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Entrevista com Lutero Rodrigues
Janeiro/2003


Você chegou a executar música brasileira lá fora? Como é a receptividade do público para com a nossa música?

Ao contrário daqui de dentro, é a melhor possivel. É impressionante como a música brasileira é bem recebida em qualquer lugar do mundo. A música com uma linguagem contemporânea encontra resistência em muitos lugares do mundo, por isso, quando levamos a música brasileira para fora, é preciso dosar um pouco, porque nós temos
uma produção musical muito diversificada. Nós temos obras de linguagem realmente contemporânea, mas temos de tudo no Brasil: a escola nacionalista de composição, um romantismo musical à maneira européia e até o passado colonial brasileiro. Ou seja, temos muitas alternativas. E quando mostramos essas alternativas lá no exterior elas costumam ser bem recebidas. Eu fiz uma vez uma tournée no México por cerca de 10 a 15 cidades, desde pequenas cidades de 5 a 10 mil habitantes, até capitais de estados, grandes cidades e até a Cidade do México. Eu levei dois programas preparados: um com músicas tradicionais européias e outro que era pura e simples música brasileira. No primeiro dia eu toquei o programa tradicional e aí vieram as perguntas: "Escuta, você não tem coisa brasileira para tocar?" E no segundo dia eu coloquei o programa brasileiro e, a partir daí, esquecemos o outro programa, porque ninguém queria ouvir mais a outra coisa, só queriam ouvir as brasileiras. E eu tenho feito coisas assim, uma vez eu fiz um concerto só com música brasileira na sala de concertos da família Krupp, na Alemanha, em Essen, que era um lugar freqüentado até pelo antigo imperador da Alemanha, na época da 1ª guerra mundial. Foi um programa inteirinho com música brasileira, que ia desde Nepomuceno, Carlos Gomes, até Ronaldo Miranda, que é um compositor já de linguagem mais contemporânea. Foi muitíssimo bem recebido e assim tem sido em todo lugar. A música brasileira tem, sim, uma grande aceitação. Um dos compositores mais gravados no século XX, que está entre os cinco compositores do século XX mais gravados em todo o mundo, é Villa-Lobos. Existe uma aceitação mundial a essa música. Os compositores de todas as tendências estéticas que nós temos (que eu acho muito bom, porque aí enriquece ainda mais toda a nossa produção), por menos que eles estejam vinculados ao que seria a caracterização nacional da sua música, sempre dizem que, quando tocam lá fora as suas músicas, alguém diz: "Tem alguma coisa de brasileiro na sua música", e isso acaba sendo um dado positivo para eles. Se você conversar um dia com compositores como Gilberto Mendes, ele vai te dizer coisas assim, experiências que ele teve com músicas que não tinham nenhum interesse em ter conotações nacionais, e que as pessoas acabavam descobrindo alguma coisa de diferente, um diferencial, e portanto, valorizavam a sua música também por isso. Isso tem acontecido com muita gente. Portanto, temos muito o que conquistar lá fora, é verdade, mas principalmente temos que conquistar aqui dentro.

E a Sinfonia Cultura? Como foi o início do seu trabalho com eles?

Bem, começamos a cerca de cinco anos atrás, já propondo uma ênfase na música brasileira. Devo dizer que encontrei na Sinfonia Cultura, ao contrário de outros lugares, um apoio muito grande para levar o trabalho por essa linha, pois, se não tivesse encontrado apoio da parte administrativa teria sido difícil seguirmos por esse lado. E tenho que citar o

