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Você chegou
a executar música brasileira lá
fora? Como é a receptividade do público
para com a nossa música?
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Ao
contrário daqui de dentro, é
a melhor possivel. É impressionante
como a música brasileira é bem
recebida em qualquer lugar do mundo. A música
com uma linguagem contemporânea encontra
resistência em muitos lugares do mundo,
por isso, quando levamos a música brasileira
para fora, é preciso dosar um pouco,
porque nós temos |
uma produção musical muito diversificada.
Nós temos obras de linguagem realmente contemporânea,
mas temos de tudo no Brasil: a escola nacionalista
de composição, um romantismo musical
à maneira européia e até o
passado colonial brasileiro. Ou seja, temos muitas
alternativas. E quando mostramos essas alternativas
lá no exterior elas costumam ser bem recebidas.
Eu fiz uma vez uma tournée no México
por cerca de 10 a 15 cidades, desde pequenas cidades
de 5 a 10 mil habitantes, até capitais de
estados, grandes cidades e até a Cidade do
México. Eu levei dois programas preparados:
um com músicas tradicionais européias
e outro que era pura e simples música brasileira.
No primeiro dia eu toquei o programa tradicional
e aí vieram as perguntas: "Escuta, você
não tem coisa brasileira para tocar?"
E no segundo dia eu coloquei o programa brasileiro
e, a partir daí, esquecemos o outro programa,
porque ninguém queria ouvir mais a outra
coisa, só queriam ouvir as brasileiras. E
eu tenho feito coisas assim, uma vez eu fiz um concerto
só com música brasileira na sala de
concertos da família Krupp, na Alemanha,
em Essen, que era um lugar freqüentado até
pelo antigo imperador da Alemanha, na época
da 1ª guerra mundial. Foi um programa inteirinho
com música brasileira, que ia desde Nepomuceno,
Carlos Gomes, até Ronaldo Miranda, que é
um compositor já de linguagem mais contemporânea.
Foi muitíssimo bem recebido e assim tem sido
em todo lugar. A música brasileira tem, sim,
uma grande aceitação. Um dos compositores
mais gravados no século XX, que está
entre os cinco compositores do século XX
mais gravados em todo o mundo, é Villa-Lobos.
Existe uma aceitação mundial a essa
música. Os compositores de todas as tendências
estéticas que nós temos (que eu acho
muito bom, porque aí enriquece ainda mais
toda a nossa produção), por menos
que eles estejam vinculados ao que seria a caracterização
nacional da sua música, sempre dizem que,
quando tocam lá fora as suas músicas,
alguém diz: "Tem alguma coisa de brasileiro
na sua música", e isso acaba sendo um
dado positivo para eles. Se você conversar
um dia com compositores como Gilberto Mendes, ele
vai te dizer coisas assim, experiências que
ele teve com músicas que não tinham
nenhum interesse em ter conotações
nacionais, e que as pessoas acabavam descobrindo
alguma coisa de diferente, um diferencial, e portanto,
valorizavam a sua música também por
isso. Isso tem acontecido com muita gente. Portanto,
temos muito o que conquistar lá fora, é
verdade, mas principalmente temos que conquistar
aqui dentro.
E a Sinfonia Cultura? Como foi o início
do seu trabalho com eles?
