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Entrevista com Eny da Rocha
Abril/2003

Eny da Rocha é uma pianista de renome internacional, vencedora de diversos concursos nacionais e internacionais. Neste ano de 2003 ela completa 50 anos de uma fantástica carreira, registrada em alguns discos de incontestável qualidade. Em meio a tantas homenagens que está recebendo, ela gentilmente nos recebe em sua casa para conceder esta entrevista.

Como teve início a sua carreira como pianista?

Eu comecei aos 8 anos de idade, sempre gostei muito de piano e logo pedi para o meu pai comprar um piano, pois queria estudar. Meus pais também sempre gostaram muito de música e isso deve ter servido como incentivo para mim, com certeza, porque ter música em casa já foi o primeiro passo para eu gostar. Minha mãe sempre cantou muito, meu pai tocava um pouco, gostava de cantar (eles cantavam muitos trechos de óperas e operetas), então eu cresci numa família onde eu ouvi muita música, sempre erudita. A pessoa que me ensinou as primeiras notinhas foi minha mãe. Depois eu passei para uma outra professora, e quando o meu pai percebeu que eu realmente estava muito envolvida pelo estudo, ele me levou ao Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e lá eu comecei a estudar com a Maria de Freitas, mas não no Conservatório e sim com ela particularmente. Eu a conheci no Conservatório, pois o meu pai chegou lá e disse "Olha, eu quero a melhor professora daqui para a minha filha". Meus pais investiram muito em mim, apesar de eu ser uma 'meninota', apesar de poder ser apenas um 'fogo de palha' toda essa vontade de estudar. Comecei então com a D. Maria de Freitas, que era excelente, dedicada, e até nos tornamos muito amigas. Ela passou a dar aulas na minha casa, e passava uma tarde inteira dando aula, não era uma hora, nem uma hora e meia, era uma tarde. E isso foi um começo muito bem conduzido, com muito carinho e muita dedicação. Ela começou então a me preparar para concursos, percebeu que eu estava mesmo envolvida e queria fazer a coisa direitinho. O primeiro que eu fiz foi o "Concurso Euclides da Cunha" em São José do Rio Pardo. Eu tinha então dez anos. Participei e ganhei o primeiro lugar no turno de dez a doze anos.

Posteriormente houve um concurso em Campinas. Eu contava então com onze anos. Participei deste concurso ("Carlos Gomes") e novamente ganhei o primeiro lugar. Depois eu participei do concurso de São José do Rio Pardo no turno de doze a quatorze anos. E assim foi, todo concurso que aparecia a D. Maria de Freitas me colocava para participar e eu abocanhava o primeiro lugar. E isso foi um incentivo imenso

para mim, porque eu me senti recompensada. Eu estudava, me preparava e recebia o retorno, uma medalha, um troféu, tudo isso foi muito válido para mim. Aos 15 anos eu ganhei um piano, que era o primeiro prêmio no concurso Schwartzmann, e o tenho até hoje. Foi a partir daí que eu senti que a minha vida ia ser para o piano, e isto passou a ser o foco central dos meus estudos. Me formei então no Conservatório com dezessete anos - eu deveria me formar com quinze, mas eu precisava de maioridade porque o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo era considerado um Curso Superior. Esta etapa foi muito séria e muito importante para mim, pois eu acabava o primeiro ciclo de um curso, dentro de uma área que para mim era a minha paixão, a minha vida. A partir daí eu fiz um aperfeiçoamento com o Maestro Souza Lima durante 2 anos. E ele me preparou para a Europa. Ele havia estado na Europa por onze anos, e ele me apresentou, em Paris, à mestra dele, a Margherite Long. Todos sonhavam em tê-la como professora. Ela conviveu com Ravel, Debussy, tinha um tremendo know-how. E como ela foi professora de Souza Lima, ele fez a nossa apresentação. Fui então para Paris para fazer um concurso internacional e ele me mandou uma carta de apresentação. Chegando lá logo procurei por Margherite Long. Este foi o meu primeiro contato com um mestre internacional.

Você estudou em diversas escolas internacionais. Como foi essa experiência?

Em Paris eu comecei com Margherite Long e fui aluna também da Lucette Descaves. Eu tomava aulas todas as semanas com a Margherite Long. Ela tinha uma escola em Paris chamada École Long. As aulas eram muito interessantes e eu conheci muitos colegas de outros países, o que foi muito gratificante para mim, pois todos eles já estavam num estado de artista consumado.Fiquei lá praticamente dois anos, estudando bastante, morando em pensionato de freiras, assistindo a concertos e dedicando todo o meu tempo para a arte. Lá era até difícil escolher o que assistir, tal era a diversidade da programação. Conheci, então, Heitor Villa-Lobos, que morava lá. Um dia ele e sua esposa estavam na casa de uns amigos quando eu fui apresentada a ele. Foi muito emocionante porque eu valorizo muito esse contato humano, acho isso muito importante. Ele ficou sabendo que eu era uma divulgadora intensa da obra dele, pois eu sempre toquei muita música brasileira, e foi muito simpático, muito afável. Depois assisti palestras e conferências dele lá em Paris, ele era até muito brincalhão na forma de se dirigir ao público, tinha um francês muito engraçado, pois misturava ao português, mas era uma pessoa muito cativante. Conheci também nesta mesma época o Chostakovitch, figura ímpar no cenário mundial. Eu contava então com 20 anos e ele estava autografando um disco e quando me aproximei ele se levantou como se já me conhecesse e me cumprimentou. Eu

