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Luiza Sawaya reside há 11 anos em
Lisboa, sendo intérprete quase exclusiva
de Música de Câmara Brasileira,
além de ser a única brasileira
em Portugal a divulgar o nosso patrimônio
musical. Especializou-se nas modinhas e
lundus (séc. XIX) com 3 CDs gravados
com esse repertório. Seu último
desafio foi o recital "No Meio do Caminho"
com repertório inteiramente modernista,
apresentado, entre outras, nas Universidades
de Lisboa e de Coimbra em homenagem ao centenário
de nascimento de Drummond de Andrade com
o apoio de nossa Embaixada. |
Que
caminhos você tomou para se dedicar à
Música Brasileira?
Talvez seja um gosto herdado. Minha avó materna
cantava e tocava órgão na igreja em
Ribeirão Preto enquanto minha avó
paterna, lisboeta, cantava e tocava piano como faziam
as moças bem educadas do século XIX.
Meu pai tocava clarinete e ocarina além de
recitar versos de Guerra Junqueiro, Menotti del
Picchia e nos ler histórias de Monteiro Lobato.
Povoavam a nossa imaginação as peripécias
da Emília, do Saci, do Tio Barnabé,
do Jeca-Tatu, da Negrinha aprendendo a rezar o Pai-Nosso,
as contendas sobre o petróleo brasileiro,
enfim, muita música e muito Brasil na nossa
infância. Aos 18 anos minha mãe, nos
idos de 1930, causou espanto geral na família
quando decidiu trabalhar com os índios numa
Missão em Dourados, Mato-Grosso. Acompanhada
de seu pai, atravessou o sertão, ora de trem
ora de caminhão, até chegar àquele
fim de mundo, incorporando na sua vida toda essa
realidade brasileira. Esse meu avô dizia que
o Brasil não tinha jeito. Meu pai, ao contrário,
só pensava no futuro desse grande país,
tão rico de recursos e de possibilidades.
Crescemos acreditando no futuro da Nação
e amando esta terra abençoada por Deus.
Quais
as suas primeiras lembranças do contato
com a Música Brasileira?
Meu pai foi grande carnavalesco no Rio de Janeiro
onde nasci. Contava dos cordões e dos corsos
em carro aberto na avenida ao som das marchinhas
regadas a lança-perfume e muito confeti colorido.
Em casa ouvíamos aqueles velhos discos de
78 rotações com muitos chorinhos como
“Bem-te-vi atrevido” de Lina Pesce,
“Luar do Sertão” do Catulo, “Tico-Tico
no Fubá” do Zequinha de Abreu e tudo
o que havia na voz de Francisco Alves e Carlos Galhardo.
Fizemos o curso primário na São Paulo
Graded School, escola americana, para aprendermos
inglês e certamente conhecermos o ritmo de
vida que meu pai admirava, o da linha de montagem
Ford, em série, com muita eficiência.
Havia aí três professoras brasileiras:
a Mrs Seabra, a D.Eliza e... D.Anita Guarnieri.
Nesse tempo D.Anita e o Maestro Camargo Guarnieri
trabalhavam juntos nessa escola. Éramos também
vizinhos na Rua Mello Alves. Eles moravam acima
da Oscar Freire e nós morávamos no
nº 661, perto da Rua Estados Unidos, em frente
à casa do Maestro e grande pianista Souza
Lima. Lembro-me de ir à casa de Souza Lima
e, é claro, correr para o piano. Ele logo
dizia: “Primeiro vamos lavar as mãozinhas!”
Você
conheceu bem os Guarnieri?
Conheci pessoalmente o Maestro Guarnieri quando
foi membro do júri no 1º Concurso de
Música Brasileira promovido pelo Centro de
Música Brasileira de Osvaldo Lacerda e Eudóxia
de Barros do qual eu participei. Foi um marco no
meu aprendizado. Lembro-me da sua alegria quando
cantei “Maria” de Araujo Viana: Ele
suspirou e disse: “Ninguém canta mais
essa maravilha!” Não cheguei a finalista
mas tive a oportunidade de participar das aulas
da cantora e professora Edmar Ferretti sobre “Interpretação
da Música Brasileira”. “Em primeiro
lugar, dizia ela, devemos ler a partitura minuciosamente,
compreender o texto, aprender as notas, obedecer
rigorosamente a todas as indicações
do autor. Depois... repetir exaustivamente com o
pianista. Não tentem inventar. O autor anotou
na partitura precisamente o que deseja.” Grande
lição! Só porque se trata de
música brasileira muitos intérpretes
acham que podem tomar liberdades, apropriando-se
da composição, emprestando-lhe requebros
indevidos, lamúrias descabidas, à
brasileira, pensam. Bom tema de reflexão:
o que é Música Brasileira? Tão
sagrada quanto um Mozart! Ela é plena, tem
de tudo: tem graça, tem doçura, tem
ritmo, tem precisão, tem raciocínio,
tem espírito. É para ser levada muito
a sério.
E sobre D.Anita Guarnieri?
Era carismática,
tinha uma voz lindíssima e levava
a criançada a cantar, tocar e dançar
como gente grande. Nas suas aulas aprendi
cantigas folclóricas como a “Dança
do Caroço”, “Sapo Cururu”
e tantas outras. Ela puxava o cordão
pela sala enquanto D.Odete tocava. Havia
bandinha com |

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percussão e flauta doce. Uma animação
deliciosa. Ficou gravada na minha memória
a noite em que os professores fizeram uma apresentação
especial, uma espécie de “Show de Talentos”.
