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Eny da Rocha é uma pianista de renome
internacional, vencedora de diversos concursos
nacionais e internacionais. Neste ano de
2003 ela completa 50 anos de uma fantástica
carreira, registrada em alguns discos de
incontestável qualidade. Em meio
a tantas homenagens que está recebendo,
ela gentilmente nos recebe em sua casa para
conceder esta entrevista.
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Como
teve início a sua carreira como pianista?
Eu comecei aos 8 anos de idade, sempre gostei muito
de piano e logo pedi para o meu pai comprar um piano,
pois queria estudar. Meus pais também sempre
gostaram muito de música e isso deve ter
servido como incentivo para mim, com certeza, porque
ter música em casa já foi o primeiro
passo para eu gostar. Minha mãe sempre cantou
muito, meu pai tocava um pouco, gostava de cantar
(eles cantavam muitos trechos de óperas e
operetas), então eu cresci numa família
onde eu ouvi muita música, sempre erudita.
A pessoa que me ensinou as primeiras notinhas foi
minha mãe. Depois eu passei para uma outra
professora, e quando o meu pai percebeu que eu realmente
estava muito envolvida pelo estudo, ele me levou
ao Conservatório Dramático e Musical
de São Paulo e lá eu comecei a estudar
com a Maria de Freitas, mas não no Conservatório
e sim com ela particularmente. Eu a conheci no Conservatório,
pois o meu pai chegou lá e disse "Olha,
eu quero a melhor professora daqui para a minha
filha". Meus pais investiram muito em mim,
apesar de eu ser uma 'meninota', apesar de poder
ser apenas um 'fogo de palha' toda essa vontade
de estudar. Comecei então com a D. Maria
de Freitas, que era excelente, dedicada, e até
nos tornamos muito amigas. Ela passou a dar aulas
na minha casa, e passava uma tarde inteira dando
aula, não era uma hora, nem uma hora e meia,
era uma tarde. E isso foi um começo muito
bem conduzido, com muito carinho e muita dedicação.
Ela começou então a me preparar para
concursos, percebeu que eu estava mesmo envolvida
e queria fazer a coisa direitinho. O primeiro que
eu fiz foi o "Concurso Euclides da Cunha"
em São José do Rio Pardo. Eu tinha
então dez anos. Participei e ganhei o primeiro
lugar no turno de dez a doze anos.
Posteriormente
houve um concurso em Campinas. Eu contava
então com onze anos. Participei deste
concurso ("Carlos Gomes") e novamente
ganhei o primeiro lugar. Depois eu participei
do concurso de São José do
Rio Pardo no turno de doze a quatorze anos.
E assim foi, todo concurso que aparecia
a D. Maria de Freitas me colocava para participar
e eu abocanhava o primeiro lugar. E isso
foi um incentivo imenso |

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para mim, porque eu me senti recompensada. Eu estudava,
me preparava e recebia o retorno, uma medalha, um
troféu, tudo isso foi muito válido
para mim. Aos 15 anos eu ganhei um piano, que era
o primeiro prêmio no concurso Schwartzmann,
e o tenho até hoje. Foi a partir daí
que eu senti que a minha vida ia ser para o piano,
e isto passou a ser o foco central dos meus estudos.
Me formei então no Conservatório com
dezessete anos - eu deveria me formar com quinze,
mas eu precisava de maioridade porque o Conservatório
Dramático e Musical de São Paulo era
considerado um Curso Superior. Esta etapa foi muito
séria e muito importante para mim, pois eu
acabava o primeiro ciclo de um curso, dentro de
uma área que para mim era a minha paixão,
a minha vida. A partir daí eu fiz um aperfeiçoamento
com o Maestro Souza Lima durante 2 anos. E ele me
preparou para a Europa. Ele havia estado na Europa
por onze anos, e ele me apresentou, em Paris, à
mestra dele, a Margherite Long. Todos sonhavam em
tê-la como professora. Ela conviveu com Ravel,
Debussy, tinha um tremendo know-how. E como ela
foi professora de Souza Lima, ele fez a nossa apresentação.
Fui então para Paris para fazer um concurso
internacional e ele me mandou uma carta de apresentação.
Chegando lá logo procurei por Margherite
Long. Este foi o meu primeiro contato com um mestre
internacional.
Você
estudou em diversas escolas internacionais. Como
foi essa experiência?
Em Paris eu comecei com Margherite Long e fui
aluna também da Lucette Descaves. Eu tomava
aulas todas as semanas com a Margherite Long.
Ela tinha uma escola em Paris chamada École
Long. As aulas eram muito interessantes e eu conheci
muitos colegas de outros países, o que
foi muito gratificante para mim, pois todos eles
já estavam num estado de artista consumado.Fiquei
lá praticamente dois anos, estudando bastante,
morando em pensionato de freiras, assistindo a
concertos e dedicando todo o meu tempo para a
arte. Lá era até difícil
escolher o que assistir, tal era a diversidade
da programação. Conheci, então,
Heitor Villa-Lobos, que morava lá. Um dia
ele e sua esposa estavam na casa de uns amigos
quando eu fui apresentada a ele. Foi muito emocionante
porque eu valorizo muito esse contato humano,
acho isso muito importante. Ele ficou sabendo
que eu era uma divulgadora intensa da obra dele,
pois eu sempre toquei muita música brasileira,
e foi muito simpático, muito afável.
