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Entrevista com Sávio Santoro
Junho/2004

Carioca nascido em 1975, iniciou seus estudos musicais aos 5 anos de idade com seu pai, o contrabaixista Sandrino Santoro. No Brasil, recebeu orientação dos professores Eduardo Pereira, Paulo Bosisio e Frederick Stephany. Aos 18 anos, obteve o 1º lugar no V Concurso Nacional de Cordas de Juiz de Fora (MG) e torna-se violista da Orquestra Sinfônica Nacional. É Bacharel em Viola pela Escola de Música da UFRJ com dignidade máxima “Summa Cum Laude.” Já se apresentou como recitalista e concertista nas cidades do Rio de Janeiro, Niterói, Teresópolis, Brasília, Recife, New Haven (EUA), Boston, entre outras. Como solista, já se apresentou

à frente da Orquestra Sinfônica Nacional, Orquestra de Câmara Jovem do Brasil e Orquestra de Câmara de Pernambuco. Como camarista, é integrante do Quarteto Continental e Quarteto Santoro (cordas). Por unanimidade, recebeu da Academia Brasileira de Letras o prêmio “Personalidade Cultural do Ano de 1995.” Em 1997 e 1998, integrou-se a Jeunesses Musicales World Orchestra, apresentando-se na Suíça, Alemanha, Holanda e Israel, sob direção dos maestros Kurt Masur, Yuri Temirkanov, Sir Neville Mariner, entre outros. Ganhador de uma bolsa de estudos completa da CAPES/MEC, Savio conquistou o título de Mestre em Viola pela Yale University (EUA) em 2000, sob orientação do Prof. Jesse Levine. Novamente premiado como bolsista da CAPES/MEC, atualmente cursa o Doutorado em Viola na Boston University, com orientação da Profa. Michelle LaCourse. Já se apresentou em master classes de renomados violistas e conjuntos internacionais, como Karen Tuttle, Kim Kashkashian, Carol Rodland, Tokyo String Quartet, Nevky Quartet, Muir String Quartet, etc. Recentemente, conquistou o primeiro prêmio na “Showpiece String Competition,” promovida pela Boston University. É professor de viola do Conservatório Brasileiro de Música e já ministrou master classes no Conservatório Pernambucano de Música (Recife) e no Conservatório Carlos Gomes da Universidade Estadual do Pará (Belém).

Você começou a estudar com seu pai, o contrabaixista Sandrino Santoro. Como se deu sua opção pela viola?

Meu pai foi a pessoa que realmente me introduziu ao mundo da música. Antes mesmo de saber ler e escrever, ele já me ensinava as notas e os ritmos musicais. Fazíamos solfejos e leitura métrica juntos. Aos 5 anos, mesmo sendo contrabaixista, ele me passou algumas noções de flauta doce, na qual eu já passava a articular algumas pequenas e simples melodias. Meu pai, observando o meu interesse pela música, nos meus 6 anos, contratou uma professora particular de piano. Já com 7 anos, apresentava-me em recitais de alunos. Mesmo tendo me decidido pela viola posteriormente, nunca abandonei este instrumento, mantendo a sua prática diária até hoje.
Apesar do meu entusiasmo pelo piano, eu gostaria muito de aprender um instrumento de cordas. Sempre adorava ouvir meu pai e meus irmãos violoncelistas Paulo e Ricardo pela casa. Acredito que por volta dos 11 anos, foi quando eu ouvi o som de uma viola pela primeira vez. Foi amor à primeira vista. Para ser mais específico, a bela sonoridade da carda dó (a mais grave) me fez ter a certeza de que era aquele instrumento que eu queria para toda a minha vida. Nunca imaginei que pudesse haver um instrumento com um som tão doce e aveludado. Talvez uma sonoridade um tanto quanto melancólica e que ao mesmo tempo não tinha aquele registro agudo do violino e nem tão grave quanto do cello e do contrabaixo. A minha paixão pela viola foi tanta que nunca queria parar de estudar. Muitas das vezes entrava pela madrugada, mesmo sabendo que teria acordar às 6 da manhã do dia seguinte para ir ao colégio.

Fazer parte da Orquestra Sinfônica Nacional com apenas 18 anos deve ter sido um grande passo na sua carreira. Conte-nos um pouco a respeito disso.

