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Entrevista com Luiza Sawaya
Fevereiro/2003


Luiza Sawaya reside há 11 anos em Lisboa, sendo intérprete quase exclusiva de Música de Câmara Brasileira, além de ser a única brasileira em Portugal a divulgar o nosso patrimônio musical. Especializou-se nas modinhas e lundus (séc. XIX) com 3 CDs gravados com esse repertório. Seu último desafio foi o recital "No Meio do Caminho" com repertório inteiramente modernista, apresentado, entre outras, nas Universidades de Lisboa e de Coimbra em homenagem ao centenário de nascimento de Drummond de Andrade com o apoio de nossa Embaixada.

Que caminhos você tomou para se dedicar à Música Brasileira?

Talvez seja um gosto herdado. Minha avó materna cantava e tocava órgão na igreja em Ribeirão Preto enquanto minha avó paterna, lisboeta, cantava e tocava piano como faziam as moças bem educadas do século XIX. Meu pai tocava clarinete e ocarina além de recitar versos de Guerra Junqueiro, Menotti del Picchia e nos ler histórias de Monteiro Lobato. Povoavam a nossa imaginação as peripécias da Emília, do Saci, do Tio Barnabé, do Jeca-Tatu, da Negrinha aprendendo a rezar o Pai-Nosso, as contendas sobre o petróleo brasileiro, enfim, muita música e muito Brasil na nossa infância. Aos 18 anos minha mãe, nos idos de 1930, causou espanto geral na família quando decidiu trabalhar com os índios numa Missão em Dourados, Mato-Grosso. Acompanhada de seu pai, atravessou o sertão, ora de trem ora de caminhão, até chegar àquele fim de mundo, incorporando na sua vida toda essa realidade brasileira. Esse meu avô dizia que o Brasil não tinha jeito. Meu pai, ao contrário, só pensava no futuro desse grande país, tão rico de recursos e de possibilidades. Crescemos acreditando no futuro da Nação e amando esta terra abençoada por Deus.

Quais as suas primeiras lembranças do contato com a Música Brasileira?

Meu pai foi grande carnavalesco no Rio de Janeiro onde nasci. Contava dos cordões e dos corsos em carro aberto na avenida ao som das marchinhas regadas a lança-perfume e muito confeti colorido. Em casa ouvíamos aqueles velhos discos de 78 rotações com muitos chorinhos como “Bem-te-vi atrevido” de Lina Pesce, “Luar do Sertão” do Catulo, “Tico-Tico no Fubá” do Zequinha de Abreu e tudo o que havia na voz de Francisco Alves e Carlos Galhardo.
Fizemos o curso primário na São Paulo Graded School, escola americana, para aprendermos inglês e certamente conhecermos o ritmo de vida que meu pai admirava, o da linha de montagem Ford, em série, com muita eficiência. Havia aí três professoras brasileiras: a Mrs Seabra, a D.Eliza e... D.Anita Guarnieri. Nesse tempo D.Anita e o Maestro Camargo Guarnieri trabalhavam juntos nessa escola. Éramos também vizinhos na Rua Mello Alves. Eles moravam acima da Oscar Freire e nós morávamos no nº 661, perto da Rua Estados Unidos, em frente à casa do Maestro e grande pianista Souza Lima. Lembro-me de ir à casa de Souza Lima e, é claro, correr para o piano. Ele logo dizia: “Primeiro vamos lavar as mãozinhas!”

Você conheceu bem os Guarnieri?

Conheci pessoalmente o Maestro Guarnieri quando foi membro do júri no 1º Concurso de Música Brasileira promovido pelo Centro de Música Brasileira de Osvaldo Lacerda e Eudóxia de Barros do qual eu participei. Foi um marco no meu aprendizado. Lembro-me da sua alegria quando cantei “Maria” de Araujo Viana: Ele suspirou e disse: “Ninguém canta mais essa maravilha!” Não cheguei a finalista mas tive a oportunidade de participar das aulas da cantora e professora Edmar Ferretti sobre “Interpretação da Música Brasileira”. “Em primeiro lugar, dizia ela, devemos ler a partitura minuciosamente, compreender o texto, aprender as notas, obedecer rigorosamente a todas as indicações do autor. Depois... repetir exaustivamente com o pianista. Não tentem inventar. O autor anotou na partitura precisamente o que deseja.” Grande lição! Só porque se trata de música brasileira muitos intérpretes acham que podem tomar liberdades, apropriando-se da composição, emprestando-lhe requebros indevidos, lamúrias descabidas, à brasileira, pensam. Bom tema de reflexão: o que é Música Brasileira? Tão sagrada quanto um Mozart! Ela é plena, tem de tudo: tem graça, tem doçura, tem ritmo, tem precisão, tem raciocínio, tem espírito. É para ser levada muito a sério.

E sobre D.Anita Guarnieri?

