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Sergio Casoy é crítico e pesquisador
de ópera. Tem sido convidado para
o júri de diversos concursos. Recentemente
elaborou uma preciosa pesquisa sobre a ópera
em São Paulo desde 1952 até
hoje. Isto se transformou num livro que
aguarda pubicação.
Foi convidado a traduzir a ópera
"Zaíra", de Souza Queiroz,
encenada no último Festival de Música
Colonial e Música Antiga de Juiz
de Fora.
Neste mês estará apresentando
a série inédita "Alma
de Bandoneon", em 5 programas, todas
as terças, às 21 horas com
reapresentação aos sábados,
às 09 horas.
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Como
começou o seu envolvimento com a música?
Da forma mais prosaica possível, ouvindo
rádio e principalmente os discos 78 r.p.m.
(sabe o que é isso ?) que havia em casa.
Minha mãe comprava discos com certa freqüencia,
e as vozes de Enrico Caruso, Tito Schipa e Beniamino
Gigli fazem parte da minha infância. Aos nove,
dez anos de idade, eu os ouvia regularmente. Adorava
o som daquelas vozes, e não tinha a mínima
idéia do que eles estavam cantando, embora
aquela combinação extremamente sedutora
da linha de canto italiana, de vozes italianas,
com a música de Verdi, Puccini e Donizetti
me emocionasse sem que eu soubesse explicar. Não
distinguia, naquele momento, uma ária de
ópera de uma canzonetta napolitana. Só
sabia que era bom de ouvir, ficava fascinado, como
fico até hoje ao ouvir uma voz excepcional.
O gosto pela música sinfônica e pianistica
veio depois, ao redor dos quinze, dezesseis anos,
com a descoberta de Chopin, seguido rapidamente
dos outros românticos.
Voltando à ópera: Aos 18 anos, percebi,
de repente, que aqueles pedaços soltos, se
unidos faziam sentido. Comecei a entender a ópera
como um teatro que se expressa através do
canto lírico. Aos 20, comecei a comprar discos
de trechos e óperas completas. Tenho 54,
e não parei de fazê-lo até hoje.
Você tem se dedicado à pesquisa operística
e, sobretudo, à preservação
da memória musical brasileira. Fale um
pouco sobre este trabalho e sobre o projeto de
seu livro - ainda não editado - sobre a
ópera em São Paulo.
Em 1954, Paulo de Oliveira Castro Cerquera publicou
um livro importantíssimo cobrindo as temporadas
líricas paulistanas desde seu início
no século XIX até 1951.
Quando comecei a pesquisar, e a escrever sobre ópera,
me dei conta que ninguém havia posto no papel
um registro sistemático de tudo - e houve
eventos muito importantes - que havia acontecido
de 1952 para frente. Nomes importantes, donos de
grandes vozes, corriam o risco de ter sua memória
completamente apagada dentro de alguns anos, já
que - excetuando-se a gravação do
Guarany de 1959 regida pelo maestro Belardi (c/Niza
Tank, Paulo Fortes, Manrico Patassini) e por um
registro de dois anos atrás da ópera
Jupyra para um selo suiço que misturou cantores
estrangeiros com brasileiros -,nenhum dos nossos
grandes cantores jamais foi convidado para realizar
um disco comercial. As gravações que
existem são piratas, gravadas às escondidas
nos teatros com equipamentos domésticos,
e não fazem jus à sua arte.
Era necessário, portanto, que se registrasse,
ao menos por escrito, a carreira destes verdadeiros
heróis, e mostrar às gerações
futuras como era a vida cultural paulistana durante
a metade final do século XX, com seus altos
e baixos e suas preferências. Assim, retomei
o trabalho do mestre Cerquera, resenhando em detalhes
as fichas técnicas de todas as apresentações
de ópera completa na cidade de São
Paulo, em quaisquer espaços, que vão
desde o Theatro Municipal, o São Pedro e
outras salas que já não mais existem
até casas particulares, clubes, igrejas e
estádios de futebol, no período que
vai de 1952 até 2003. Em separado, detalho
as carreiras paulistanas dos 1231 cantores nacionais
e estrangeiros que aqui se apresentaram no mencionado
período. Além disso, à guisa
de introdução, escrevi uma pequena
história da ópera em SP desde o século
XVIII até nossos dias. O livro traz também
entrevistas feitas com várias personalidades
do mundo da ópera: o maestro Jamil Maluf,
o autor Lauro Machado Coelho, o empresário
Roberto Gagliotti, o soprano Niza de Castro Tank,
o crítico João Câncio Póvoa
e o ex-diretor do TMSP, VIcente Amato.
O
Brasil é um país que produz excelentes
cantores, mas não dá espaço
aos mesmos. Temos hoje vozes brasileiras maravilhosas
que são pouco conhecidas aqui, mas muito
conceituadas no exterior. Como você vê
essa pouca valorização da música
erudita no Brasil? Há algum fator específico
para que isto ocorra?
