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Entrevista com Jamil Maluf
Março/2003

E essa idéia de traduzir o texto?

Foi fundamental. Era um espetáculo para crianças e cantar em alemão era a primeira barreira. Sou uma pessoa que acredita que a língua portuguesa é uma língua belíssima para ser cantada, não sou daqueles esnobes que torcem o nariz e falam que o português não é bom para se cantar. Se não fosse bom não teríamos a música popular que temos, Chico, Caetano, Milton e outros. Nossa língua tem alguns problemas, como os sons nasais, mas o inglês também tem problemas, o alemão e o italiano também. Cabe ao cantor com a sua técnica ultrapassar estes problemas.

É difícil traduzir uma ópera, principalmente alemã, pois é uma língua muito distinta do português. Mas acho que acabou resultando numa tradução que fluiu bem durante o espetáculo. Sempre fazemos reparos para futuras produções, mas, de uma maneira geral, acho que fizemos um ótimo trabalho. E a produção de uma ópera em português ajuda muito na popularização da mesma. Não é toda ópera que deve ser traduzida, mas sempre que for possível, acho uma boa coisa.

Como é o seu trabalho como regente convidado?

É um trabalho que eu prezo muito, tenho saído cada vez mais, chegando a recusar alguns convites por falta de tempo. Já regi praticamente todas as orquestras importantes do Brasil, a única que faltava era a OSB que regerei este ano com o espetáculo cênico "Shéhérazade". Gosto muito deste tipo de trabalho, acho muito interessante pois dessa forma você tem um atestado de como está o Brasil musical. Nada melhor do que passar uma semana com uma orquestra para conhecer direito suas virtudes e defeitos. Você amplia seu horizonte como artista, testa a sua capacidade de comunicação com outro público que não está acostumado a te ver, com músicos que não estão acostumados a tocar sob sua regência. Acho isso de extrema importância para todos os maestros, e eu faço tanto quanto posso, desde que não atrapalhe o meu trabalho aqui na OER.

Quais os momentos de maior destaque da sua carreira?

"João e Maria" foi um deles, porque eu atingi o público infantil, pois eu sempre quis provar para as pessoas que se pode gostar de ópera desde criança, desde que se faça uma coisa convincente. Segundo momento muito emocionante da minha carreira foi quando acompanhei a Giusy Devinu em "La Traviata". Ela é considerada uma das maiores "Violetta" do século XX. Eu tive o prazer de acompanhá-la aqui no Theatro Municipal, ela que foi uma das minhas protagonistas em "La Traviata", a outra foi Rosana Lamosa que também fez muito bem. Esta foi uma emoção que guardo até hoje. A terceira emoção foi

quando vi o (Lorin) Maazel reger a Orquestra Experimental de Repertório no ano passado e a orquestra se comportar de maneira tão brilhante, fazendo com que ele, que é um dos principais maestros do mundo, elogiasse muito a OER. Por último, acho que o fato da criação da própria orquestra

foi mais uma emoção. O dia em que a Câmara promulgou a existência da OER foi um dia de grande emoção na minha vida, porque eu sabia que estava criando algo que realmente iria ter uma importância num país aonde um dos principais problemas é a educação. Eu sempre digo que o Programa Fome Zero é importantíssimo e também temos que implantar o "Fome de Cultura Zero" porque as pessoas não têm alimento para o corpo e também estão sem alimento para a alma. As televisões estão cada vez piores. As crianças têm acesso a um lixo cultural e eu fico assustado com isso, pois acho que eu não queria ser criança no mundo de hoje. É muito complicado. Primeiro porque você tem pais ausentes que precisam trabalhar, segundo porque você está à mercê de uma programação da pior qualidade na TV aberta, terceiro porque nem sempre os pais estão dispostos a levar a criança para ver um "João e Maria", por exemplo, para que ela saiba desde cedo que ópera é uma coisa boa, uma coisa legal. Se a criança não gostar, tudo bem, mas ela deve saber que existe. A cidadania é isto: a pessoa deve ser informada do que existe. Vá ao Municipal um dia ver um concerto. Se você nunca mais quiser voltar, tudo bem. Mas vá um dia, porque pode ser que você assista e se apaixone tanto que volte sempre.


