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Entrevista com Luciano Camargo
Agosto/2003

Luciano de Freitas Camargo começou sua carreira como violinista. Formou-se Bacharel em Regência pela Universidade de São Paulo, em 1998. Em 2000 seguiu para a Alemanha, onde fez sua especialização. De volta ao Brasil, deu início a um audacioso projeto patrocinado pela CAVO - Serviços e Meio Ambiente, e apoiado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura: o Coral da Cidade de São Paulo e a Orquestra Acadêmica de São Paulo. Conheça a seguir o trabalho deste prodigioso regente.

Você começou a sua carreira tocando violino. Como foi esse início?

Desde os meus primeiros contatos com a música erudita na infância fui um apaixonado pelo som da orquestra, e em especial pelas obras para coral e orquestra. Desde o início sentia então que a orquestra era o meu destino, e apesar da minha iniciação musical ter sido através da flauta doce na escola pública, aos 14 anos acabei optando pelo violino, porque seria certamente o instrumento que mais me aproximaria da orquestra. Mesmo tendo como objetivo final a regência realizei rápidos progressos ao violino sob a orientação da Profª. Cecília Guida, na Escola Municipal de Música de São Paulo. Mesmo na faculdade, tendo que me dedicar ao piano, não deixei de tocar violino. Fui por cerca de três anos violinista da OCAM - Orquestra de Câmara da USP, que acabou se tornando a primeira orquestra que eu regi (em 1997), e também a orquestra que me deu a oportunidade de tocar um concerto solo, o concerto para 2 violinos em ré menor de J. S. Bach, em 1998, ano de conclusão do meu curso de bacharelado em Regência na Escola de Comunicações e Artes da USP.

Em visita à Alemanha, você conheceu diversas escolas de música. O que você trouxe desta experiência?

Em 1997 recebi uma bolsa de estudos do Goethe Institut para aprender a falar alemão, no intuito de ir posteriormente à Alemanha fazer uma especialização na área de regência. Além de aprender o idioma aproveitei os 3 meses de curso e visitei muitas escolas superiores de música, conheci professores, e o

principal fato foi que tive a oportunidade de assistir aulas regulares nas escolas, e saber como era feito o estudo da regência na Alemanha. Descobri tudo o que tinha que aprender, entre outras a técnica de leitura de claves antigas e reduções de orquestra a primeira vista, exigências que não são explícitas nos cursos brasileiros. E a observação da própria dinâmica das aulas de regência - um aluno ao piano, outro regendo e o professor ensinando - é uma dinâmica que não é cotidiana nos cursos brasileiros. Tudo isso foi importante, tive certeza que era necessário complementar meus estudos no futuro.

Em 1999, você foi convidado para reger a Orquestra Sinfônica de Americana. Qual a importância deste convite?

Considero esse concerto um marco do início da minha carreira, pois foi o primeiro concerto de grande porte que eu regi. Apesar de todas as dificuldades e oposições consegui realizar o sonho de executar a Fantasia Coral op. 80 de Beethoven, com a participação do Madrigal UMESP e do Coral da UNIMEP. Acho que isso acabou sendo um sinal claro de que a minha carreira começara a tomar o rumo das obras vocal-sinfônicas. E de fato, as obras para coro e orquestra tornaram-se o grande objeto dos meus estudos e concertos. Foi o momento em que passei a considerar o coral como um naipe inseparável da orquestra.


Como você conheceu Klaus Hövelmann e qual foi o resultado deste encontro?

