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Entrevista com Eny da Rocha
Abril/2003

Quais os seus principais trabalhos como concertista?

Os que tiveram resultado mais marcante para mim foram aqueles que fiz em benefício de obras que estavam acontecendo e precisavam de ajuda naquele momento, como por exemplo, quando houve um terremoto no Chile que destruiu várias escolas, isso foi na década de 50, e eu fiz um concerto no Rio de Janeiro pelas escolas do Chile. Fiz, posteriormente, muitos concertos em benefício de creches e de asilos. Posso citar os

mais marcantes. Em Viena eu toquei pelas vítimas da guerra de Kosovo, especialmente pelas crianças. Toquei aqui em São Paulo para a reconstrução do TUCA, após seu incêndio. Fiz, em Catanduva, um concerto pelos flagelados de uma enchente horrorosa, em que muitas pessoas perderam suas casas. Lá também fiz um concerto pela fome, onde todo o cachê foi doado para ajudar as pessoas pobres de lá. Claro que num único concerto você não mata a fome das pessoas, mas foi uma atitude que acredito servir de exemplo para que outros façam este tipo de trabalho também. Toquei também em Buenos Aires pelas vítimas da guerra das Malvinas. Tenho feito muita coisa também através de uma ONG da qual faço parte, o Clube Soroptimista Internacional de São Paulo. Eu assumi a presidência no biênio 2000-2002 e todos os eventos que eu organizei foram musicais, uma forma de angariar fundos para creches, asilos. Ao invés de cobrar ingressos, pedíamos um brinquedo. E dessa forma, através do maravilhoso caminho da música, conseguimos muitas coisas. Eu espero que a música erudita seja sempre apoiada, divulgada e cresça cada vez mais e que as pessoas saibam valorizar a preciosidade que está dentro disso.
Dentre os concertos, um que me marcou profundamente, foi um que toquei em 1995 com uma orquestra regida pelo maestro Robert Bolden no tabernáculo Mórmon, e foi aonde eu tive o maior público da minha vida - 6000 pessoas que me aplaudiram de pé. Foi uma das maiores emoções que tive, ao terminar o Concerto nº2 de Rachmaninov no piano aonde o próprio Rachmaninov tinha se apresentado tocando o mesmo concerto e uma pessoa que me apresentou, disse que tinha assistido o concerto do Rachmaninov e agora estava assistindo ao meu concerto, e disse que eu tocava melhor que o Rachmaninov (risos). Essa afirmação me deixou bastante preocupada, pois essa pessoa fez essa afirmação baseado nos nossos ensaios. Essa pessoa era o Diretor da Orquestra. Quando eu entrei no palco, senti o quanto aquela afirmação havia me balançado, pois tenho uma profunda admiração por Rachmaninov como compositor e como pianista. Imagine só ele me comparar com Rachmaninov me colocando à frente do próprio...de jeito nenhum... ele é único, sensacional, tenho paixão por ele. O concerto foi um sucesso, e, de repente, alguém no meio daquelas seis mil pessoas levanta a bandeira brasileira... isso me emocionou muito. Mostrei a minha emoção maior levando a mão ao coração, pois eram brasileiros que estavam ali, e que depois até vieram me cumprimentar. Nós artistas temos que ter sempre em conta que lá fora estaremos sempre representando o nosso país. Lá fora, seremos sempre o Brasil. Isso sempre teve muito significado para mim, tanto é que eu sempre toquei muita música brasileira. Dentro do Brasil, já toquei em quase todos os estados. Já toquei também com muitas orquestras brasileiras: Rádio Gazeta, OSB, Estadual de SP, Municipal de SP, toquei em Belo Horizonte, em Santos, com a Orquestra da USP, regida por Camargo Guarnieri, já toquei com Isaack Karabitchevski, Tibiriçá, enfim, com diversos maestros. Fiz muita música de câmara também, duos, trios, várias formações.

Dentre os seus CDs, quais aqueles que você destacaria?

O CD mais importante, que teve repercussão internacional foi "Alma Brasileira". Mas a primeira gravação que eu fiz foi "Antologia de Autores Nacionais" que foi feita em 1965 pela RGE e considerada pela associação paulista de críticos de música como a melhor gravação do ano. Depois dele eu fiquei algum tempo sem gravar, até que me convidaram para fazer um disco, mas era um selo particular que queria fazer uma gravação de música e poesia. E eu fiz e ficou muito bonito, chama-se "Sonho de Amor". É na verdade um duo

de piano e poesia porque não foi só fundo musical, a música teve uma ação preponderante no todo. Ora piano junto com poesia, ora intercalados. Foi uma experiência que me levou a diversas apresentações junto com o poeta Paulo Bonfim. Depois desse disco eu fiz um a convite da firma "Clock" de panelas de pressão (que já não existe mais), que queria fazer um disco para presentear seus clientes e eu gravei as valsas de Chopin. Na capa deste disco está uma foto de minha mãe no dia de seu casamento, uma foto bem romântica. Este disco não foi vendido, apenas distribuído. No centenário de nascimento de Villa-Lobos, eu fiz uma série de concertos com o programa inteiro dedicado a ele. E nessa ocasião eu gravei um disco só com obras dele. Depois desse disco eu gravei o CD nos EUA. Eu até gostaria de gravar mais coisas, pois hoje vejo a importância da gravação. Antes eu era meio avessa a gravações, preferia tocar ao vivo. Mas, pensando em termos de eternizar o trabalho, de deixar um registro para a posteridade, a gravação é muito importante. O concerto é restrito àquelas pessoas que o assistem, já a gravação pode atingir a todos.