nosso administrador, o gerente da Rádio (Cultura FM 103,3 - SP), João Batista Torres que é uma pessoa que sempre nos apoiou nesta escolha preferencial
do repertório brasileiro. Isso nos deu, digamos, o background necessário para podermos fazer esse tipo de coisa. A Sinfonia Cultura teve um histórico inicial bastante conflitivo, mas eu procurei deixar de lado todas essas histórias das quais eu nem participei, pois nem estava no Brasil quando aconteceram. Quando fui consultado pela primeira vez para ver se eu poderia de vez em quando fazer algum trabalho com a Sinfonia Cultura, eu estava simplesmente
na Coréia, do outro lado do mundo. As coisas foram caminhando e eu acabei ficando como regente dessa orquestra e procuramos, no começo, com todas
as dificuldades que tínhamos, ir levando a coisa para esse lado, não só do repertório brasileiro, mas de propostas que não fossem muito corriqueiras. Desde o começo, nossa preocupação foi sempre a de trazer à tona repertórios que não fossem convencionais. Logo no começo, além dos brasileiros, nós tocamos música de Béla Bartók e de compositores dessa natureza, do século XX, e, de preferência, obras não muito tocadas. Pouco a pouco, a partir do momento que tivemos essa série de concertos no SESC Belenzinho (que já está agora no seu quarto ano, se não me engano) nós passamos a ter uma programação regular na qual enfatizamos a música brasileira, o que foi muito produtivo para a orquestra e deu a ela uma certa identidade, que eu considero muito importante. Na minha opinião, se nós fôssemos mais uma orquestra que tocasse somente o repertório clássico tradicional, tenho dúvidas se estaríamos ainda "vivos". Contudo, fazendo o que nós fazemos, temos encontrado um espaço próprio, diferenciado, e temos prestado um serviço para a cultura musical brasileira muito significativo. Temos tocado compositores do Brasil de todos os tempos, de todas as épocas, vivos e mortos. E os compositores que estão vivos têm nos apoiado muito, e isso tem nos ajudado, tem nos estimulado bastante a prosseguir nesta direção. Nós só esperamos que, daqui para a frente, possamos continuar a cumprir esse papel, exercer essa função social e cultural que é realmente significativa pra mudar um pouco esse panorama da música brasileira.


E quais foram os principais trabalhos que a Sinfonia Cultura realizou nestes últimos 5 anos?

Nós tivemos trabalhos muito diferenciados, em muitas áreas e com finalidades muito diferentes. Houve trabalhos em que atendemos solicitações da própria

casa onde estamos, que foram, por exemplo, gravações de vinhetas para rádio e televisão, eventualmente para co-produções da Fundação com outras entidades, como trilhas de filmes, entre outros. Houve atividades fora da Fundação. A orquestra já acompanhou balés, já fez 2 ou 3 óperas, já fez uma grande quantidade de concertos mais ou menos convencionais, como as outras orquestras também, porém já fizemos concertos com situações cênicas, multi-meios e coisas assim. Ou seja, a atividade foi muito diferenciada o tempo inteiro, mas vou ressaltar alguns momentos que eu considero bastante importantes na vida da orquestra. A orquestra acompanhou, por exemplo, o balé Bolshoi, não só aqui em São Paulo, mas também em Joinvile, Santa Catarina, participando de um de seus Festivais de Dança. Foram feitas pelo menos duas óperas, "Os Contos de Hoffmann" e "Carmen". Fizemos uma vez, já comigo, a música para o filme "Faust", de Murnau. É um filme mudo, da década de 20, e um compositor alemão contemporâneo chamado Bernd Schultheis escreveu a música para acompanhar aquele filme mudo. São duas horas de música, ininterruptas. Fizemos isso na Sala São Paulo num festival de cinema e foi uma coisa bastante positiva para a orquestra. Participamos uma ou duas vezes do festival de Campos do Jordão. Entretanto, o mais importante que temos feito e nem sempre aparece muito, são esses concertos da programação do SESC Belenzinho com conteúdos musicais diferenciados. E também fizemos algumas gravações para televisão.

Quais foram os principais projetos realizados no ano de 2002?

