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Entrevista com Osvaldo Ferreira
Março/2004

Sob regência do competente Osvaldo Ferreira, a Orquestra Sinfônica da XXII Oficina de Música de Curitiba interpretou brilhantemente duas obras do compositor russo Piotr Tchaikovsky (1840-1893), a "Sinfonia nº 5", somente com a orquestra, e um extrato da ópera "Eugene Oneguim", com a participação do Coro da Oficina, formado por 50 integrantes, orientados pelo maestro Samuel Kerr. O Coro teve cinco dias para preparar a Valsa do II Ato da ópera de Tchaikovsky – uma opção do maestro Osvaldo Ferreira acolhida com entusiasmo por Samuel Kerr. Osvaldo Ferreira, que pelo

terceiro ano consecutivo participa do festival curitibano, é de Portugal, diretor artístico do Festival Internacional de Música de Santa Maria da Feira e Diretor Musical da Orquestra de Jovens da mesma cidade. Depois de freqüentar as melhores academias de regência musical, em Londres, Chicago, S. Petersburgo e Berlim, e receber prêmios em concursos internacionais, Osvaldo Ferreira passou a assistente de Claudio Abbado na Orquestra Filarmônica de Berlim. Como maestro convidado, vai dirigir na próxima temporada uma série de concertos na Rússia, Itália, Romênia, Estados Unidos e Brasil. Em Portugal irá liderar a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a Orquestra Nacional do Porto e a Orquestra Gulbenkian.


Como foi o início de sua carreira em Portugal?

Iniciei a minha carreira em Portugal como violinista e músico de câmara. Fui primeiro violino da Orquestra Nacional do Porto com 19 anos. Fiz também recitais e muita música de câmara. Rapidamente descobri que era ainda muito cedo para deixar de estudar e evoluir técnica e musicalmente. Passei então, por várias escolas e países, Londres, Chicago, S. Petersburgo e finalmente Berlim. Em Chicago iniciei o meu mestrado em regência e nessa mesma cidade iniciei a carreira como diretor com a North Shore Chamber Orchestra, daí eu não poder afirmar que iniciei a minha carreira em Portugal no domínio da direção de orquestra. Devo entretanto admitir (como acontece em todos os lugares e Portugal não é exceção) que após os primeiros sucessos fora de Portugal fui logo contratado por todas as orquestras, Companhia de Bailado, Operas, etc no meu país.


E como surgiu o convite para trabalhar com Claudio Abbado na Orquestra Filarmônica de Berlim? Como é seu trabalho com este grupo hoje?

A oportunidade de trabalhar com Abbado em Berlim, surgiu através da grande pianista portuguesa Maria João Pires que estabeleceu essa ponte entre nós, por esse fato ficarei sempre muito agradecido. Abbado recebeu-me em Berlim e foi uma experiência muito positiva como qualquer pessoa pode calcular e que durou até ao momento em que o maestro se reformou. Mantenho contato com os elementos da

orquestra e temos trabalhado em conjunto. Recentemente Stefan Dohr foi solista em concertos por mim regidos e alguns dos músicos da Philharmonie são professores e atuam com regularidade no "meu" festival em Portugal.


Você veio ao Brasil passar seus conhecimentos aos alunos do curso de Regência Orquestral pelo terceiro ano consecutivo. Como você vê esse trabalho desenvolvido pela Oficina de Música de Curitiba?

Falar da minha experiência enquanto professor de regência na Oficina de Música é algo que me dá um prazer e um carinho especial. A minha 1ª oficina

em 2002, foi igualmente a minha 1ª experiência pedagógica e eu recordo o fato de pensar que para ter sucesso só teria que usar a "fórmula" do meu mestre em S. Petersburgo - Ilya Mussin - e que o resto iria dar certo. Lógico que não vou falar agora de Ilya Mussin, pois seria necessário outra entrevista, ele foi o professor de quase todos os grandes regentes da atualidade, Naeme Jarvi, Mariss Ianssons,

Valeri Gergiev, Yuri Temirkanov, Symon Bishkov, etc, etc. Adoro esse trabalho com os jovens regentes Brasileiros, existe muito talento desse lado do Atlântico, mas seria desejável que esse trabalho pudesse ser complementado ao longo do ano, uma vez por temporada é muito pouco para se desenvolver um trabalho profundo. Eu espero que o meu objetivo principal esteja a ser conseguido e que é o de motivar fortemente esses jovens e aumentar a auto-confiança "em cima do podium". Se o meu trabalho tem sido bom ou não, deverão ser eles a responder.


