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Entrevista com Ligia Amadio
Julho/2003

Ligia Amadio é regente titular da Orquestra Sinfônica Nacional, indicada por eleição de seus integrantes, desde 1996. Premiada em importantes concursos internacionais para regentes, apresenta em seu currículo países como Itália, Hungria, Áustria, República Tcheca, Rússia e Holanda, onde foi premiada com a oportunidade de reger a Netherlands Radio Symphony Orchestra no Concertgebouw de Amsterdam. Sua carreira internacional abrange Europa, Ásia e América, além de brilhantes apresentações pelo Brasi. Recentemente regeu o musical "Magdalena" de V. Lobos, no Festival Amazonas de Ópera.

Como teve início a sua carreira de regente de orquestra?

Minha experiência como regente de orquestra iniciou-se em meu segundo ano no curso de regência na UNICAMP. Formamos uma orquestra de estudantes, a primeira que a UNICAMP teve, e assim começou minha experiência. Depois fui regente de uma orquestra também de alunos no Conservatório Villa-Lobos, em Osasco, onde trabalhei durante dez anos e acredito ter feito um trabalho pedagógico muito importante, do qual me orgulho muito. Simultaneamente fiz um concurso para ser regente titular da Orquestra Jovem de Jundiaí, um verdadeiro celeiro de músicos no interior do estado de São Paulo, onde estive alguns anos. Durante todos esses anos, complementei minha formação, que havia sido excelente, sob a orientação do Maestro Henrique Gregori, com inumeros cursos no Brasil e no exterior. Num desses cursos, fui aluna de Helena Herrera, que me convidou para ser sua assistente anos mais tarde, quando se tornou regente titular da Orquestra do Teatro Nacional Cláudio Santoro em Brasília. Trabalhei alí um ano e em seguida tornei-me regente titular da Orquestra Sinfônica Nacional - UFF, por indicação de seus músicos. Havía sido convidada pelo Maestro Prates alguns anos antes para um concerto com a Nacional em um ciclo de mulheres na regência. Quando o Maestro Prates se afastou de suas atividades como titular da orquestra, os músicos votaram uma lista tríplice e eu fui honrosamente incluída nesta lista. Bem, resultado: este é o sétimo ano de minha gestão como regente titular frente à Sinfônica Nacional.


Fale um pouco de sua formação no exterior.

Eu freqüentei inúmeros cursos internacionais de Regência no exterior. Foram muito importantes em minha experiência profissional porque me deram coragem para enfrentar as orquestras estrangeiras e também para situar-me em relação a meus colegas regentes de outras nacionalidades. Pude constatar que minha formação de seis anos de Henrique Gregori, Almeida Prado, dez anos de aulas

particulares de harmonia, contraponto, estética, análise, etc. com Koellreutter, dois anos com Eleazar de Carvalho e outros tantos valorosos professores, desde minha querida professora de piano que iniciou-me no instrumento aos cinco anos de idade - além de alfabetizar-me - e me orientou por quase dez anos, a Maria Cristina da Ponta Fiori, foram mais que suficientes para tornar-me um músico com a necessária competência para dirigir orquestras, quaisquer orquestras.
Estive em Siena, Itália, nos cursos da Accademia Chiggiana (Ferdinand Leitner), na Hungria, no International Béla Bartok Festival (Rouits e Peter Ëtvos), na República Tcheca, nos Cursos Internacionais de Regência de Ópera (George Tintner), em S. Petersburgo, Rússia (Alexander Polishuk), no Kirill Kondrashin Masterclass, na Holanda (Sir Edward Downes) e no Curso Latino Americano para Jovens Regentes de Orquestra, da OEA, na Venezuela (Guillermo Scarabino). No Brasil devo muito de minha formação aos cursos de férias com Lutero Rodriguez, Helena Herrera, Ronaldo Bologna e outros. Participei também do I Curso Latino Americano com Kurt Masur, na OSESP.

O "Tokyo International Music Competition for Conducting" foi um marco não só na sua carreira, mas também na história do concurso. Conte-nos a respeito.