Era carismática, tinha uma voz lindíssima e levava a criançada a cantar, tocar e dançar como gente grande. Nas suas aulas aprendi cantigas folclóricas como a “Dança do Caroço”, “Sapo Cururu” e tantas outras. Ela puxava o cordão pela sala enquanto D.Odete tocava. Havia bandinha com

percussão e flauta doce. Uma animação deliciosa. Ficou gravada na minha memória a noite em que os professores fizeram uma apresentação especial, uma espécie de “Show de Talentos”. D.Anita vestia um vestido de tule verde-bandeira e eu fiquei siderada ao ouvi-la interpretar canções brasileiras. Foi numa dessas festas de escola que eu percebi que minha voz era diferente da voz dos meus colegas. Tinha um caderno onde escrevia as letras de todas essas cantigas que cantava sempre. Fui reencontrá-la muitos anos depois, quando saí à sua procura para as aulas de iniciação musical dos meus filhos. Assisti à aula que deu às crianças sobre impostação vocal. Numa explicação simples mostrou que cantar não é gritar. É preciso apreciar e tratar bem a música! A criançada retomou a canção, mudando-lhe completamente a sonoridade. Quando se mudou para Tremembé (perto de Taubaté, S.Paulo), visitei-a sempre, participando das festas de fim de ano dos alunos já como cantora. Quando ela fez 70 anos escrevi uma matéria no Jornal da Tarde de São Paulo - Histórias da Música Brasileira - sobre ela. Recortou do jornal a notícia e a deixou fincada no quadro de sua escolinha. Tenho-a sempre presente na minha música.

Você sempre se dedicou à música?

Estudei piano e aprendi a tocar violão. Esse virou meu companheiro onde quer que eu fosse. Era música de garotada, só “primeira, segunda e terceira”, como aprendi no método do Paraguassú que um dia meu pai me deu. Tudo muito elementar. Cantava “Chuá, chuá”, “Rancho Fundo”, “Casinha da Colina”, “Casinha Pequenina”, “Maringá”, desconhecendo ainda seus compositores. Foi nas temporadas de férias em Cabo-Frio, berço do meu lado alemão e salineiro, que dei largas a essas cantorias. Nessa época conheci o advogado Carlos Dodsworth Machado de quem eu ouvi pela primeira vez peças que identifiquei como música erudita brasileira: primorosas canções de Babi de Oliveira, “Azulão” e “Modinha” de Jayme Ovalle. A partir de então, passei a incorporar ao meu caderninho de letras, partituras que ia encontrando aqui e ali.


E as Modinhas?

Estava terminando a Faculdade de Letras onde fiz mais um ano de especialização em Literatura Brasileira. Esse é outro dos meus fascínios e que tem sido a espinha dorsal do meu trabalho na música. O conhecimento da História da Literatura Brasileira me proporcionou um entendimento fundamental do que se passou na História da Música. Meu antigo professor de filosofia do Colegial, o jornalista e grande cantador de marchinhas carnavalescas Mário Leônidas Casanova, nessa ocasião, me presenteou com

as “Modinhas Imperiais” de Mário de Andrade. Mais uma pedra no meu tabuleiro de xadrez. Fiquei encantada ao descobrir esse universo desconhecido e fascinante. Começava a perceber que a música brasileira existia num departamento maior que só o daquelas cantigas folclóricas ou populares do meu querido caderninho. Havia autores de textos, havia compositores, havia página impressa, havia História da Música Brasileira!

Quando passou a cantar acompanhada de piano?

Pois foram as “Modinhas” do Mário de Andrade que me abriram essa possibilidade. Minha primeira pianista foi minha amiga Leila Mutanen. Desvinculadas de qualquer compromisso que não fosse o mero prazer de fazer música e estarmos juntas, começamos a trabalhar essas modinhas e outras partituras que eu já tinha encontrado. Nessa época fui a um recital do Sergio Rovito no SESI da Av.Paulista pois tinha lido sobre o seu interesse pelas modinhas e pensei que talvez pudesse me dar aulas a respeito. Nessa noite ele cantou, entre outras preciosidades, uma cantiga que eu tinha aprendido com uma colega, sem saber seu autor ou seu título. Foi aí que descobri esses segredos. Tratava-se de “Sob um Pessegueiro”, poema de Paulo Setúbal. Mas o Rovito nunca me deu essa partitura, por mais que eu a pedisse. Entretanto, como quem procura acha, não só consegui a partitura como a apresentei com a Leila Mutanen num recital a que demos o nome de “Frenesi”, na biblioteca do Museu da Casa Brasileira. Estávamos, como sempre, vestidas a caráter, melindrosas de branco e plumas na cabeça para melhor caracterizar o

repertório. O crítico José da Veiga Oliveira escreveu-me palavras muito elogiosas sobre essa atuação. Formou-se uma fila para nos cumprimentar e lembro-me que comentava com alguém sobre a felicidade que eu sentia em ter descoberto o autor do poema “Pessegueiro” embora com muita pena de não conhecer o compositor da música, referido como Mello Dias. Quem seria? Uma senhora ao meu lado, com os olhos marejados, me interrompeu emocionadamente, murumurando: “Era

meu pai. Seu nome é Luiz Gonzaga Baptista Cardoso e era maestro em Botucatu.” Foi assim que obtive todas as partituras do Mello Dias, algumas cuja primeira audição fizemos nos recitais em homenagem ao poeta Paulo Setubal em Tatuí .


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