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Luciano de Freitas Camargo começou
sua carreira como violinista. Formou-se
Bacharel em Regência pela Universidade
de São Paulo, em 1998. Em 2000 seguiu
para a Alemanha, onde fez sua especialização.
De volta ao Brasil, deu início a
um audacioso projeto patrocinado pela CAVO
- Serviços e Meio Ambiente, e apoiado
pela Lei Municipal de Incentivo à
Cultura: o Coral da Cidade de São
Paulo e a Orquestra Acadêmica de São
Paulo. Conheça a seguir o trabalho
deste prodigioso regente.
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Você
começou a sua carreira tocando violino.
Como foi esse início?
Desde os meus primeiros contatos com a música
erudita na infância fui um apaixonado pelo
som da orquestra, e em especial pelas obras para
coral e orquestra. Desde o início sentia
então que a orquestra era o meu destino,
e apesar da minha iniciação musical
ter sido através da flauta doce na escola
pública, aos 14 anos acabei optando pelo
violino, porque seria certamente o instrumento que
mais me aproximaria da orquestra. Mesmo tendo como
objetivo final a regência realizei rápidos
progressos ao violino sob a orientação
da Profª. Cecília Guida, na Escola Municipal
de Música de São Paulo. Mesmo na faculdade,
tendo que me dedicar ao piano, não deixei
de tocar violino. Fui por cerca de três anos
violinista da OCAM - Orquestra de Câmara da
USP, que acabou se tornando a primeira orquestra
que eu regi (em 1997), e também a orquestra
que me deu a oportunidade de tocar um concerto solo,
o concerto para 2 violinos em ré menor de
J. S. Bach, em 1998, ano de conclusão do
meu curso de bacharelado em Regência na Escola
de Comunicações e Artes da USP.
Em
visita à Alemanha, você conheceu
diversas escolas de música. O que você
trouxe desta experiência?
| Em
1997 recebi uma bolsa de estudos do Goethe
Institut para aprender a falar alemão,
no intuito de ir posteriormente à
Alemanha fazer uma especialização
na área de regência. Além
de aprender o idioma aproveitei os 3 meses
de curso e visitei muitas escolas superiores
de música, conheci professores, e
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principal fato foi que tive a oportunidade de assistir
aulas regulares nas escolas, e saber como era feito
o estudo da regência na Alemanha. Descobri
tudo o que tinha que aprender, entre outras a técnica
de leitura de claves antigas e reduções
de orquestra a primeira vista, exigências
que não são explícitas nos
cursos brasileiros. E a observação
da própria dinâmica das aulas de regência
- um aluno ao piano, outro regendo e o professor
ensinando - é uma dinâmica que não
é cotidiana nos cursos brasileiros. Tudo
isso foi importante, tive certeza que era necessário
complementar meus estudos no futuro.
Em
1999, você foi convidado para reger a Orquestra
Sinfônica de Americana. Qual a importância
deste convite?
Considero esse concerto um marco do início
da minha carreira, pois foi o primeiro concerto
de grande porte que eu regi. Apesar de todas as
dificuldades e oposições consegui
realizar o sonho de executar a Fantasia Coral op.
80 de Beethoven, com a participação
do Madrigal UMESP e do Coral da UNIMEP. Acho que
isso acabou sendo um sinal claro de que a minha
carreira começara a tomar o rumo das obras
vocal-sinfônicas. E de fato, as obras para
coro e orquestra tornaram-se o grande objeto dos
meus estudos e concertos. Foi o momento em que passei
a considerar o coral como um naipe inseparável
da orquestra.
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Como
você conheceu Klaus Hövelmann
e qual foi o resultado deste encontro?
Antes de falar do
Prof. Hövelmann gostaria de relatar
sobre um fato curioso da minha infância,
relacionado à Missa em Si menor de
J. S. Bach. Minha família nunca teve
laços com a música erudita,
e por isso quando eu era criança
não tinha acesso à essa música.
Certa vez consegui emprestado um disco de
vinil duplo, era uma bela gravação
da Missa em si menor de Bach, disco este
que ouvi durante anos a fio (principalmente
por falta de opção, uma vez
que era o único disco que eu possuía).
