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E essa idéia de traduzir o texto?
Foi fundamental.
Era um espetáculo para crianças
e cantar em alemão era a primeira
barreira. Sou uma pessoa que acredita que
a língua portuguesa é uma
língua belíssima para ser
cantada, não sou daqueles esnobes
que torcem o nariz e falam que o português
não é bom para se cantar.
Se não fosse bom não teríamos
a música popular que temos, Chico,
Caetano, Milton e outros. Nossa língua
tem alguns problemas, como os sons nasais,
mas o inglês também tem problemas,
o alemão e o italiano também.
Cabe ao cantor com a sua técnica
ultrapassar estes problemas. |
É difícil traduzir uma ópera,
principalmente alemã, pois é uma língua
muito distinta do português. Mas acho que
acabou resultando numa tradução que
fluiu bem durante o espetáculo. Sempre fazemos
reparos para futuras produções, mas,
de uma maneira geral, acho que fizemos um ótimo
trabalho. E a produção de uma ópera
em português ajuda muito na popularização
da mesma. Não é toda ópera
que deve ser traduzida, mas sempre que for possível,
acho uma boa coisa.
Como
é o seu trabalho como regente convidado?
É um trabalho que eu prezo muito, tenho
saído cada vez mais, chegando a recusar
alguns convites por falta de tempo. Já
regi praticamente todas as orquestras importantes
do Brasil, a única que faltava era a OSB
que regerei este ano com o espetáculo cênico
"Shéhérazade". Gosto muito
deste tipo de trabalho, acho muito interessante
pois dessa forma você tem um atestado de
como está o Brasil musical. Nada melhor
do que passar uma semana com uma orquestra para
conhecer direito suas virtudes e defeitos. Você
amplia seu horizonte como artista, testa a sua
capacidade de comunicação com outro
público que não está acostumado
a te ver, com músicos que não estão
acostumados a tocar sob sua regência. Acho
isso de extrema importância para todos os
maestros, e eu faço tanto quanto posso,
desde que não atrapalhe o meu trabalho
aqui na OER.
Quais
os momentos de maior destaque da sua carreira?
"João e Maria" foi um deles,
porque eu atingi o público infantil, pois
eu sempre quis provar para as pessoas que se pode
gostar de ópera desde criança, desde
que se faça uma coisa convincente. Segundo
momento muito emocionante da minha carreira foi
quando acompanhei a Giusy Devinu em "La Traviata".
Ela é considerada uma das maiores "Violetta"
do século XX. Eu tive o prazer de acompanhá-la
aqui no Theatro Municipal, ela que foi uma das
minhas protagonistas em "La Traviata",
a outra foi Rosana Lamosa que também fez
muito bem. Esta foi uma emoção que
guardo até hoje. A terceira emoção
foi
| quando
vi o (Lorin) Maazel reger a Orquestra Experimental
de Repertório no ano passado e a
orquestra se comportar de maneira tão
brilhante, fazendo com que ele, que é
um dos principais maestros do mundo, elogiasse
muito a OER. Por último, acho que
o fato da criação da própria
orquestra |

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foi mais uma emoção. O dia em que
a Câmara promulgou a existência da OER
foi um dia de grande emoção na minha
vida, porque eu sabia que estava criando algo que
realmente iria ter uma importância num país
aonde um dos principais problemas é a educação.
Eu sempre digo que o Programa Fome Zero é
importantíssimo e também temos que
implantar o "Fome de Cultura Zero" porque
as pessoas não têm alimento para o
corpo e também estão sem alimento
para a alma. As televisões estão cada
vez piores. As crianças têm acesso
a um lixo cultural e eu fico assustado com isso,
pois acho que eu não queria ser criança
no mundo de hoje. É muito complicado. Primeiro
porque você tem pais ausentes que precisam
trabalhar, segundo porque você está
à mercê de uma programação
da pior qualidade na TV aberta, terceiro porque
nem sempre os pais estão dispostos a levar
a criança para ver um "João e
Maria", por exemplo, para que ela saiba desde
cedo que ópera é uma coisa boa, uma
coisa legal. Se a criança não gostar,
tudo bem, mas ela deve saber que existe. A cidadania
é isto: a pessoa deve ser informada do que
existe. Vá ao Municipal um dia ver um concerto.