Seu último concerto na Oficina de Música de Curitiba foi arrebatador. Você conseguiu extrair um Tchaikovsky sensacional de uma orquestra montada no festival, com apenas dez dias de ensaio. Em outros anos seus concertos também foram muito aclamados pelo público e pela crítica. Qual o segredo para este sucesso? Como fazer um trabalho desenvolvido em tão pouco tempo ter uma sonoridade tão marcante?

Sim, devo concordar que foi um concerto extraordinário, aliás, como aconteceu com a Sagração da Primavera no ano que passou, ou ainda com a 4ª sinfonia de Mahler em 2002. Daria muito jeito para mim ficar com o crédito todo desse trabalho e aproveitar para dizer que tenho uma formula mágica mas a realidade é que devemos ser honestos perante a música e perante a vida em geral, por isso vamos colocar as coisas no devido lugar. Em 1º lugar, existem no Brasil, músicos e professores de "primeiríssimo" nível mundial e existe muito talento em muitos dos jovens músicos que participam da Oficina, depois temos que pensar que esse é um momento especial, em que todos dão o seu melhor,

existe uma atmosfera e um espí­rito de entreajuda diferente. Muitos dos jovens com quem trabalhei na oficina têm já um bom treinamento orquestral, em geral o único aspecto negativo é o disciplinar. Quero dizer com disciplinar, terem um cuidado mais rigoroso com os horários a cumprir, planificação etc, e na orquestra serem mais rigorosos com tudo o que é PORMENOR - ritmo, afinação, etc -

pois o detalhe é que vai fazer a diferença entre o bom e o ótimo. Finalmente, não vou negar que tenho um cuidado muito especial com a sonoridade, sou até quase obcecado com isso. Isso é fundamental para mim pois é isso que marca a diferença, por outras palavras o meu som é a minha personalidade e eu gosto de personalidade forte e vincada, como em tudo na vida, não fico por menos.


Fale sobre o seu trabalho como diretor artístico do Festival Internacional de Música de Santa Maria da Feira como diretor musical da Orquestra de Jovens desta cidade.

Em Portugal desenvolvo bastantes atividades desde o Festival Internacional de Santa Maria da Feira até a Orquestra Sinfônica da Póvoa de Varzim com a qual vou editar ainda este ano o 3º CD com obras de autores contemporâneos. Paralelamente, tenho a responsabilidade de preparar os concertos da Orquestra Sinfônica da Escola Superior de Artes de Castelo Branco, local onde lecionarei os mestrados e doutorados em regência dentro de 2 anos e onde iniciarei um estudio de ópera no próximo ano. Falar de todos estes projetos agora, seria moroso mas talvez fosse interessante para os leitores Brasileiros que no futuro fosse feito por esta revista um artigo sobre a música em Portugal e sobre as oportunidades para os músicos brasileiros apresentarem projetos. Eu em Portugal e o Alex Klein no Brasil, temos feito um esforço enorme para aproximar os dois países através de intercâmbio de alunos, professores, compositores, etc, não só ao ní­vel da nossa responsabilidade enquanto diretores de festivais mas também ao ní­vel pessoal. Teria que haver mais apoio institucional, todos ficariam a ganhar com mais intercâmbio entre os dois países.


Como serão seus próximos trabalhos em Portugal? Você atuará em diversos países como convidado. Conte-nos um pouco mais a respeito disso.

As próximas temporadas estão muito carregadas, desde projetos (sobretudo) em Portugal, Itália, USA, Africa do Sul, etc. Terei que gravar este ano 2 Cds para a editora Numerica, tenho 4 obras para fazer em estréia mundial. Concertos com Alex Klein, Roger Muraro, Stefan Dohr, Daniel

Rowland, Reinhold Friedrich, Ivan Monighetti, Vladimir Viardo, Pedro Carneiro, entre outros.


E o Brasil, quando terá oportunidade de assistí-lo?

Tenho várias propostas do Brasil para este ano, só dois projetos estão ainda acertados em definitivo (um na area pedagógica), mas prefiro que sejam as próprias entidades a divulgar.




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