 |
Ligia Amadio é regente titular da
Orquestra Sinfônica Nacional, indicada
por eleição de seus integrantes,
desde 1996. Premiada em importantes concursos
internacionais para regentes, apresenta
em seu currículo países como
Itália, Hungria, Áustria,
República Tcheca, Rússia e
Holanda, onde foi premiada com a oportunidade
de reger a Netherlands Radio Symphony Orchestra
no Concertgebouw de Amsterdam. Sua carreira
internacional abrange Europa, Ásia
e América, além de brilhantes
apresentações pelo Brasi.
Recentemente regeu o musical "Magdalena"
de V. Lobos, no Festival Amazonas de Ópera.
|
Como
teve início a sua carreira de regente de
orquestra?
Minha experiência como regente de orquestra
iniciou-se em meu segundo ano no curso de regência
na UNICAMP. Formamos uma orquestra de estudantes,
a primeira que a UNICAMP teve, e assim começou
minha experiência. Depois fui regente de uma
orquestra também de alunos no Conservatório
Villa-Lobos, em Osasco, onde trabalhei durante dez
anos e acredito ter feito um trabalho pedagógico
muito importante, do qual me orgulho muito. Simultaneamente
fiz um concurso para ser regente titular da Orquestra
Jovem de Jundiaí, um verdadeiro celeiro de
músicos no interior do estado de São
Paulo, onde estive alguns anos. Durante todos esses
anos, complementei minha formação,
que havia sido excelente, sob a orientação
do Maestro Henrique Gregori, com inumeros cursos
no Brasil e no exterior. Num desses cursos, fui
aluna de Helena Herrera, que me convidou para ser
sua assistente anos mais tarde, quando se tornou
regente titular da Orquestra do Teatro Nacional
Cláudio Santoro em Brasília. Trabalhei
alí um ano e em seguida tornei-me regente
titular da Orquestra Sinfônica Nacional -
UFF, por indicação de seus músicos.
Havía sido convidada pelo Maestro Prates
alguns anos antes para um concerto com a Nacional
em um ciclo de mulheres na regência. Quando
o Maestro Prates se afastou de suas atividades como
titular da orquestra, os músicos votaram
uma lista tríplice e eu fui honrosamente
incluída nesta lista. Bem, resultado: este
é o sétimo ano de minha gestão
como regente titular frente à Sinfônica
Nacional.
Fale um pouco de sua formação no
exterior.
| Eu
freqüentei inúmeros cursos internacionais
de Regência no exterior. Foram muito
importantes em minha experiência profissional
porque me deram coragem para enfrentar as
orquestras estrangeiras e também
para situar-me em relação
a meus colegas regentes de outras nacionalidades.
Pude constatar que minha formação
de seis anos de Henrique Gregori, Almeida
Prado, dez anos de aulas |

|
particulares de harmonia, contraponto, estética,
análise, etc. com Koellreutter, dois anos
com Eleazar de Carvalho e outros tantos valorosos
professores, desde minha querida professora de piano
que iniciou-me no instrumento aos cinco anos de
idade - além de alfabetizar-me - e me orientou
por quase dez anos, a Maria Cristina da Ponta Fiori,
foram mais que suficientes para tornar-me um músico
com a necessária competência para dirigir
orquestras, quaisquer orquestras.
Estive em Siena, Itália, nos cursos da Accademia
Chiggiana (Ferdinand Leitner), na Hungria, no International
Béla Bartok Festival (Rouits e Peter Ëtvos),
na República Tcheca, nos Cursos Internacionais
de Regência de Ópera (George Tintner),
em S. Petersburgo, Rússia (Alexander Polishuk),
no Kirill Kondrashin Masterclass, na Holanda (Sir
Edward Downes) e no Curso Latino Americano para
Jovens Regentes de Orquestra, da OEA, na Venezuela
(Guillermo Scarabino). No Brasil devo muito de minha
formação aos cursos de férias
com Lutero Rodriguez, Helena Herrera, Ronaldo Bologna
e outros. Participei também do I Curso Latino
Americano com Kurt Masur, na OSESP.
O
"Tokyo International Music Competition for
Conducting" foi um marco não só
na sua carreira, mas também na história
do concurso. Conte-nos a respeito.