O que o levou a remontar a ópera "O Chapéu de Palha de Florença", de Nino Rota?

Este ano a orquestra teve uma conquista muito importante propiciada por esta administração que foi o aval para elaborarmos três óperas. Só que havia uma condição: um deles teria que ser uma remontagem, porque aí você já tem parte das despesas cobertas (cenários e figurinos, no caso). E eu lembrei do "Chapéu de Palha" por vários motivos. Primeiro, porque é uma obra deliciosa. Segundo porque é quase totalmente desconhecida do público e terceiro porque eu montei isso há dez anos atrás no Teatro Paulo Eiró, e não foi feito no Theatro Municipal. Então, na realidade, para o Municipal não é uma remontagem, é uma nova montagem. É a oportunidade de mostrar um título novo na Temporada do Municipal já com uma parte da produção feita. É uma obra que mostra toda a genialidade e talento de Nino Rota, que é mais conhecido pelas pessoas devido à sua célebre parceria com Federico Fellini no cinema. Mas ele foi um grande compositor de música erudita, foi diretor do conservatório de Bari, por mais de 20 anos na Itália, escreveu dez óperas, vários concertos, uma obra camerística e coral bastante extensa e de muita qualidade. E, de suas dez óperas, "O Chapéu de Palha de Florença" é a que obteve maior sucesso popular, pois além de seu delicioso libreto, baseado numa comédia do Labiche (que escreveu várias comédia do tipo curto-circuito, ou seja, acontece de tudo em cena) sua música presta uma bela homenagem a Rossini (acho que esta obra pode ser vista sob a ótica da obra Rossiniana) tendo sua leveza, humor, a maneira brilhante de trabalhar com a orquestra, com transparência, mas sobretudo com agilidade. É uma ópera que dá oportunidade para todos se testarem num gênero que eu considero extremamente difícil - a comédia. Acho muito difícil fazer rir. Em ópera, então, é especialmente difícil. É menos complicado passar um drama "à la" Puccini, do que fazer uma comédia. Como Nino Rota tem um prática muito grande com o cinema, ele cortou o libreto com "timing" cinematográfico. As cenas são ágeis e curtas. A duração da ópera é de duas horas, mas ela é feita de cenas razoavelmente curtas, proporcionando uma ação cênica alucinante, a coisa não pára de acontecer no palco.

Existe algo que você gostaria de deixar registrado?

Eu gostaria de deixar registrado que o Theatro Municipal é uma casa muito importante em São Paulo. Foi uma casa que esteve sob críticas durante muito tempo, por vezes até justas, mas é um teatro que vem tendo agora um

renascimento tão importante que deve ser acompanhado com atenção pelo público e pela imprensa. Todos os artistas envolvidos no Theatro Municipal hoje estão firmemente engajados no objetivo de fazer com que ele renasça no esplendor uqe ele sempre teve.É um prédio de uma beleza arquitetônica maravilhosa, com um fosso de orquestra excelente, enfim, é a casa do paulistano. Pelo que eu tenho visto, o público voltando, os espetáculos enchendo novamente, o sucesso das assinaturas, acho que as pessoas devem ficar muito atentas aos acontecimentos do Theatro Municipal, porque ele vai ter um belo renascimento. Ele foi sede da Semana de Arte Moderna de 1922, ninguém pode esquecer isto. Ele não é só o templo do tradicionalismo, mas foi palco de inovações muito grandes, de montagens operísticas avançadas. A mensagem que eu deixo para o público é essa: devemos apoiar nossos artistas, mas nunca deixarmos de ser críticos, pois a crítica construtiva auxilia no crescimento.


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