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Entrevista com Jamil Maluf
Março/2003

Jamil Maluf é regente titular da Orquestra Experimental de Repertório, atualmente um dos corpos estáveis do Theatro Municipal de São Paulo. Este ano ele poderá ser visto em diversos concertos no Theatro Municipal de São Paulo, além de estar produzindo três óperas. A primeira estréia neste mês de março no Theatro Municipal de São Paulo e chama-se "O Chapéu de Palha de Florença" e seu autor é Nino Rota, importante compositor italiano (veja a seção "Destaques do Mês").
A OER vem crescendo notadamente e o trabalho de Jamil Maluf se dastaca cada vez mais. Ele é o tipo de regente que "veste a camisa" do grupo e põe "a mão na massa". Veja a seguir a entrevista.

Como teve início a sua carreira de regente?

Minha carreira de regente é uma conseqëncia da minha vocação como compositor. Eu comecei como pianista e compositor. Meu interesse foi muito grande em composição. Eu estudei com Koelreuter, fiz todo o roteiro que todo jovem compositor fazia naquela época. E o meu interesse foi se ampliando cada vez mais até chegar ao ponto de reger.

E como é o trabalho do Jamil Maluf compositor?

Bem, como eu disse, o trabalho como compositor começou há muitos anos atrás, eu passei por vários estágios, desde adolescente, quando comecei a compor música popular brasileira, trabalho que fiz durante muitos anos. Depois passei a compor trilhas sonoras para teatro universitário e, quando eu me mudei de Piracicaba para São Paulo comecei a ter um forte interesse pelo movimento da música de pesquisa, de vanguarda que era feita aqui em São Paulo, e passei a estudar com Koelreuter e a compor de uma maneira radicalmente oposta à que eu fazia antes - eu pulei da música popular brasileira para a música de vanguarda erudita. E depois quando fui embora para a Alemanha eu continuei com o meu interesse em composição, pois fui aluno de Klaus Huber, um dos grandes compositores do século XX. E com ele fiz um curso muito interessante de composição, compondo intensamente. Mas à medida que eu fui me encaminhando para a regência, eu abandonei a composição, e só recentemente eu retomei, há uns dois anos atrás, mas como compositor para música de teatro.

Como se deu o seu envolvimento com a Orquestra Experimental de Repertório?

A Orquestra Experimental de Repertório foi uma criação minha. É uma orquestra que eu sempre achei que seria necessário existir. Não se trata apenas de criar uma orquestra, se trata de criar uma orquestra que seja necessária, principalmente num país com tantas dificuldades orçamentárias quanto o nosso. Eu já tinha feito um trabalho com a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal

na época, mas era uma orquestra que, por sua própria estrutura (nº de músicos limitado a 80, falta de uma estrutura administrativa, etc) já não comportava mais o seu crescimento. Era necessária uma modificação. Eu achei então, que a Sinfônica Jovem Municipal poderia muito bem servir como um primeiro estágio na formação de um músico de orquestra. Ela