Eu fui um dos premiados neste concurso. Não houve primeiro lugar. Eu não diria que tenha sido um marco na minha carreira, porque não mudou absolutamente nada em minha vida. Foi sim, uma experiência muito interessante. Regi diversas orquestras no Japão e concorri seguramente com os melhores jovens regentes do mundo. É um concurso extremamente exigente. Na primeira fase, foram selecionados através de video e curriculum 54 regentes (se não me engano...) que fizeram provas em Bruxelas, San Francisco e Tokio (eu participei em San Francisco). Os 18 regentes que passaram nesta fase foram a Tokio 6 meses depois para participar da semi-final e sómente seis foram para a final. Dessa forma cheguei à final do concurso de Tokio, sendo a primeira mulher premiada em quase 30 anos de concurso. Eu venci o Concurso Latino Americano no Chile. Não tive oportunidade de participar de muitos concursos internacionais pois comecei a estudar regência um pouco tarde, segundo os padrões convencionais europeus e americanos. Primeiramente me graduei em engenharia na USP e só depois disso comecei o curso de direção orquestral da

UNICAMP que tem duração mínima de seis anos. Terminei o curso muito antes pois tinha uma infinita sede de aprender, mas não pude obter o diploma antes dos seis anos estipulados por lei. Ao mesmo tempo, cursei a pós-graduação em Artes na UNICAMP. Graduei-me com cerca de 29 anos e a maioria dos concursos tinha como limite máximo 30 anos. Além disso não

tinha dinheiro para as viagens, para as inscrições, etc. Todos os cursos que fiz na Europa foram patrocinados por mim mesma, trabalhando muito e economizando mais ainda. Somente para o curso na Venezuela recebi uma bolsa da Organização dos Estados Americanos que arcou com todos os custos. Para o Kirill Kondrashin Masterclass, por exemplo, tive que viajar até a Holanda, para concorrer com 24 regentes, que já haviam sido selecionados entre centenas, sem saber se seria um dos oito escolhidos para o curso. Graças a Deus, não perdi a viagem e acabei participando de um dos cursos mais importantes do mundo e regendo no Concertgebouw de Amsterdam.

Como é o seu trabalho com as orquestras internacionais?

Meu trabalho com as orquestras estrangeiras é idêntico a meu trabalho com nossas orquestras. As exigências da interpretação musical independem da nacionalidade dos músicos. Claro que cada orquestra é distinta e o que você pode obter de uma difere do resultado que você obteria com outra. Eu tenho trabalhado intensamente também na Argentina. Esta é minha terceira temporada como regente titular em Mendoza e cheguei a este posto através de um exigente concurso que durou mais de um ano. Sem dinheiro nenhum, pois justamente cheguei no momento em a Argentina se dirigia para sua grande crise, consegui neste ano elaborar uma temporada onde alguns de nossos convidados são Peter Donohoe, Bruno Guelber, Barry Douglas e Martha Argerich. Grandes artistas aceitam colaborar conosco simplesmente pelo status de seriedade e qualidade artística que atingimos. Além de meu trabalho em Mendoza, tenho colaborado freqüentemente com a Filarmônica de Buenos Aires, uma orquestra que prezo muito. Abrí a temporada de 2003 no Teatro Colón com

as Bachianas n.4 de Villa-Lobos e Daphnis et Chloé de Ravel; além disso, fui convidada a reger novamente a Filarmônica na Final do Concurso Martha Argerich, em agosto, e, em outubro, dirijo a Nona de Beethoven numa série especial. Fui informada que no ano passado a orquestra indicou dois nomes para sua titularidade, Rettig e eu,

fato que me honrou muitíssimo, mas a direção do Teatro Colón decidiu que a Filarmônica continuaria sem regente titular. Na Argentina tenho recebido inúmeros convites, assim como aqui no Brasil, de orquestras que são muito queridas para mim, como a Brasileira, a Pró-Música, Campinas, mas infelizmente não tenho podido aceitar porque meu primeiro compromisso é com as orquestras em que sou titular (orquestras cujo orçamento não possibilita sustentar temporadas com muitos maestros convidados que me substituam).
No Chile dirigi muitas vezes a Sinfônica Nacional, outra orquestra que valorizo muito e com quem tenho fortes laços profissionais e de amizade. Enfrentamos juntos momentos difíceis de greve e manifestações.
Como regente profissional, comecei a entrar na Europa (estive muitas vezes como estudante) nos últimos dois anos. Como não tenho agente internacional, os convites são feitos sempre por alguém que viu meu trabalho em alguma parte. Acabo de voltar da Itália, onde regi a Filarmônica de Baden-Baden, pela segunda vez. No ano passado, havia dirigido esta orquestra na Alemanha e na França. Na França um organizador de um Festival assistiu ao concerto e me convidou para a Áustria este ano, onde regi 3 concertos. Na Eslovênia regi algumas vezes e gravei dois CDs. Para 2004 tenho convite para uma tournée por Alemanha, Áustria, Estados Unidos e Argentina com esta orquestra austríaca, em outubro e, em setembro, um convite para um festival pianístico na Russia. São convites modestos mas interessantes pela qualidade da experiência artística.