Bem, começamos
a cerca de cinco anos atrás, já
propondo uma ênfase na música
brasileira. Devo dizer que encontrei na
Sinfonia Cultura, ao contrário de
outros lugares, um apoio muito grande para
levar o trabalho por essa linha, pois, se
não tivesse encontrado apoio da parte
administrativa teria sido difícil
seguirmos por esse lado. E tenho que citar
o |
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nosso administrador, o gerente da Rádio (Cultura
FM 103,3 - SP), João Batista Torres que é
uma pessoa que sempre nos apoiou nesta escolha preferencial
do repertório brasileiro. Isso nos deu, digamos,
o background necessário para podermos fazer
esse tipo de coisa. A Sinfonia Cultura teve um histórico
inicial bastante conflitivo, mas eu procurei deixar
de lado todas essas histórias das quais eu
nem participei, pois nem estava no Brasil quando
aconteceram. Quando fui consultado pela primeira
vez para ver se eu poderia de vez em quando fazer
algum trabalho com a Sinfonia Cultura, eu estava
simplesmente
na Coréia, do outro lado do mundo. As coisas
foram caminhando e eu acabei ficando como regente
dessa orquestra e procuramos, no começo,
com todas
as dificuldades que tínhamos, ir levando
a coisa para esse lado, não só do
repertório brasileiro, mas de propostas que
não fossem muito corriqueiras. Desde o começo,
nossa preocupação foi sempre a de
trazer à tona repertórios que não
fossem convencionais. Logo no começo, além
dos brasileiros, nós tocamos música
de Béla Bartók e de compositores dessa
natureza, do século XX, e, de preferência,
obras não muito tocadas. Pouco a pouco, a
partir do momento que tivemos essa série
de concertos no SESC Belenzinho (que já está
agora no seu quarto ano, se não me engano)
nós passamos a ter uma programação
regular na qual enfatizamos a música brasileira,
o que foi muito produtivo para a orquestra e deu
a ela uma certa identidade, que eu considero muito
importante. Na minha opinião, se nós
fôssemos mais uma orquestra que tocasse somente
o repertório clássico tradicional,
tenho dúvidas se estaríamos ainda
"vivos". Contudo, fazendo o que nós
fazemos, temos encontrado um espaço próprio,
diferenciado, e temos prestado um serviço
para a cultura musical brasileira muito significativo.
Temos tocado compositores do Brasil de todos os
tempos, de todas as épocas, vivos e mortos.
E os compositores que estão vivos têm
nos apoiado muito, e isso tem nos ajudado, tem nos
estimulado bastante a prosseguir nesta direção.
Nós só esperamos que, daqui para a
frente, possamos continuar a cumprir esse papel,
exercer essa função social e cultural
que é realmente significativa pra mudar um
pouco esse panorama da música brasileira.
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E
quais foram os principais trabalhos que
a Sinfonia Cultura realizou nestes últimos
5 anos?
Nós tivemos
trabalhos muito diferenciados, em muitas
áreas e com finalidades muito diferentes.
Houve trabalhos em que atendemos solicitações
da própria |
casa onde estamos, que foram, por exemplo, gravações
de vinhetas para rádio e televisão,
eventualmente para co-produções da
Fundação com outras entidades, como
trilhas de filmes, entre outros. Houve atividades
fora da Fundação. A orquestra já
acompanhou balés, já fez 2 ou 3 óperas,
já fez uma grande quantidade de concertos
mais ou menos convencionais, como as outras orquestras
também, porém já fizemos concertos
com situações cênicas, multi-meios
e coisas assim. Ou seja, a atividade foi muito diferenciada
o tempo inteiro, mas vou ressaltar alguns momentos
que eu considero bastante importantes na vida da
orquestra. A orquestra acompanhou, por exemplo,
o balé Bolshoi, não só aqui
em São Paulo, mas também em Joinvile,
Santa Catarina, participando de um de seus Festivais
de Dança. Foram feitas pelo menos duas óperas,
"Os Contos de Hoffmann" e "Carmen".
Fizemos uma vez, já comigo, a música
para o filme "Faust", de Murnau. É
um filme mudo, da década de 20, e um compositor
alemão contemporâneo chamado Bernd
Schultheis escreveu a música para acompanhar
aquele filme mudo. São duas horas de música,
ininterruptas. Fizemos isso na Sala São Paulo
num festival de cinema e foi uma coisa bastante
positiva para a orquestra. Participamos uma ou duas
vezes do festival de Campos do Jordão. Entretanto,
o mais importante que temos feito e nem sempre aparece
muito, são esses concertos da programação
do SESC Belenzinho com conteúdos musicais
diferenciados. E também fizemos algumas gravações
para televisão.
Quais
foram os principais projetos realizados no ano
de 2002?
Esse ano de 2002 foi
um ano muito positivo para a nossa orquestra.
Tivemos dois grandes projetos que foram uma espécie
de coluna dorsal do nosso trabalho, mas também
fizemos outras coisas, saindo um pouco deles.
Um é esse do SESC Belenzinho e o outro
é um projeto grande com a Secretaria de
Educação em que nós levamos
música até as escolas do Estado
de São Paulo. Isso significa 48 apresentações
de Orquestra Sinfônica, Orquestra de Câmara
e Música de Câmara que foram levadas
à rede pública de ensino. É
um grande projeto que atendeu não só
a capital, mas muitas cidades do interior também.