Com 18 anos, muita acontecimentos vieram quase que simultaneamente: entrei no curso de graduação em viola da UFRJ, fui primeiro lugar no Concurso de Cordas de Juiz de Fora e fiquei em segundo lugar no concurso público federal para violista da Orquestra Sinfônica Nacional. Eu era o caçula da Orquestra e passei a sentir uma grande responsabilidade por estar numa

orquestra profissional, mesmo tendo quase nenhuma experiência orquestral e ao mesmo tempo ser funcionário público. A Sinfônica Nacional foi o primeiro grande nome a ser incluso no meu curriculum e me deu uma ótima visão da música sinfônica de vários estilos, além de ter me proporcionado uma excelente prática de orquestra da qual usufruo permanentemente.

A sua experiência no exterior é bastante interessante. Você acha que é fundamental para o musicista estudar fora do Brasil? Por quê?

Acho extremamente importante qualquer músico estudar fora de seu país, mesmo ele já tendo nascido e criado num grande centro musical, como Nova York, Berlim ou Paris. Em primeiro lugar, estudar em outro país significa vivenciar uma outra cultura totalmente diferente da que você convive. Se você vive apenas no seu país, você não tem uma idéia exata do que acontece fora do seu território, mesmo com auxílio da internet, jornais e televisão. Privando-se de estar em contato direto com outra cultura, você fica apenas limitado a “verdade” que é cercada nos quilômetros quadrados em que você se situa. Por que não conhecer, usufruir ou mesmo questionar outras “verdades” que estão longe do nosso alcance? Além do mais, estar no exterior é também uma experiência de vida pessoal. Passando por certas dificuldades como frio, idioma, e a mais difícil que é a saudade, vejo que sempre que volto ao Brasil, passo a encarar certos problemas aqui com muito mais facilidade. Ao mesmo tempo passei a reconhecer e valorizar várias virtudes brasileiras que só há no nosso país. No meu caso, tive a felicidade de ter feito o Mestrado na Yale University e agora ingressar no terceiro ano de Doutorado na Boston University. Em ambas as escolas, os professores de viola são excelentes, com carreiras didática e de solista incríveis. Meus dois mestres nestas instituições foram professores que confiaram e decidiram investir pesado em mim. Devo muito a eles pela minha atual maneira de tocar. Foi sob orientação da minha atual professora que conquistei o primeiro lugar na acirrada “Showpiece String Competition”, promovida pela Boston University. Além disso, desenvolvi extenso trabalho camerístico, sendo orientado durante todo o Mestrado pelo Tokyo String Quartet e atualmente pelo Muir String Quartet, além de ter tocado em várias masterclasses de renomados professores, como a violista KarenTuttle. Paralelamente, tive e tenho aulas sobre a história da música e outros assuntos acadêmicos que ampliaram a minha cabeça e me fizeram ver o quanto a música é extremamente grande e maravilhosa, desde os seus cantos gregorianos da Idade Média aos compositores ainda vivos como Penderecki e Ligetti. Além do mais, estudar em grandes universidades como estas, significa estar em contato com bibliotecas fantásticas onde encontram-se quaisquer livros, partituras e gravações que você imaginar. Devo citar também que morar em Boston me permite assistir a excelentes concertos com freqüência, como os da Boston Symphony Orchestra. É impressionante a quantidade de concertos de altíssimo nível que acontece nesta cidade. Seguramente, assistir a todos esses concertos aumenta o potencial e conhecimento de qualquer músico.
É claro que não poderia deixar de registrar o meu agradecimento a CAPES-MEC por ter me agraciado com bolsas completas para realizar tanto o mestrado quanto o doutorado. Infelizmente, esses cursos são caríssimos e sem o apoio governamental do Brasil seria impossível realizá-los.

Como é seu trabalho no Conservatório Brasileiro de Música ?

Ser professor a nível universitário também era uma das minhas principais ambições. Eu adoro ensinar, passar pra frente tudo que aprendo. Sempre tive o pensamento de que seria um egoísmo da minha parte absorver tanto conhecimento lá fora (e no Brasil também) e guardar tudo pra mim. Acho que isso eu herdei do meu pai, que foi professor de contrabaixo da UFRJ por 25 anos. Um ano após o término do Mestrado na Yale University, fui contratado pelo Conservatório Brasileiro de Música para ser professor do Curso de Graduação em Viola. O Conservatório foi uma ótima experiência para mim, pois foi meu primeiro cargo como professor efetivo de uma escola de música. Infelizmente fiquei pouco tempo, pois um ano depois parti novamente para os EUA para iniciar o doutorado.