Como foi o trabalho no Festival Amazonas de Ópera para a realização do musical "Magdalena" de Villa-Lobos ?

O festival de Ópera de Manaus é algo maravilhoso! Admiro muito o Luiz Fernando Malheiro por este empreendimento! Ele está criando uma cultura da ópera naquele país situado dentro deste nosso país. No recital que o Fernando Portari e a Rosana Lamosa apresentaram no Teatro Amazonas, havia uma fila quilométrica com jovens carregando violinos, violoncelos, clarinetes, etc...

Fiquei verdadeiramente emocionada com a visão desta bonita realidade que se desenvolve no Amazonas. Meu trabalho com Magdalena foi muito árduo, porque não havia partitura. Trabalhei como louca, passei muitas noites sem dormir, mas creio que chegamos a um resultado satisfatório. Poderá ser muito melhor quando se edite este material e se faça a devida revisão. Eu gostaria de ser responsável por este projeto, já que agora conheço profundamente a obra. Quanto à performance, eu diria que o elenco foi escolhido com perfeição. Os cantores foram incríveis, tanto do ponto de vista vocal quanto cênico. O público ficou fascinado. É uma obra que, musicalmente, tem passagens geniais, numa linguagem fortemente comunicativa.

E sobre o seu trabalho com a Orquestra Sinfônica Nacional, o que pode nos dizer? Quais as perspectivas para o futuro? Quando e onde poderemos assistí-la?

Sobre meu trabalho com a Sinfônica Nacional... que posso dizer? Não é um trabalho. É uma missão. Tem sido minha vida e meu sacerdócio nos últimos sete anos. Para mim vale a pena, pelos meus colegas músicos, que dão o melhor de si ( e por isso é tantas vezes chamada de a orquestra dos milagres...); pelo público que formamos, nos últimos anos, que é maravilhoso e lota todos os nossos espetáculos; e pela equipe com quem trabalho, dirigida por um grande idealista, músico de mais de 30 anos da OSN-UFF, o Izaak Mendlewicz, que é como um pai para mim. Além de dirigir administrativamente a orquestra, ele tem fomentado a criação de um grande núcleo de atividades

musicais na Universidade Federal Fluminense, que compreende um coral sinfônico, uma banda e uma escola de iniciação musical cujos professores são os próprios

músicos da OSN-UFF. É um trabalho fantástico que já está gerando frutos importantes na cultura musical do Estado do Rio de Janeiro. Problemas? Temos inúmeros: baixos salários, quadro de músicos muito reduzido, falta de instalações adequadas às nossas atividades, orçamento super-modesto, falta de funcionários administrativos. As autoridades da Universidade valorizam muito nosso trabalho e estão atentas às nossas necessidades, procurando saná-las, na medida de suas possibilidades. Mas o governo federal parece desconhecer sua orquestra fundada em 1961 por Juscelino Kubitschek. De minha parte, ofereço meu sangue, meu amor, meu suor, meu conhecimento. Minhas única exigência é artística. Assim como minha única recompensa. Para ver-nos? Nos domingos de manhâ, 10:30h, no Cine Arte UFF, R. Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói. Alguns concertos são repetidos na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro (maiores informações através dos telefones: 021-26221036/ 27042143). Neste ano estamos realizando, entre outros programas, a Série Beethoven, apresentando todas as sinfonias e todos os concertos, além de grande parte das aberturas do mestre. Uma belíssima experiência para a orquestra e para o público, que não perde um concerto e já coleciona os programas da série.

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