Isso fez com que eu desenvolvesse um afeto
muito, muito especial por essa obra. Foi
então que em março de 2000
eu tomei |
conhecimento da Turnê do Coro de Câmara
de Freiburg (Freiburger Kammerchor) no Brasil, que
é dirigido pelo Prof. Klaus Hövelmann.
E paralelamente aos concertos foi oferecido na USP
um Master Class de regência sobre a Missa
em Si menor. Naquele momento eu senti que era a
minha grande oportunidade. Fui convidado pelo Prof.
Dr. Marco Antônio S. Ramos para fazer a tradução
do curso, oportunidade que me aproximou ainda mais
do prof. Hövelmann. Terminado o master class,
fui muito direto, disse a ele que apesar de formado
eu gostaria de ter mais aulas de regência,
ao que ele prontamente respondeu "Venha a Freiburg".
Em menos de um mês eu estava em Freiburg,
onde tinha aulas particulares com o Prof. Hövelmann,
além de acompanhar suas aulas coletivas na
Escola Superior de Música. Em Freiburg me
candidatei ao cargo de Diretor de Música
Sacra da St. Peter und Paul Kirche, e fui selecionado.
Isso acabou sendo um fato decisivo, pois tive uma
oportunidade imensa de trabalhar muito proximamente
do coro, senti a responsabilidade de ser um diretor
artístico, programar repertório, e
tive também a oportunidade de reger alguns
concertos com coro e orquestra. Um desses concertos,
realizado em junho de 2001, foi muito especial,
pois juntamente à Cantata Nr. 33 de J. S.
Bach "Allein zu Dir, Herr Jesu Christ"
executamos uma cantata inédita de minha autoria,
chamada "Christus vincit, Christus regnat,
Christus imperat", que foi muito elogiada pelo
público e pelos músicos. Aliás
o meu tempo na Alemanha foi um tempo muito especial
para minhas atividades de composição,
pois sempre era necessária a composição
de salmos ou responsórios, então eu
tinha a oportunidade de escrever a música
e no mesmo dia ensaiá-la, então foi
o momento que eu aprendi muito a lidar com a técnica
de escrita para vozes e mesmo para o órgão,
instrumento sempre presente nos nossos concertos.
Por
que você voltou da Alemanha?
| Eu
sempre senti o desejo de trabalhar no Brasil.
Mesmo antes de
ir para a Alemanha eu tinha projetos para
a criação de uma orquestra
e
de um coral comunitário que se dedicasse
ao repertório vocal-sinfônico,
mas não sabia muito bem por onde
começar. A convivência
no Freiburger Kammerchor e a |

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experiência como diretor na St. Peter und
Paul Kirche foram decisivas. Percebi que naqueles
corais cantavam donas-de-casa, estudantes, aposentados,
professores... pessoas comuns. E com dedicação
comedida eles realizavam as grandes obras que somente
corais profissionais brasileiros se arriscariam
(como a própria Missa em si menor de Bach).
Percebi que em uma pequena cidade de cerca de 300.000
habitantes como Freiburg se fazia muito mais música
erudita do que na cidade de São Paulo, com
seus mais de 10 milhões de habitantes. Fiquei
pensando, quantas pessoas em São Paulo não
teriam talento para cantar num coral sinfônico,
mesmo sem ter formação profissional,
e não têm essa oportunidade? Quantos
amantes leigos de música erudita não
ficariam comovidos em poder cantar aquelas obras
que parecem tão distantes, nos discos ou
nas salas de concertos, executadas por profissionalíssimos
que não abrem mão de seu espaço
sagrado no palco para amadores, que na realidade
poderiam estar juntos, fazendo música de
qualidade como é feita na Europa. Fiquei
convencido de que essa era a minha tarefa - construir
um coral que oferecesse a possibilidade aos cidadãos
comuns de cantarem as grandes obras do repertório
sinfônico, e para tanto também a criação
de uma orquestra de alto nível que acompanhasse
esse coral e garantisse a qualidade da execução.
E a possibilidade dessa realização
me levou a deixar a Alemanha e voltar para o Brasil.
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