Se você nunca mais quiser voltar, tudo bem.
Mas vá um dia, porque pode ser que você
assista e se apaixone tanto que volte sempre.
O que o levou a remontar a ópera "O
Chapéu de Palha de Florença",
de Nino Rota?
Este ano a orquestra teve uma conquista muito
importante propiciada por esta administração
que foi o aval para elaborarmos três óperas.
Só que havia uma condição:
um deles teria que ser uma remontagem, porque
aí você já tem parte das despesas
cobertas (cenários e figurinos, no caso).
E eu lembrei do "Chapéu de Palha"
por vários motivos. Primeiro, porque é
uma obra deliciosa. Segundo porque é quase
totalmente desconhecida do público e terceiro
porque eu montei isso há dez anos atrás
no Teatro Paulo Eiró, e não foi
feito no Theatro Municipal. Então, na realidade,
para o Municipal não é uma remontagem,
é uma nova montagem. É a oportunidade
de mostrar um título novo na Temporada
do Municipal já com uma parte da produção
feita. É uma obra que mostra toda a genialidade
e talento de Nino Rota, que é mais conhecido
pelas pessoas devido à sua célebre
parceria com Federico Fellini no cinema. Mas ele
foi um grande compositor de música erudita,
foi diretor do conservatório de Bari, por
mais de 20 anos na Itália, escreveu dez
óperas, vários concertos, uma obra
camerística e coral bastante extensa e
de muita qualidade. E, de suas dez óperas,
"O Chapéu de Palha de Florença"
é a que obteve maior sucesso popular, pois
além de seu delicioso libreto, baseado
numa comédia do Labiche (que escreveu várias
comédia do tipo curto-circuito, ou seja,
acontece de tudo em cena) sua música presta
uma bela homenagem a Rossini (acho que esta obra
pode ser vista sob a ótica da obra Rossiniana)
tendo sua leveza, humor, a maneira brilhante de
trabalhar com a orquestra, com transparência,
mas sobretudo com agilidade. É uma ópera
que dá oportunidade para todos se testarem
num gênero que eu considero extremamente
difícil - a comédia. Acho muito
difícil fazer rir. Em ópera, então,
é especialmente difícil. É
menos complicado passar um drama "à
la" Puccini, do que fazer uma comédia.
Como Nino Rota tem um prática muito grande
com o cinema, ele cortou o libreto com "timing"
cinematográfico. As cenas são ágeis
e curtas. A duração da ópera
é de duas horas, mas ela é feita
de cenas razoavelmente curtas, proporcionando
uma ação cênica alucinante,
a coisa não pára de acontecer no
palco.
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Existe algo que você gostaria de deixar
registrado?
Eu gostaria de
deixar registrado que o Theatro Municipal
é uma casa muito importante em São
Paulo. Foi uma casa que esteve sob críticas
durante muito tempo, por vezes até
justas, mas é um teatro que vem tendo
agora um
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renascimento tão importante que deve ser acompanhado
com atenção pelo público e
pela imprensa. Todos os artistas envolvidos no Theatro
Municipal hoje estão firmemente engajados
no objetivo de fazer com que ele renasça
no esplendor uqe ele sempre teve.É um prédio
de uma beleza arquitetônica maravilhosa, com
um fosso de orquestra excelente, enfim, é
a casa do paulistano. Pelo que eu tenho visto, o
público voltando, os espetáculos enchendo
novamente, o sucesso das assinaturas, acho que as
pessoas devem ficar muito atentas aos acontecimentos
do Theatro Municipal, porque ele vai ter um belo
renascimento. Ele foi sede da Semana de Arte Moderna
de 1922, ninguém pode esquecer isto. Ele
não é só o templo do tradicionalismo,
mas foi palco de inovações muito grandes,
de montagens operísticas avançadas.
A mensagem que eu deixo para o público é
essa: devemos apoiar nossos artistas, mas nunca
deixarmos de ser críticos, pois a crítica
construtiva auxilia no crescimento.
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