Fale-nos um pouco mais sobre o CD "Brazilian Soul - Alma Brasileira".

Eu gravei o CD "Alma Brasileira" nos EUA, em Salt Lake City, e isto aconteceu casualmente. Eu conheci a pessoa que tinha um estúdio de gravação. Quando ele me ouviu tocar, ele marcou uma hora comigo para conhecer o estúdio. E, a partir daí, já marcamos a gravação. E como eu sempre divulguei muito a obra brasileira, nada melhor do que tocar autores brasileiros e também colocar aqueles que fizeram músicas em minha homenagem. É um CD com dezoito músicas. Eu comecei com a Segunda Valsa de Esquina, do Mignone, depois eu toquei a Quinta valsa dele e a Congada que são três peças muito importantes para mim. Na seqüência eu escolhi Souza Lima, e fiz duas improvisações dele, a nº1 e a nº2, e depois toquei o Prelúdio nº5, que ele dedicou a mim. Como eu estudei com o maestro, eu tocava muito as obras dele para ele e cheguei a um ponto em que ele dizia: "Olha, é assim mesmo que eu quero, Eny". De Arnardo Rebello, gravei o Lundu Amazonense e depois gravei o Odeon de Nazareth, que das peças desse compositor é uma das minhas preferidas. De Villa-Lobos eu toquei "Alma Brasileira", que deu nome ao CD, e a Dança do Índio Branco, que é uma música que sempre me é pedida para tocar. A seguir, do Domenico Barbieri, toquei a Valsa nº 1, que foi dedicada a mim. Esse compositor era médico e estudava composição. A próxima é de Eduardo Escalante, uma marcha que ele também dedicou a mim, muito bem feita, por sinal. Depois deste, coloquei Teodoro Nogueira. Ele também fez muita coisa para mim, mas escolhi um Lundu, que é uma dança brasileira que ele dedicou a mim. Muito bem feita. Esse compositor fez um trabalho sobre a música da fala, que pouca gente conhece. Ele fez uma pesquisa de mais de vinte anos sobre a música da fala. Cada pessoa, quando se expressa através da fala, faz uma música.Foi uma pesquisa realmente fantástica, e até a TV Globo fez um trabalho de divulgação dessa pesquisa. Depois eu toquei Nilson Lombardi, que é de Sorocaba e fez duas miniaturas lindíssimas, a nº2 e a nº5. São pequenininhas, mas muito especiais. Para fechar, escolhi o Sérgio Vasconcelos Corrêa, que dedicou a mim três estudos, baseados na música do Luís Gonzaga. A primeira chama-se "A Dança da Moda", um baião. A segundo chama-se "Assum Preto" e a terceira é o "Juazeiro". O Sérgio fez um trabalho lindíssimo em cima dessas três peças, dando-lhes uma roupagem erudita. Foi um CD feito com muito carinho e preocupação em situar obras menos conhecidas e de muito valor de mestres da composição brasileira.Infelizmente esse CD já se esgotou.

Como foi a sua nomeação para "Steinway Artist"?

A indústria de pianos Steinway costuma ter alguns artistas que ela chama de "Artistas do Hall of Fame". É uma espécie de homenagem que eles fazem a determinados pianistas de todo o mundo. Do Brasil existem alguns poucos que foram escolhidos e eu recebi uma carta da

Steinway de Nova Iorque, que me convidava para ser "Steinway Artist", ou seja, uma artista da Steinway, que entraria para esse "Hall da Fama". Na época eu tinha um empresário americano que fez os contatos, marcou e eu fui a Nova Iorque receber o título. Estive numa firma de pianos Steinway, onde assinei o meu nome dentro de um piano Steinway, na chapa de aço, dentro do piano. Me sinto honradíssima com isso, pois é oferecido a poucos. Eu pude deixar as minhas impressões do piano Steinway, que é uma obra de arte, uma preciosidade. Ele tem a sonoridade necessária para você poder arrancar dele o que você quiser. Você se casa com ele e é muito feliz...(risos) é um piano feito para se tocar com prazer. Meu primeiro piano foi um Becker, que ganhei de meus pais quando eu tinha 8 anos, é um piano alemão, armário, que tenho até hoje, um excelente piano, com uma sonoridade fantástica. Depois eu ganhei o piano Schwartzmann no concurso, quando tinha 15 anos, e que também tenho até hoje, fica lá na minha chácara. Jamais poderei me desfazer dele, pois é um troféu. O primeiro piano de cauda que eu tive foi um Beckstein, muito bom também. Hoje em dia, não tenho mais esse Beckstein, mas tenho um Steinway de aproximadamente 12 anos. Fantástico, por sinal.

Quando poderemos assistí-la?

O próximo recital será no Theatro São Pedro, dia 9 de maio, às 21:00h. Depois desse, tenho já um concerto em Piracicaba que ainda depende de marcação de data, tenho um dia 5 de outrubro no Museu Brasileiro de Escultura, às 16:00h. Os programas sempre trazem música brasileira e nesse do Theatro São Pedro vou tocar também Chopin e Liszt. Este do Theatro são Pedro é um concerto comemorativo dos meus 50 anos de

carreira. Espero a todos lá.

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