foi então transferida para a Escola Municipal de Música, onde ela está e existe até hoje. E criou-se então a Orquestra Experimental de Repertório, como um estágio mais avançado, de onde o músico pode sair para a vida profissional. Eu tive essa idéia de criar uma orquestra em que você tivesse cem músicos, tivesse músicos profissionais misturados, como chefes de naipe - hoje de nossos cem músicos, dezessete são profissionais e 83 são pré-profissionais, bolsistas já em estado avançado. Temos uma infra-estrutura bem maior do que a orquestra jovem, que tinha um único funcionário além do maestro, aqui temos 12 funcionários. Nesta gestão da Marta Suplicy a orquestra foi transformada num corpo estável do Theatro Municipal de São Paulo e isso tem muita importância para nós. Artisticamente, desde a sua fundação, em 1990, a orquestra vem tendo grandes oportunidades. Continua preenchendo absolutamente todos os objetivos iniciais. Por exemplo, formar instrumentistas, incentivar novos repertórios para orquestra sinfônica, utilizando novas tecnologias. O nome Experimental tem a ver com experimentação no sentido de buscar novas fórmulas para concertos sinfônicos e também para encenações de óperas e balés. Criamos várias séries inéditas de concertos como a série Cinema em Concerto que continua este ano (faremos a trilha sonora do "Senhor dos Anéis"), fizemos vários concertos com grupos de teatro (XPTO, Cidade Muda, Cia Imago), fizemos várias obras sinfônicas que tinham tratamento literário, dramático, de forma encenada. Enfim, a orquestra cumpriu na parte de programação a sua função de ser experimental. Fazemos também um trabalho didático, que é a série "Pequeno Dicionário do Instrumento", toda semana para as crianças da rede municipal de ensino, durante o ano todo, sempre às quintas-feiras, às 14:00h. Tenho uma grande satisfação em ver que 13 anos depois, a Orquestra Experimental de Repertório continua ativa e com grande sucesso, e esta é a prova de que o projeto era relamente necessário.

O trabalho da Orquestra Experimental de Repertório é bastante diversificado. Existe algo que predomina neste trabalho?

Predomina sempre a busca de realizar uma fórmula: a soma da qualidade com a diversidade. A nossa programação sempre se baseou nesse binômio - qualidade e diversidade. Qualidade está acima de qualquer questão e a diversidade tem que existir, uma programação não pode ter monopólio. Porque a orquestra sinfônica hoje está em inúmeras manifestações - salas de concertos, óperas, balés, cinema, teatro, música popular. Como as orquestras

sinfônicas têm uma diversidade muito grande na sua atuação, acho que uma orquestra que tem "Experimental" no nome tem que traduzir isto na sua atuação.

Algumas óperas sob sua regência tiveram um merecido destaque na mídia. "Carmen" foi uma delas. O que você pode nos contar a respeito deste trabalho?

"Carmen" foi uma parceria com Carla Camuratti, com quem eu sempre quis trabalhar. Na verdade esse trabalho começou como um projeto cinematográfico. Deveria ser uma ópera que incorporasse recursos cinematográficos no palco, projeções de filmes, etc. E por uma série de razões orçamentárias nós não conseguimos fazer e esse projeto foi adiado. "Carmen" se insere também nessa série de montagens de óperas conhecidas e que buscamos mostrar um lado diferente, um lado novo, com cenários ousados, transportando, às vezes, a história para os dias atuais.

"João e Maria" foi um sucesso de crítica e público. Qual o segredo?

O segredo de "João e Maria" foi: o título certo, para o público certo, com as pessoas certas. Isso é sempre uma busca em todos os títulos, mas em "João e Maria" conseguimos acertar em todos os itens. Tínhamos Fernando Anhê fazendo cenários e figurinos, que é uma pessoa fantasticamente talentosa para isso, tínhamos Flávio de Souza, que é o "pai " do Castelo RÁ-TIM-BUM dirigindo, o título, que era para crianças, a história, que é muito conhecida e querida, uma música deslumbrante, um elenco de primeiríssima qualidade e uma orquestra tocando divinamente bem. Esse foi o segredo. Fui percebendo que todos aqueles elementos que haviam sido colocados juntos foram se encaixando perfeitamente. O fato da obra ser pensada para crianças, finalmente alguém pensar em fazer algo para eles em termos de ópera, o público infantil ter comparecido em massa ao Theatro Municipal nas três temporadas. Agora deveremos viajar com esta ópera pelo Brasil. Esta mágica que ficamos desejando que aconteça sempre em todas as óperas, mas nem sempre acontece, foi o segredo de "João e Maria". A química perfeita entre todos os elementos. Acho que "João e Maria" é um marco na história moderna da ópera em São Paulo. Acabou tornando-se um evento para todas as idades e até hoje ouço perguntas de "Quando volta João e Maria?". Espero que eu tenha chance de repetir esse sucesso na minha carreira.

 

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