D.Anita vestia um vestido de tule verde-bandeira
e eu fiquei siderada ao ouvi-la interpretar canções
brasileiras. Foi numa dessas festas de escola que
eu percebi que minha voz era diferente da voz dos
meus colegas. Tinha um caderno onde escrevia as
letras de todas essas cantigas que cantava sempre.
Fui reencontrá-la muitos anos depois, quando
saí à sua procura para as aulas de
iniciação musical dos meus filhos.
Assisti à aula que deu às crianças
sobre impostação vocal. Numa explicação
simples mostrou que cantar não é gritar.
É preciso apreciar e tratar bem a música!
A criançada retomou a canção,
mudando-lhe completamente a sonoridade. Quando se
mudou para Tremembé (perto de Taubaté,
S.Paulo), visitei-a sempre, participando das festas
de fim de ano dos alunos já como cantora.
Quando ela fez 70 anos escrevi uma matéria
no Jornal da Tarde de São Paulo - Histórias
da Música Brasileira - sobre ela. Recortou
do jornal a notícia e a deixou fincada no
quadro de sua escolinha. Tenho-a sempre presente
na minha música.
Você
sempre se dedicou à música?
Estudei piano e aprendi a tocar violão. Esse
virou meu companheiro onde quer que eu fosse. Era
música de garotada, só “primeira,
segunda e terceira”, como aprendi no método
do Paraguassú que um dia meu pai me deu.
Tudo muito elementar. Cantava “Chuá,
chuá”, “Rancho Fundo”,
“Casinha da Colina”, “Casinha
Pequenina”, “Maringá”,
desconhecendo ainda seus compositores. Foi nas temporadas
de férias em Cabo-Frio, berço do meu
lado alemão e salineiro, que dei largas a
essas cantorias. Nessa época conheci o advogado
Carlos Dodsworth Machado de quem eu ouvi pela primeira
vez peças que identifiquei como música
erudita brasileira: primorosas canções
de Babi de Oliveira, “Azulão”
e “Modinha” de Jayme Ovalle. A partir
de então, passei a incorporar ao meu caderninho
de letras, partituras que ia encontrando aqui e
ali.
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E
as Modinhas?
Estava terminando
a Faculdade de Letras onde fiz mais um ano
de especialização em Literatura
Brasileira. Esse é outro dos meus
fascínios e que tem sido a espinha
dorsal do meu trabalho na música.
O conhecimento da História da Literatura
Brasileira me proporcionou um entendimento
fundamental do que se passou na História
da Música. Meu antigo professor de
filosofia do Colegial, o jornalista e grande
cantador de marchinhas carnavalescas Mário
Leônidas Casanova, nessa ocasião,
me presenteou com
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as “Modinhas Imperiais” de Mário de Andrade. Mais uma pedra
no meu tabuleiro de xadrez. Fiquei encantada ao
descobrir esse universo desconhecido e fascinante.
Começava a perceber que a música brasileira
existia num departamento maior que só o daquelas
cantigas folclóricas ou populares do meu
querido caderninho. Havia autores de textos, havia
compositores, havia página impressa, havia
História da Música Brasileira!
Quando
passou a cantar acompanhada de piano?
Pois foram as “Modinhas” do Mário
de Andrade que me abriram essa possibilidade. Minha
primeira pianista foi minha amiga Leila Mutanen.
Desvinculadas de qualquer compromisso que não
fosse o mero prazer de fazer música e estarmos
juntas, começamos a trabalhar essas modinhas
e outras partituras que eu já tinha encontrado.
Nessa época fui a um recital do Sergio Rovito
no SESI da Av.Paulista pois tinha lido sobre o seu
interesse pelas modinhas e pensei que talvez pudesse
me dar aulas a respeito. Nessa noite ele cantou,
entre outras preciosidades, uma cantiga que eu tinha
aprendido com uma colega, sem saber seu autor ou
seu título. Foi aí que descobri esses
segredos. Tratava-se de “Sob um Pessegueiro”,
poema de Paulo Setúbal. Mas o Rovito nunca
me deu essa partitura, por mais que eu a pedisse.
Entretanto, como quem procura acha, não só
consegui a partitura como a apresentei com a Leila
Mutanen num recital a que demos o nome de “Frenesi”,
na biblioteca do Museu da Casa Brasileira. Estávamos,
como sempre, vestidas a caráter, melindrosas
de branco e plumas na cabeça para melhor
caracterizar o
| repertório.
O crítico José da Veiga Oliveira
escreveu-me palavras muito elogiosas sobre
essa atuação. Formou-se uma
fila para nos cumprimentar e lembro-me que
comentava com alguém sobre a felicidade
que eu sentia em ter descoberto o autor
do poema “Pessegueiro” embora
com muita pena de não conhecer o
compositor da música, referido como
Mello Dias. Quem seria? Uma senhora ao meu
lado, com os olhos marejados, me interrompeu
emocionadamente, murumurando: “Era
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meu pai. Seu nome é Luiz Gonzaga Baptista
Cardoso e era maestro em Botucatu.” Foi assim
que obtive todas as partituras do Mello Dias, algumas
cuja primeira audição fizemos nos
recitais em homenagem ao poeta Paulo Setubal em
Tatuí .
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