Falta mercado de trabalho. A quantidade de óperas
montadas por ano é pequena em relação
à oferta de vozes, e poucos cantores de nome
comprovado acabam esgotando o mercado. Ópera
é um espetáculo caro no mundo inteiro,
e no mundo todo dá prejuízo. Só
existe uma maneira de valorizarmos os nossos artistas
de canto, principalmente os novos. È com
a ajuda - pelo menos parcial - sistemática
do governo. Mas não adianta financiar um
espetáculo custoso para abandoná-lo
depois de cinco ou seis récitas. É
necessário que se crie teatros de repertório.
Nesse sistema, uma produção - cenários,
figurinos, etc. - é utilizada por anos a
fio, permitindo que seus custos se amortizem no
tempo e que vários artistas se alternem nos
papéis ao longo dos anos. Uma produção
do Metropolitan Opera House de New York dura, em
média 25 anos. Se esse método for
utilizado por exemplo em São Paulo, com produções
que sejam eficientes sem ser luxuosas, em poucos
anos um determinado teatro, suportado pelo estado,
poderá ter um repertório de dez a
quinze óperas, e cobrar ingressos entre 25
e 30 reais, abrindo espaço para os nossos
cantores iniciantes. Nossos novos valores terão
lugar para trabalhar, e seu reconhecimento dependerá
deles próprios, de seu esforço. Retoma-se
a antiga tradição dos anos 40 das
temporadas nacionais, forma-se público.
Veja: isto não impede que as temporadas internacionais,
com produções e cantores importados
continue existindo. É só olhar o exemplo
das orquestras sinfônicas de São Paulo.
A OSESP, a OSM (sem mencionar as outras) tem tido
casas tão cheias pela excelência de
seu repertório quanto as orquestras européias
e americanas que visitam a cidade. Com a ópera,
pode ser feita a mesma coisa. O Theatro Municipal
de são Paulo deu alguns passos, embora tímidos,
nesse sentido. João e Maria, de Humperdinck,
cujos cenários são da casa, vai ser
retomada pela terceira vez, provavelmente com preços
de ingressos menores que os da estréia.
Você
traduziu para o português a ópera
"Zaíra", de Souza Queiroz, restaurada
por Rogério Budasz e produzida pelo Festival
de Musica Antiga e Música Colonial de Juiz
de Fora. Qual a importância do resgate e
execução de obras que, como essa,
estão "perdidas"?
Participar, mesmo indiretamente, de uma realização
como esta é algo fabuloso. Em qualquer outro
país, estaria havendo, neste momento, uma
enorme disputa para gravar e comercializar este
verdadeiro achado, que resgata a música que
se ouvia na corte portuguêsa, num período
de transição entre o classicismo e
o romantismo. A Zaira é contemporânea
das primeiras óperas de Johann Simon Mayr,
o professor de Gaetano Donizetti, é da mesma
época de Gaspare Spontini e apenas alguns
anos mais velha do que as primeiras composições
de Rossini. Além da evidente importância
para a História do Brasil - e da História
da música no Brasil-, a recuperação
desse trabalho é como encontrar um dos elos
perdidos na corrente da compreensão de como
a música lírica traçou seu
caminho evolutivo. Os produtores, diretores e cantores
que tem a felicidade de participar dessa exumação
- e há uma quantidade enorme de dificuldades,
que vão desde a verba até as peculiaridades
da encenação - deveriam merecer as
páginas centrais das principais revistas
de música lirica e erudita do mundo.
Você
estará fazendo neste mês o programa
"ALMA DE BANDONEÓN", na rádio
Cultura de São Paulo. Como será
este programa?
Estou ligado à Rádio Cultura há
quatorze anos, sempre fazendo programas sobre ópera.
Esta será minha primeira experiência
fora da área. O bandoneón é
um instrumento que me fascina pela sua habilidade
de traduzir musicalmente a melancolia e a tristeza
urbanas. Nasceu na Alemanha, mas a Argentina - na
verdade Buenos Aires - o adotou como o meio perfeito
para a expressão da música que é
sua alma, o tango. Mas hoje, na era pós-Piazzolla,
o bandoneón deixou de ser encarado apenas
como um exótico instrumento sul-americano
e passou a ser aceito e a participar da música
do mundo. Nossa série de cinco programas
mostra a evolução do instrumento e
de sua utilização, Vamos do tango
à música erudita, passamos pela música
sinfônica de Piazzolla e terminamos com música
incidental e trilha sonora de filmes, com gravações
que vão desde 1910 até 2002.
Você
gostaria de deixar algum recado para os leitores
do Guia?
Não tenham medo de gostar de ópera.
É uma experiência fascinante, essa
de juntar teatro, orquestra sinfônica e vozes
num mesmo caldeirão fervente de emoções.
E não se esqueçam: por mais que os
discos sejam bem realizados, nada substitui a intensidade
apaixonada de uma récita no teatro, memso
com todos os defeitos que uma apresentação
ao vivo possa apresentar. Hoje, quando dispomos
da facilidade da tradução projetada
no alto do palco, o idioma deixou de ser empecilho.
Venham aplaudir nossos artistas.
Obrigado!
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