Antes de falar do Prof. Hövelmann gostaria de relatar sobre um fato curioso da minha infância, relacionado à Missa em Si menor de J. S. Bach. Minha família nunca teve laços com a música erudita, e por isso quando eu era criança não tinha acesso à essa música. Certa vez consegui emprestado um disco de vinil duplo, era uma bela gravação da Missa em si menor de Bach, disco este que ouvi durante anos a fio (principalmente por falta de opção, uma vez que era o único disco que eu possuía). Isso fez com que eu desenvolvesse um afeto muito, muito especial por essa obra. Foi então que em março de 2000 eu tomei

conhecimento da Turnê do Coro de Câmara de Freiburg (Freiburger Kammerchor) no Brasil, que é dirigido pelo Prof. Klaus Hövelmann. E paralelamente aos concertos foi oferecido na USP um Master Class de regência sobre a Missa em Si menor. Naquele momento eu senti que era a minha grande oportunidade. Fui convidado pelo Prof. Dr. Marco Antônio S. Ramos para fazer a tradução do curso, oportunidade que me aproximou ainda mais do prof. Hövelmann. Terminado o master class, fui muito direto, disse a ele que apesar de formado eu gostaria de ter mais aulas de regência, ao que ele prontamente respondeu "Venha a Freiburg". Em menos de um mês eu estava em Freiburg, onde tinha aulas particulares com o Prof. Hövelmann, além de acompanhar suas aulas coletivas na Escola Superior de Música. Em Freiburg me candidatei ao cargo de Diretor de Música Sacra da St. Peter und Paul Kirche, e fui selecionado. Isso acabou sendo um fato decisivo, pois tive uma oportunidade imensa de trabalhar muito proximamente do coro, senti a responsabilidade de ser um diretor artístico, programar repertório, e tive também a oportunidade de reger alguns concertos com coro e orquestra. Um desses concertos, realizado em junho de 2001, foi muito especial, pois juntamente à Cantata Nr. 33 de J. S. Bach "Allein zu Dir, Herr Jesu Christ" executamos uma cantata inédita de minha autoria, chamada "Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat", que foi muito elogiada pelo público e pelos músicos. Aliás o meu tempo na Alemanha foi um tempo muito especial para minhas atividades de composição, pois sempre era necessária a composição de salmos ou responsórios, então eu tinha a oportunidade de escrever a música e no mesmo dia ensaiá-la, então foi o momento que eu aprendi muito a lidar com a técnica de escrita para vozes e mesmo para o órgão, instrumento sempre presente nos nossos concertos.

Por que você voltou da Alemanha?

Eu sempre senti o desejo de trabalhar no Brasil. Mesmo antes de
ir para a Alemanha eu tinha projetos para a criação de uma orquestra e
de um coral comunitário que se dedicasse ao repertório vocal-sinfônico, mas não sabia muito bem por onde começar. A convivência
no Freiburger Kammerchor e a

experiência como diretor na St. Peter und Paul Kirche foram decisivas. Percebi que naqueles corais cantavam donas-de-casa, estudantes, aposentados, professores... pessoas comuns. E com dedicação comedida eles realizavam as grandes obras que somente corais profissionais brasileiros se arriscariam (como a própria Missa em si menor de Bach). Percebi que em uma pequena cidade de cerca de 300.000 habitantes como Freiburg se fazia muito mais música erudita do que na cidade de São Paulo, com seus mais de 10 milhões de habitantes. Fiquei pensando, quantas pessoas em São Paulo não teriam talento para cantar num coral sinfônico, mesmo sem ter formação profissional, e não têm essa oportunidade? Quantos amantes leigos de música erudita não ficariam comovidos em poder cantar aquelas obras que parecem tão distantes, nos discos ou nas salas de concertos, executadas por profissionalíssimos que não abrem mão de seu espaço sagrado no palco para amadores, que na realidade poderiam estar juntos, fazendo música de qualidade como é feita na Europa. Fiquei convencido de que essa era a minha tarefa - construir um coral que oferecesse a possibilidade aos cidadãos comuns de cantarem as grandes obras do repertório sinfônico, e para tanto também a criação de uma orquestra de alto nível que acompanhasse esse coral e garantisse a qualidade da execução. E a possibilidade dessa realização me levou a deixar a Alemanha e voltar para o Brasil.

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