Atingimos um público bastante grande com
isso. No trabalho do SESC Belenzinho nós
passamos a ter os concertos quinzenais, e não
mais semanais, em função das reformas
que estão sendo feitas lá. Nós
tivemos um ano bastante brilhante, muitos bons
concertos e, o que eu considero fundamental, diferenciados.
Eu acho que a principal contribuição,
o principal projeto que nós fizemos este
ano, que nos permitiu documentar o nosso trabalho,
foi uma série de dez concertos que nós
gravamos para a TV Cultura e que tiveram como
motivação os 25 anos da Rádio
Cultura, à qual nós estamos ligados.
Esses dez concertos tiveram mais ou menos o formato
de dez programas de rádio, a maioria deles
já tradicionais na Rádio. E esses
hipotéticos programas de rádio acabavam
dando nome para os concertos.
| Aproveitamos
então, nessa ocasião, para
gravar para a televisão uma série
de obras de grande significado, brasileiras
principalmente, tanto do passado quanto
do presente, e que nunca tinham sido gravadas
nem em áudio e nem em vídeo.
Portanto, documentos fundamentais que estão
lá gravados e vão servir para
atestar o nosso trabalho, tudo o que fizemos.
Vou ressaltar alguns concertos que eu |

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considero mais importantes com relação
ao repertório. Logo de cara, como primeiro
da série, nós fizemos uma amostragem
da escola de composição de Camargo
Guarnieri. Peguei quatro alunos do Guarnieri, mais
ou menos da mesma geração, e mostrei
obras desses compositores. Esta é, sem dúvida,
uma das principais escolas de composição
do Brasil e são compositores nem sempre tão
conhecidos e que nunca tiveram muito acesso aos
meios de comunicação. Outro programa
que eu considero fundamental foi a gravação
do Requiem de 1816 do Pe. José Maurício
Nunes Garcia. Esta é a principal obra brasileira
daquele período e até então
nunca tinha sido gravada no Brasil, a não
ser num disco nos anos 50, e a única gravação
que existe fora do Brasil acabou distorcendo completamente
o texto original do compositor tornando-se uma outra
versão da obra. Fizemos então esse
Requiem com o Coral Paulistano do Teatro Municipal
de São Paulo, que tem sido muito bem trabalhado
pela Mara Campos, e foi um concerto muito bonito
e muito importante. Foi também, de todos
os dez concertos, a peça mais famosa e ao
mesmo tempo a mais desconhecida delas. Inúmeros
livros de música brasileira citam esse Requiem,
mas quase ninguém ouviu essa obra, as pessoas
desconhecem completamente. É uma preciosidade
que nós temos muito orgulho de ter feito.
Depois disso, um outro programa importante foi aquele
em que nós gravamos o concerto para piano
do Gilberto Mendes, compositor que em 2002 completou
80 anos de idade e cujo concerto para piano é
uma obra bastante significativa. Mais adiante gravamos
uma ópera, em forma de concerto, de um compositor
do Rio Grande do Sul chamado Araújo Vianna,
a ópera se chama "Carmela". É
uma ópera que, quando foi tocada no começo
do século 20, no Rio de Janeiro, esteve em
cartaz por mais tempo do que óperas de Carlos
Gomes. É uma belíssima ópera
e foi restaurada por Ion Bressan que é o
regente da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto
Alegre), um jovem regente que conhece tudo de orquestração.
Ele fez a restauração e reorquestrou
completamente a obra cuja parte de orquestra havia
se perdido completamente. É uma jóia
de obra, uma ópera curta, em um ato, pequena,
dura cerca de 45 a 50 minutos e foi um trabalho
que serviu para que as pessoas descobrissem, de
repente, um Araújo Vianna, esse compositor
que muita gente não conhece. Gravamos também
um programa com quase só estréias
de quatro compositores relativamente jovens que
atuam ou já atuaram por São Paulo.
Esse programa tinha peças de Antonio Ribeiro,
Arrigo Barnabé, Edson Zampronha e Rodolfo
Coelho de Souza. Peças inéditas deles
foram gravadas.
A peça do Arrigo é um estudo sinfônico
para guitarra elétrica e orquestra.
Essas peças, todas elas muito bem feitas,
nos deram um prazer enorme em executá-las.