Depois assisti palestras e conferências
dele lá em Paris, ele era até muito
brincalhão na forma de se dirigir ao público,
tinha um francês muito engraçado,
pois misturava ao português, mas era uma
pessoa muito cativante. Conheci também
nesta mesma época o Chostakovitch, figura
ímpar no cenário mundial. Eu contava
então com 20 anos e ele estava autografando
um disco e quando me aproximei ele se levantou
como se já me conhecesse e me cumprimentou.
Eu
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estava, por acaso, com um livrinho que eu
carregava muito comigo, que era um livrinho
de autógrafos, e imediatamente entreguei-lhe
o livro e disse-lhe que era brasileira e
o admirava muito. A Rússia naquele
tempo era algo muito distante, pois estava
ainda sob o regime comunista. E esse momento
foi algo realmente muito significativo na
minha vida, ele fez de próprio punho
duas pautas em meu livro e |
escreveu o tema da sinfonia que ele estava lançando
naquele momento em disco e escreveu também
uma dedicatória em russo. Isto me marcou
profundamente, é como se tivesse me acontecido
ontem, de tanto que me emocionou. Eu ainda tenho
a imagem dele em pé na minha frente, me dando
esse autógrafo, sorrindo e me estendendo
a mão. Foi uma simpatia mútua que
aconteceu, como se fosse um milagre, porque eu nem
fui apresentada a ele, nem sabia que ele estava
lá, foi tudo muito casual, inclusive meu
livrinho estar na minha bolsa. O que me valeu muito
neste período que estive em Paris, foi que
eu participei de muitos concursos internacionais,
fui para Lisboa fazer o concurso Viana da Mota e
como fui classificada me convidaram para dar concertos
e recitais lá. Fiquei então por lá
além do período que ficaria a princípio,
para me apresentar ao público. Tive uma crítica
muito boa na época e contatos que me valeram
para o resto da vida, inclusive o Sequeira Costa,
com quem tenho amizade até hoje, uma amizade
de quase 50 anos. Depois disso fui para Nápoles
e fiz o concurso Casella, fui a Genebra participar
do concurso de lá, enfim, eu aproveitei muito
esses dois anos para participar de concursos internacionais
e me apresentar. A convite do Consulado Brasileiro
eu dei um concerto em Veneza e lá no próprio
consulado conheci o Alberto Cavalcante, cineasta.
O mundo das artes é muito grande, muito vasto.
Ele fazia coisas muito significativas no cinema,
quando o cinema ainda não tinha a força
de hoje, pois o cinema brasileiro foi galgando aos
poucos o respeito internacional. Conheci também
quando fui para Viena o Zubin Mehta, o Pavarotti,
antes dele ser um grande cantor, e isso tudo tem
um valor extraordinário na minha vida.
Quando terminei o curso com a Margherite Long eu
voltei ao Brasil, depois de ter tocado em diversas
cidades na Europa. Chegando aqui, continuei com
a minha carreira, tocando muito. Fui convidada para
tocar também na televisão sob a regência
do grande maestro Eduardo de Guarnieri. Toquei também
no canal 5
em
1959. A televisão naquela época
continha programas para elevar a cultura
e não como hoje, que não existe
a vontade de se passar cultura ao público.
Naquela época tínhamos também
a Orquestra Sinfônica da Rádio
Gazeta, formada por elementos do mais alto
gabarito, regida pelo maestro Belardi. Depois
disso, eu voltei para a Europa. Eu ganhei
uma bolsa, pela segunda vez, e fui estudar
em Viena. Me preparei para entrar
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na Academia de Viena, estudei lá com dois
grandes professores: Hans Graf, que foi meu professor
na Academia e Bruno Seidlhofer que também
era muito requisitado como professor e chegou a
vir diversas vezes ao Brasil. Com ele tive aulas
particulares. Me formei depois de quase dois anos
- normalmente os alunos ficam por quatro a cinco
anos e eu fiz a prova final em um ano e meio. Fiz
muitos contatos, concertos, conheci pessoas muito
importantes no cenário internacional, inclusive
Herbert von Karajan. Recebi críticas muito
elogiosas e fiz concertos lotação
esgotada. Decidi então voltar ao Brasil,
pois sou muito apegada à minha família.
Lecionei aqui e fiz muitas coisas, fui muito condecorada
e nunca parei de estudar. Estudar fora foi uma experiência
fantástica, que sedimentou a história
da minha vida, foi muito importante.
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O
que você pode nos contar a respeito
dos concursos que participou?
Tive muitas oportunidades
para participar de concursos quando morei
em Paris e Viena. O concurso internacional
te dá a oportunidade de conhecer
outros jovens como você, que estão
na mesma estrada, com a mesma vontade de
vencer, de se impor como artista, de colher
frutos |
do seu trabalho. Um concurso
que foi fundamental para mim foi o concurso "Margherite
Long", pois nele conheci membros do júri
como Emile Giles, russo, que foi um dos maiores
pianistas de todos os tempos. Conheci também
excelentes pianistas entre os candidatos, conheci
compositores, foi muito importante. Nestes concursos,
recebi também diversos convites para tocar
com orquestras. Quando se entra num concurso, temos
que ter em mente que tudo é válido,
que tudo é experiência, claro que o
prêmio é importante, mas não
é só isso.
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