Eu fui um dos premiados neste concurso. Não
houve primeiro lugar. Eu não diria que tenha
sido um marco na minha carreira, porque não
mudou absolutamente nada em minha vida. Foi sim,
uma experiência muito interessante. Regi diversas
orquestras no Japão e concorri seguramente
com os melhores jovens regentes do mundo. É
um concurso extremamente exigente. Na primeira fase,
foram selecionados através de video e curriculum
54 regentes (se não me engano...) que fizeram
provas em Bruxelas, San Francisco e Tokio (eu participei
em San Francisco). Os 18 regentes que passaram nesta
fase foram a Tokio 6 meses depois para participar
da semi-final e sómente seis foram para a
final. Dessa forma cheguei à final do concurso
de Tokio, sendo a primeira mulher premiada em quase
30 anos de concurso. Eu venci o Concurso Latino
Americano no Chile. Não tive oportunidade
de participar de muitos concursos internacionais
pois comecei a estudar regência um pouco tarde,
segundo os padrões convencionais europeus
e americanos. Primeiramente me graduei em engenharia
na USP e só depois disso comecei o curso
de direção orquestral da
 |
UNICAMP que tem duração mínima
de seis anos. Terminei o curso muito antes
pois tinha uma infinita sede de aprender,
mas não pude obter o diploma antes
dos seis anos estipulados por lei. Ao mesmo
tempo, cursei a pós-graduação
em Artes na UNICAMP. Graduei-me com cerca
de 29 anos e a maioria dos concursos tinha
como limite máximo 30 anos. Além
disso não
|
tinha dinheiro para as viagens, para as inscrições,
etc. Todos os cursos que fiz na Europa foram patrocinados
por mim mesma, trabalhando muito e economizando
mais ainda. Somente para o curso na Venezuela recebi
uma bolsa da Organização dos Estados
Americanos que arcou com todos os custos. Para o
Kirill Kondrashin Masterclass, por exemplo, tive
que viajar até a Holanda, para concorrer
com 24 regentes, que já haviam sido selecionados
entre centenas, sem saber se seria um dos oito escolhidos
para o curso. Graças a Deus, não perdi
a viagem e acabei participando de um dos cursos
mais importantes do mundo e regendo no Concertgebouw
de Amsterdam.
Como
é o seu trabalho com as orquestras internacionais?
Meu trabalho com as orquestras estrangeiras é
idêntico a meu trabalho com nossas orquestras.
As exigências da interpretação
musical independem da nacionalidade dos músicos.
Claro que cada orquestra é distinta e o que
você pode obter de uma difere do resultado
que você obteria com outra. Eu tenho trabalhado
intensamente também na Argentina. Esta é
minha terceira temporada como regente titular em
Mendoza e cheguei a este posto através de
um exigente concurso que durou mais de um ano. Sem
dinheiro nenhum, pois justamente cheguei no momento
em a Argentina se dirigia para sua grande crise,
consegui neste ano elaborar uma temporada onde alguns
de nossos convidados são Peter Donohoe, Bruno
Guelber, Barry Douglas e Martha Argerich. Grandes
artistas aceitam colaborar conosco simplesmente
pelo status de seriedade e qualidade artística
que atingimos. Além de meu trabalho em Mendoza,
tenho colaborado freqüentemente com a Filarmônica
de Buenos Aires, uma orquestra que prezo muito.
Abrí a temporada de 2003 no Teatro Colón
com
| as
Bachianas n.4 de Villa-Lobos e Daphnis et
Chloé de Ravel; além disso,
fui convidada a reger novamente a Filarmônica
na Final do Concurso Martha Argerich, em
agosto, e, em outubro, dirijo a Nona de
Beethoven numa série especial. Fui
informada que no ano passado a orquestra
indicou dois nomes para sua titularidade,
Rettig e eu, |

|
fato que me honrou muitíssimo, mas a direção
do Teatro Colón decidiu que a Filarmônica
continuaria sem regente titular. Na Argentina tenho
recebido inúmeros convites, assim como aqui
no Brasil, de orquestras que são muito queridas
para mim, como a Brasileira, a Pró-Música,
Campinas, mas infelizmente não tenho podido
aceitar porque meu primeiro compromisso é
com as orquestras em que sou titular (orquestras
cujo orçamento não possibilita sustentar
temporadas com muitos maestros convidados que me
substituam).
No Chile dirigi muitas vezes a Sinfônica Nacional,
outra orquestra que valorizo muito e com quem tenho
fortes laços profissionais e de amizade.
Enfrentamos juntos momentos difíceis de greve
e manifestações.