Fora isso, tivemos oportunidade de fazer alguns
outros concertos que não foram para a televisão,
nessa programação do SESC, e entre
eles eu destacaria justamente o concerto em homenagem
ao Amaral Vieira. Me deu muito prazer fazer essa
homenagem a esse compositor que é um batalhador
pela causa dos outros, que nem sempre se ocupa apenas
com as suas próprias coisas. Foi bom a gente
poder fazer uma homenagem a ele por ocasião
das comemorações dos seus 50 anos
de idade. O Amaral tem sido uma pessoa que tem apoiado
muito o trabalho da Sinfonia Cultura. Ele tem um
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programa na Rádio também,
e está muito perto da gente, conhecendo
bem a estrutura do nosso trabalho. E o que
fizemos, não foi só gratidão
por tudo o que ele já fez, foi também
o reconhecimento do valor do seu trabalho
como compositor. E, por fim, o último
concerto do SESC,
em dezembro, foi outro concerto |
histórico. Foi um concerto importante em
que nós mostramos um reencontro de Mignone
e Respighi. Infelizmente não tivemos uma
quantidade de público muito grande para ver
um concerto tão importante e com um conteúdo
tão significativo para a nossa música.
Mas foi feito e foi um concerto muito bem tocado
pela orquestra, o que me deixou muito feliz. Essas
foram algumas das principais realizações
desse ano. Mas também lá dentro da
Fundação nós gravamos vinhetas
tanto para televisão quanto para rádio.
Para comemorar os 25 anos da Rádio Cultura
FM, alguns compositores receberam a encomenda de
fazer vinhetas e nós tocamos essas vinhetas
e gravamos para a Rádio. Fizemos uma fita
de vídeo para a Secretaria de Educação,
uma fita de conteúdo pedagógico, mostrando
a orquestra e os seus instrumentos. Esse trabalho
ficou muito bom e vai ser veiculado na rede de ensino
público. Existe uma peça que é
tocada o tempo inteiro por todos os instrumentos,
individualmente, e depois por toda a orquestra.
Essa peça é uma obra composta especificamente
para o nosso projeto pelo compositor Ernani Aguiar.
Foi um ano muito positivo para a Sinfonia Cultura.
Além de todo esse trabalho com a Sinfonia
Cultura eu quero também ressaltar as coisas
importantes que eu fiz, principalmente no segundo
semestre, com outras orquestras. Em agosto eu regi
um concerto com a Orquestra Petrobrás Pró-Música
do Rio de Janeiro, um concerto que tinha obras de
cinco compositores que vivem no Rio de Janeiro.
Segundo o pessoal de lá, foi um dos concertos,
com esse tipo de repertório, mais bem sucedidos
dos últimos tempos. Eu fiquei realmente muito
feliz com o resultado do trabalho e a orquestra
correspondeu muito bem. Depois, em setembro eu regi
um concerto com a OSPA em Porto Alegre tendo a Segunda
Sinfonia de Camargo Guarnieri. No final de outubro
e começo de novembro fiz novamente a Segunda
Sinfonia do Guarnieri com a OSB (Orquestra Sinfônica
Brasileira) no Rio. E agora em dezembro, dentro
do projeto "Memória Musical", da
Nery Cultural, eu regi um concerto com a Orquestra
Sinfônica Municipal de São Paulo, no
Theatro Municipal, com obras de 3 compositores brasileiros:
João Gomes de Araújo, Henrique Oswald
e Savino de Benedictis. Foi um concerto que me deu
muito prazer em fazer e a orquestra recebeu muito
bem esse repertório. Essa é uma orquestra
que não tem, normalmente, tocado música
brasileira, mas o fez bastante bem. Fiquei muito
feliz com tudo isso porque assim vamos semeando
essa coisa da música brasileira em outras
orquestras, em outros centros brasileiros, e todos
passam a perceber que a música brasileira
é uma música bonita, de boa qualidade.
E dessa forma conseguimos divulgar ainda mais o
nosso trabalho, o trabalho da música brasileira,
porque o que somente a Sinfonia Cultura pode fazer
não é tanto, é limitado. As
outras orquestras também podem e devem contribuir
na divulgação da música do
Brasil.
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Você gostaria de deixar algum recado
para os leitores?
Sim. Que as pessoas
busquem ouvir mais a música brasileira
para perceber que ela existe, que tem conteúdo,
que tem valor, para que possam ter uma outra
postura
em relação a ela.
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