Esse ano de 2002 foi um ano muito positivo para a nossa orquestra. Tivemos dois grandes projetos que foram uma espécie de coluna dorsal do nosso trabalho, mas também fizemos outras coisas, saindo um pouco deles. Um é esse do SESC Belenzinho e o outro é um projeto grande com a Secretaria de Educação em que nós levamos música até as escolas do Estado de São Paulo. Isso significa 48 apresentações de Orquestra Sinfônica, Orquestra de Câmara e Música de Câmara que foram levadas à rede pública de ensino. É um grande projeto que atendeu não só a capital, mas muitas cidades do interior também. Atingimos um público bastante grande com isso. No trabalho do SESC Belenzinho nós passamos a ter os concertos quinzenais, e não mais semanais, em função das reformas que estão sendo feitas lá. Nós tivemos um ano bastante brilhante, muitos bons concertos e, o que eu considero fundamental, diferenciados. Eu acho que a principal contribuição, o principal projeto que nós fizemos este ano, que nos permitiu documentar o nosso trabalho, foi uma série de dez concertos que nós gravamos para a TV Cultura e que tiveram como motivação os 25 anos da Rádio Cultura, à qual nós estamos ligados. Esses dez concertos tiveram mais ou menos o formato de dez programas de rádio, a maioria deles já tradicionais na Rádio. E esses hipotéticos programas de rádio acabavam dando nome para os concertos.

Aproveitamos então, nessa ocasião, para gravar para a televisão uma série de obras de grande significado, brasileiras principalmente, tanto do passado quanto do presente, e que nunca tinham sido gravadas nem em áudio e nem em vídeo. Portanto, documentos fundamentais que estão lá gravados e vão servir para atestar o nosso trabalho, tudo o que fizemos. Vou ressaltar alguns concertos que eu

considero mais importantes com relação ao repertório. Logo de cara, como primeiro da série, nós fizemos uma amostragem da escola de composição de Camargo Guarnieri. Peguei quatro alunos do Guarnieri, mais ou menos da mesma geração, e mostrei obras desses compositores. Esta é, sem dúvida, uma das principais escolas de composição do Brasil e são compositores nem sempre tão conhecidos e que nunca tiveram muito acesso aos meios de comunicação. Outro programa que eu considero fundamental foi a gravação do Requiem de 1816 do Pe. José Maurício Nunes Garcia. Esta é a principal obra brasileira daquele período e até então nunca tinha sido gravada no Brasil, a não ser num disco nos anos 50, e a única gravação que existe fora do Brasil acabou distorcendo completamente o texto original do compositor tornando-se uma outra versão da obra. Fizemos então esse Requiem com o Coral Paulistano do Teatro Municipal de São Paulo, que tem sido muito bem trabalhado pela Mara Campos, e foi um concerto muito bonito e muito importante. Foi também, de todos os dez concertos, a peça mais famosa e ao mesmo tempo a mais desconhecida delas. Inúmeros livros de música brasileira citam esse Requiem, mas quase ninguém ouviu essa obra, as pessoas desconhecem completamente. É uma preciosidade que nós temos muito orgulho de ter feito. Depois disso, um outro programa importante foi aquele em que nós gravamos o concerto para piano do Gilberto Mendes, compositor que em 2002 completou 80 anos de idade e cujo concerto para piano é uma obra bastante significativa. Mais adiante gravamos uma ópera, em forma de concerto, de um compositor do Rio Grande do Sul chamado Araújo Vianna, a ópera se chama "Carmela". É uma ópera que, quando foi tocada no começo do século 20, no Rio de Janeiro, esteve em cartaz por mais tempo do que óperas de Carlos Gomes. É uma belíssima ópera e foi restaurada por Ion Bressan que é o regente da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), um jovem regente que conhece tudo de orquestração. Ele fez a restauração e reorquestrou completamente a obra cuja parte de orquestra havia se perdido completamente. É uma jóia de obra, uma ópera curta, em um ato, pequena, dura cerca de 45 a 50 minutos e foi um trabalho que serviu para que as pessoas descobrissem, de repente, um Araújo Vianna, esse compositor que muita gente não conhece. Gravamos também um programa com quase só estréias de quatro compositores relativamente jovens que atuam ou já atuaram por São Paulo. Esse programa tinha peças de Antonio Ribeiro, Arrigo Barnabé, Edson Zampronha e Rodolfo Coelho de Souza. Peças inéditas deles foram gravadas.
A peça do Arrigo é um estudo sinfônico para guitarra elétrica e orquestra.
Essas peças, todas elas muito bem feitas, nos deram um prazer enorme em executá-las. Fora isso, tivemos oportunidade de fazer alguns outros concertos que não foram para a televisão, nessa programação do SESC, e entre eles eu destacaria justamente o concerto em homenagem ao Amaral Vieira. Me deu muito prazer fazer essa homenagem a esse compositor que é um batalhador pela causa dos outros, que nem sempre se ocupa apenas com as suas próprias coisas. Foi bom a gente poder fazer uma homenagem a ele por ocasião das comemorações dos seus 50 anos de idade. O Amaral tem sido uma pessoa que tem apoiado muito o trabalho da Sinfonia Cultura. Ele tem um