Como você descobriu o trabalho da compositora inglesa Rebecca Clarke (1886-1979)?

É uma pena que uma compositora de uma música tão rica, venha ter sido descoberta mundialmente tão recentemente. A Rebecca Clarke tinha paixão por compor, mas infelizmente nas primeiras décadas do século (período em que mais compôs), por ser uma compositora e não um compositor, sua obra foi sempre renegada. Isto a desestimulava e ela praticamente abandonou a composição. Quando violistas puderam redescobrir a sua obra nas últimas duas décadas, a sua família exigia muito dinheiro para

que ela pudesse ser tocada em público e sua partitura da Sonata para viola e piano, por exemplo, custava caríssima. Mais uma vez esta compositora ficou no obscuro. Apenas há pouquíssimos anos, a família abdicou do direito de cobrar pelas performances e temos edições muito mais baratas desta obra. Atualmente, ela já é extremamente divulgada nos Estados Unidos e Europa, com diversas gravações. Esta Sonata é uma obra-prima, uma das peças mais belas que já toquei! É extremamente romântica e incorpora vários elementos de Debussy e Stravinsky. Coloco-a lado a lado em qualidade e expressividade com outras obras famosas para o instrumento, como as Sonatas para viola e piano de Brahms e Hindemith. Ela é hoje peça obrigatória no repertório violístico.

Você veio ao Brasil passar "Férias". Como foram seus concertos aqui?

Como a minha grande paixão é fazer música, acredito que estas estão sendo uma das minhas melhores férias. Sempre que estou no Brasil, apresento-me em duo com a excelente pianista Tamara Ujakova. Neste mês já realizamos dois recitais no Rio de Janeiro. O primeiro foi no dia 4 de maio no Espaço FINEP, em que fizemos a primeira audição da Sonata da Rebecca Clarke no Rio. Tocamos também a Toccata do Prof. Ricardo Tacuchian, a Sonata em Sol menor de Bach e o Après un Rêve, de Fauré.
No dia 14, o Quarteto Santoro, grupo formado por mim, meus irmãos (cellos) e meu pai (contrabaixo), fez um recital na Casa Thomas Jefferson, em Brasília. Neste concerto, mesclamos vários arranjos de música erudita e popular para esta formação sui generis e peças de compositores brasileiros que escreveram especialmente para nós.

No dia 19, eu e a Tamara fizemos o segundo recital no Rio, desta vez no Museu da República. Além de reapresentarmos o Bach e a Rebecca Clarke, tocamos a Brasiliana do compositor catarinense Edino Krieger, e Beau Soir de Debussy. Acredite se quiser, no mesmo dia 19 (à noite), com o Quarteto Santoro fiz um outro recital no Iate Clube do Rio de Janeiro.

Com muita satisfação, esses quatro concertos estavam completamente lotados e a recepção do público foi extremamente calorosa.
É muito bom saber que todo esse esforço de anos de estudo no exterior e no Brasil estejam sendo recompensados pelo entusiasmo das platéias.

Como será o seu trabalho do XVII Festival Internacional de Música do Pará?

É com muito prazer que fui convidado novamente para participar deste Festival em Belém. Este festival acontece todo ano na primeira semana de junho, em que são apresentados vários concertos de música de câmara e sinfônica diariamente. Vários professores são convidados para dar masterclasses. Neste festival estarei participando como violista da Orquestra do Festival, que tocará a grandiosa cantata "Carmina Burana" de Carl Orff e darei dois dias de masterclasses para alunos de violino e viola no Conservatório Carlos Gomes.


Quando teremos a honra de assistí-lo?

Logo após o Festival do Pará retornarei a Boston. Estarei novamente no Brasil em dezembro para as festas de fim de ano. Neste mês farei a Brasiliana (versão original para viola e cordas) com a Orquestra do Conservatório Pernambucano de Música, em Recife. No mais, estou aguardando confirmações de datas para apresentações que farei nas próximas férias de verão americano em vários estados brasileiros no próximo ano.


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