estava, por acaso, com um livrinho que eu carregava muito comigo, que era um livrinho de autógrafos, e imediatamente entreguei-lhe o livro e disse-lhe que era brasileira e o admirava muito. A Rússia naquele tempo era algo muito distante, pois estava ainda sob o regime comunista. E esse momento foi algo realmente muito significativo na minha vida, ele fez de próprio punho duas pautas em meu livro e

escreveu o tema da sinfonia que ele estava lançando naquele momento em disco e escreveu também uma dedicatória em russo. Isto me marcou profundamente, é como se tivesse me acontecido ontem, de tanto que me emocionou. Eu ainda tenho a imagem dele em pé na minha frente, me dando esse autógrafo, sorrindo e me estendendo a mão. Foi uma simpatia mútua que aconteceu, como se fosse um milagre, porque eu nem fui apresentada a ele, nem sabia que ele estava lá, foi tudo muito casual, inclusive meu livrinho estar na minha bolsa. O que me valeu muito neste período que estive em Paris, foi que eu participei de muitos concursos internacionais, fui para Lisboa fazer o concurso Viana da Mota e como fui classificada me convidaram para dar concertos e recitais lá. Fiquei então por lá além do período que ficaria a princípio, para me apresentar ao público. Tive uma crítica muito boa na época e contatos que me valeram para o resto da vida, inclusive o Sequeira Costa, com quem tenho amizade até hoje, uma amizade de quase 50 anos. Depois disso fui para Nápoles e fiz o concurso Casella, fui a Genebra participar do concurso de lá, enfim, eu aproveitei muito esses dois anos para participar de concursos internacionais e me apresentar. A convite do Consulado Brasileiro eu dei um concerto em Veneza e lá no próprio consulado conheci o Alberto Cavalcante, cineasta. O mundo das artes é muito grande, muito vasto. Ele fazia coisas muito significativas no cinema, quando o cinema ainda não tinha a força de hoje, pois o cinema brasileiro foi galgando aos poucos o respeito internacional. Conheci também quando fui para Viena o Zubin Mehta, o Pavarotti, antes dele ser um grande cantor, e isso tudo tem um valor extraordinário na minha vida.
Quando terminei o curso com a Margherite Long eu voltei ao Brasil, depois de ter tocado em diversas cidades na Europa. Chegando aqui, continuei com a minha carreira, tocando muito. Fui convidada para tocar também na televisão sob a regência do grande maestro Eduardo de Guarnieri. Toquei também no canal 5

em 1959. A televisão naquela época continha programas para elevar a cultura e não como hoje, que não existe a vontade de se passar cultura ao público. Naquela época tínhamos também a Orquestra Sinfônica da Rádio Gazeta, formada por elementos do mais alto gabarito, regida pelo maestro Belardi. Depois disso, eu voltei para a Europa. Eu ganhei uma bolsa, pela segunda vez, e fui estudar em Viena. Me preparei para entrar

na Academia de Viena, estudei lá com dois grandes professores: Hans Graf, que foi meu professor na Academia e Bruno Seidlhofer que também era muito requisitado como professor e chegou a vir diversas vezes ao Brasil. Com ele tive aulas particulares. Me formei depois de quase dois anos - normalmente os alunos ficam por quatro a cinco anos e eu fiz a prova final em um ano e meio. Fiz muitos contatos, concertos, conheci pessoas muito importantes no cenário internacional, inclusive Herbert von Karajan. Recebi críticas muito elogiosas e fiz concertos lotação esgotada. Decidi então voltar ao Brasil, pois sou muito apegada à minha família. Lecionei aqui e fiz muitas coisas, fui muito condecorada e nunca parei de estudar. Estudar fora foi uma experiência fantástica, que sedimentou a história da minha vida, foi muito importante.


O que você pode nos contar a respeito dos concursos que participou?

Tive muitas oportunidades para participar de concursos quando morei em Paris e Viena. O concurso internacional te dá a oportunidade de conhecer outros jovens como você, que estão na mesma estrada, com a mesma vontade de vencer, de se impor como artista, de colher frutos

do seu trabalho. Um concurso que foi fundamental para mim foi o concurso "Margherite Long", pois nele conheci membros do júri como Emile Giles, russo, que foi um dos maiores pianistas de todos os tempos. Conheci também excelentes pianistas entre os candidatos, conheci compositores, foi muito importante. Nestes concursos, recebi também diversos convites para tocar com orquestras. Quando se entra num concurso, temos que ter em mente que tudo é válido, que tudo é experiência, claro que o prêmio é importante, mas não é só isso.


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