Como regente profissional, comecei a entrar na Europa
(estive muitas vezes como estudante) nos últimos
dois anos. Como não tenho agente internacional,
os convites são feitos sempre por alguém
que viu meu trabalho em alguma parte. Acabo de voltar
da Itália, onde regi a Filarmônica
de Baden-Baden, pela segunda vez. No ano passado,
havia dirigido esta orquestra na Alemanha e na França.
Na França um organizador de um Festival assistiu
ao concerto e me convidou para a Áustria
este ano, onde regi 3 concertos. Na Eslovênia
regi algumas vezes e gravei dois CDs. Para 2004
tenho convite para uma tournée por Alemanha,
Áustria, Estados Unidos e Argentina com esta
orquestra austríaca, em outubro e, em setembro,
um convite para um festival pianístico na
Russia. São convites modestos mas interessantes
pela qualidade da experiência artística.
Como
foi o trabalho no Festival Amazonas de Ópera
para a realização do musical "Magdalena"
de Villa-Lobos ?
 |
O festival de Ópera de Manaus é
algo maravilhoso! Admiro muito o Luiz Fernando
Malheiro por este empreendimento! Ele está
criando uma cultura da ópera naquele
país situado dentro deste nosso país.
No recital que o Fernando Portari e a Rosana
Lamosa apresentaram no Teatro Amazonas,
havia uma fila quilométrica com jovens
carregando violinos, violoncelos, clarinetes,
etc... |
Fiquei verdadeiramente emocionada com a visão
desta bonita realidade que se desenvolve no Amazonas.
Meu trabalho com Magdalena foi muito árduo,
porque não havia partitura. Trabalhei como
louca, passei muitas noites sem dormir, mas creio
que chegamos a um resultado satisfatório.
Poderá ser muito melhor quando se edite este
material e se faça a devida revisão.
Eu gostaria de ser responsável por este projeto,
já que agora conheço profundamente
a obra. Quanto à performance, eu diria que
o elenco foi escolhido com perfeição.
Os cantores foram incríveis, tanto do ponto
de vista vocal quanto cênico. O público
ficou fascinado. É uma obra que, musicalmente,
tem passagens geniais, numa linguagem fortemente
comunicativa.
E
sobre o seu trabalho com a Orquestra Sinfônica
Nacional, o que pode nos dizer? Quais as perspectivas
para o futuro? Quando e onde poderemos assistí-la?
Sobre meu trabalho com a Sinfônica Nacional...
que posso dizer? Não é um trabalho.
É uma missão. Tem sido minha vida
e meu sacerdócio nos últimos sete
anos. Para mim vale a pena, pelos meus colegas músicos,
que dão o melhor de si ( e por isso é
tantas vezes chamada de a orquestra dos milagres...);
pelo público que formamos, nos últimos
anos, que é maravilhoso e lota todos os nossos
espetáculos; e pela equipe com quem trabalho,
dirigida por um grande idealista, músico
de mais de 30 anos da OSN-UFF, o Izaak Mendlewicz,
que é como um pai para mim. Além de
dirigir administrativamente a orquestra, ele tem
fomentado a criação de um grande núcleo
de atividades
| musicais
na Universidade Federal Fluminense, que
compreende um coral sinfônico, uma
banda e uma escola de iniciação
musical cujos professores são os
próprios |

|
músicos da OSN-UFF. É um trabalho
fantástico que já está gerando
frutos importantes na cultura musical do Estado
do Rio de Janeiro. Problemas? Temos inúmeros:
baixos salários, quadro de músicos
muito reduzido, falta de instalações
adequadas às nossas atividades, orçamento
super-modesto, falta de funcionários administrativos.
As autoridades da Universidade valorizam muito nosso
trabalho e estão atentas às nossas
necessidades, procurando saná-las, na medida
de suas possibilidades. Mas o governo federal parece
desconhecer sua orquestra fundada em 1961 por Juscelino
Kubitschek. De minha parte, ofereço meu sangue,
meu amor, meu suor, meu conhecimento. Minhas única
exigência é artística. Assim
como minha única recompensa. Para ver-nos?
Nos domingos de manhâ, 10:30h, no Cine Arte
UFF, R. Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói.
Alguns concertos são repetidos na Sala Cecília
Meireles, no Rio de Janeiro (maiores informações
através dos telefones: 021-26221036/ 27042143).
Neste ano estamos realizando, entre outros programas,
a Série Beethoven, apresentando todas as
sinfonias e todos os concertos, além de grande
parte das aberturas do mestre. Uma belíssima
experiência para a orquestra e para o público,
que não perde um concerto e já coleciona
os programas da série.
|