crotone no Festival dell'Aurora. Quais os frutos deste trabalho?

No início de 2002 fui chamado para formar e reger o "Coro dell´Aurora" da cidade de Crotone (Calabria). Este coro participaria ao "Festival dell´Aurora", festival internacional de música que acontece no mes de maio desde 1995. Depois do trabalho inicial de formação, o coro participou do festival com grande sucesso e o meu trabalho foi confirmado. No mes de novembro participamos a um importante festival de música sacra na cidade de Monreale (Calabria), executando o Requiem de Cherubini e outras peças sacras, junto com o soprano Cecilia Gasdia e acompanhados pela Orchestra Philharmonia Mediterranea. Infelizmente, por motivos politicos, o coro parou de existir desde o começo de 2003. Foi muito importante o meu trabalho em Crotone, porque pude abrir os meus primeiros contatos com a Orchestra Philharmonia de Cosenza, que tive a honra de reger no final de 2002. Fui convidado a reger a Orquestra no festival " Itinerari Musicali nell´Europa Rinascimentale e Barocca" na cidade de Cosenza.

Nesta sua temporada de férias no Brasil, o que mais te chamou a atenção na cena lírica nacional?

Na verdade eu não trabalhei com música no Brasil desde que eu fui para a Italia. Mantive contatos de grande amizade com pessoas com quem eu tinha trabalhado na época, e agora surgiu esta oportunidade de realizar este pequeno concerto em São Paulo com uma nova associação chamada ACOM - Associação Cultural Opera Mundi, representada pela Profª. Teresa Longatto da FAAM.Pela primeira vez, depois de 14 anos eu pude trabalhar com alguns

músicos brasileiros. O coral e a orquestra da associação são de bom nível, com grandes perpectivas de melhoras. O trabalho foi muito interessante, principalmente porque fizemos 2 peças de compositores napolitanos: " Veni Creator Spiritus" para soprano solo, coro e orquestra de cordas de Niccoló Jomelli; "Magnificat" para coro e instrumentos de Domenico Cimarosa, e "Magnificat" de

Vivaldi, onde eu pude transmitir um pouco da minha experiência napolitana a eles. Associações como esta podem ser uma escola importante para a formação do músico, desde que tenham a ajuda de órgãos competentes e patrocinadores, para um maior intercambio de artistas importantes e músicos no inicio da carreira.

Como você vê o futuro dos músicos eruditos brasileiros? É realmente necessário sair do país para ter uma formação completa e uma carreira de prestígio?

Bom, a história não é tão simples assim. Uma viagem ao exterior é um conselho que dou á todas as pessoas que querem seguir a profissão. Não porque o país não tenha bons professores, mas para um confronto profissional mais completo. Infelizmente o Brasil não é um país de tradição musical erudita. A importância que a Europa ou os EUA dão á música será sempre diferente em

relação ao Brasil. Nós temos muitos exemplos de ótimos músicos brasileiros em carreira internacional. Mas a questão principal é: " E´ possível viver de música erudita no Brasil?" A possibilidade de trabalhar com músicos importantes de nivel internacional será possível só saindo do país. Para que isso possa ser mudado no futuro, o Brasil e os seus dirigentes precisam criar um polo de atração e transformar o Brasil num dos principais países do circuito internacional.



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