programa na Rádio também, e está muito perto da gente, conhecendo bem a estrutura do nosso trabalho. E o que fizemos, não foi só gratidão por tudo o que ele já fez, foi também o reconhecimento do valor do seu trabalho como compositor. E, por fim, o último concerto do SESC,
em dezembro, foi outro concerto

histórico. Foi um concerto importante em que nós mostramos um reencontro de Mignone e Respighi. Infelizmente não tivemos uma quantidade de público muito grande para ver um concerto tão importante e com um conteúdo tão significativo para a nossa música. Mas foi feito e foi um concerto muito bem tocado pela orquestra, o que me deixou muito feliz. Essas foram algumas das principais realizações desse ano. Mas também lá dentro da Fundação nós gravamos vinhetas tanto para televisão quanto para rádio. Para comemorar os 25 anos da Rádio Cultura FM, alguns compositores receberam a encomenda de fazer vinhetas e nós tocamos essas vinhetas e gravamos para a Rádio. Fizemos uma fita de vídeo para a Secretaria de Educação, uma fita de conteúdo pedagógico, mostrando a orquestra e os seus instrumentos. Esse trabalho ficou muito bom e vai ser veiculado na rede de ensino público. Existe uma peça que é tocada o tempo inteiro por todos os instrumentos, individualmente, e depois por toda a orquestra. Essa peça é uma obra composta especificamente para o nosso projeto pelo compositor Ernani Aguiar.
Foi um ano muito positivo para a Sinfonia Cultura. Além de todo esse trabalho com a Sinfonia Cultura eu quero também ressaltar as coisas importantes que eu fiz, principalmente no segundo semestre, com outras orquestras. Em agosto eu regi um concerto com a Orquestra Petrobrás Pró-Música do Rio de Janeiro, um concerto que tinha obras de cinco compositores que vivem no Rio de Janeiro. Segundo o pessoal de lá, foi um dos concertos, com esse tipo de repertório, mais bem sucedidos dos últimos tempos. Eu fiquei realmente muito feliz com o resultado do trabalho e a orquestra correspondeu muito bem. Depois, em setembro eu regi um concerto com a OSPA em Porto Alegre tendo a Segunda Sinfonia de Camargo Guarnieri. No final de outubro e começo de novembro fiz novamente a Segunda Sinfonia do Guarnieri com a OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira) no Rio. E agora em dezembro, dentro do projeto "Memória Musical", da Nery Cultural, eu regi um concerto com a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, no Theatro Municipal, com obras de 3 compositores brasileiros: João Gomes de Araújo, Henrique Oswald e Savino de Benedictis. Foi um concerto que me deu muito prazer em fazer e a orquestra recebeu muito bem esse repertório. Essa é uma orquestra que não tem, normalmente, tocado música brasileira, mas o fez bastante bem. Fiquei muito feliz com tudo isso porque assim vamos semeando essa coisa da música brasileira em outras orquestras, em outros centros brasileiros, e todos passam a perceber que a música brasileira é uma música bonita, de boa qualidade. E dessa forma conseguimos divulgar ainda mais o nosso trabalho, o trabalho da música brasileira, porque o que somente a Sinfonia Cultura pode fazer não é tanto, é limitado. As outras orquestras também podem e devem contribuir na divulgação da música do Brasil.

 

Você gostaria de deixar algum recado para os leitores?

Sim. Que as pessoas busquem ouvir mais a música brasileira para perceber que ela existe, que tem conteúdo, que tem valor, para que possam ter uma outra postura
em relação a ela.

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