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Entrevista com Sérgio Casoy
Agosto/2004

Sergio Casoy é crítico e pesquisador de ópera. Tem sido convidado para o júri de diversos concursos. Recentemente elaborou uma preciosa pesquisa sobre a ópera em São Paulo desde 1952 até hoje. Isto se transformou num livro que aguarda pubicação.
Foi convidado a traduzir a ópera "Zaíra", de Souza Queiroz, encenada no último Festival de Música Colonial e Música Antiga de Juiz de Fora.
Neste mês estará apresentando a série inédita "Alma de Bandoneon", em 5 programas, todas as terças, às 21 horas com reapresentação aos sábados, às 09 horas.

Como começou o seu envolvimento com a música?

Da forma mais prosaica possível, ouvindo rádio e principalmente os discos 78 r.p.m. (sabe o que é isso ?) que havia em casa. Minha mãe comprava discos com certa freqüencia, e as vozes de Enrico Caruso, Tito Schipa e Beniamino Gigli fazem parte da minha infância. Aos nove, dez anos de idade, eu os ouvia regularmente. Adorava o som daquelas vozes, e não tinha a mínima idéia do que eles estavam cantando, embora aquela combinação extremamente sedutora da linha de canto italiana, de vozes italianas, com a música de Verdi, Puccini e Donizetti me emocionasse sem que eu soubesse explicar. Não distinguia, naquele momento, uma ária de ópera de uma canzonetta napolitana. Só sabia que era bom de ouvir, ficava fascinado, como fico até hoje ao ouvir uma voz excepcional.
O gosto pela música sinfônica e pianistica veio depois, ao redor dos quinze, dezesseis anos, com a descoberta de Chopin, seguido rapidamente dos outros românticos.
Voltando à ópera: Aos 18 anos, percebi, de repente, que aqueles pedaços soltos, se unidos faziam sentido. Comecei a entender a ópera como um teatro que se expressa através do canto lírico. Aos 20, comecei a comprar discos de trechos e óperas completas. Tenho 54, e não parei de fazê-lo até hoje.


Você tem se dedicado à pesquisa operística e, sobretudo, à preservação da memória musical brasileira. Fale um pouco sobre este trabalho e sobre o projeto de seu livro - ainda não editado - sobre a ópera em São Paulo.

Em 1954, Paulo de Oliveira Castro Cerquera publicou um livro importantíssimo cobrindo as temporadas líricas paulistanas desde seu início no século XIX até 1951.
Quando comecei a pesquisar, e a escrever sobre ópera, me dei conta que ninguém havia posto no papel um registro sistemático de tudo - e houve eventos muito importantes - que havia acontecido de 1952 para frente. Nomes importantes, donos de grandes vozes, corriam o risco de ter sua memória completamente apagada dentro de alguns anos, já que - excetuando-se a gravação do Guarany de 1959 regida pelo maestro Belardi (c/Niza Tank, Paulo Fortes, Manrico Patassini) e por um registro de dois anos atrás da ópera Jupyra para um selo suiço que misturou cantores estrangeiros com brasileiros -,nenhum dos nossos grandes cantores jamais foi convidado para realizar um disco comercial. As gravações que existem são piratas, gravadas às escondidas nos teatros com equipamentos domésticos, e não fazem jus à sua arte.
Era necessário, portanto, que se registrasse, ao menos por escrito, a carreira destes verdadeiros heróis, e mostrar às gerações futuras como era a vida cultural paulistana durante a metade final do século XX, com seus altos e baixos e suas preferências. Assim, retomei o trabalho do mestre Cerquera, resenhando em detalhes as fichas técnicas de todas as apresentações de ópera completa na cidade de São Paulo, em quaisquer espaços, que vão desde o Theatro Municipal, o São Pedro e outras salas que já não mais existem até casas particulares, clubes, igrejas e estádios de futebol, no período que vai de 1952 até 2003. Em separado, detalho as carreiras paulistanas dos 1231 cantores nacionais e estrangeiros que aqui se apresentaram no mencionado período. Além disso, à guisa de introdução, escrevi uma pequena história da ópera em SP desde o século XVIII até nossos dias. O livro traz também entrevistas feitas com várias personalidades do mundo da ópera: o maestro Jamil Maluf, o autor Lauro Machado Coelho, o empresário Roberto Gagliotti, o soprano Niza de Castro Tank, o crítico João Câncio Póvoa e o ex-diretor do TMSP, VIcente Amato.

O Brasil é um país que produz excelentes cantores, mas não dá espaço aos mesmos. Temos hoje vozes brasileiras maravilhosas que são pouco conhecidas aqui, mas muito conceituadas no exterior. Como você vê essa pouca valorização da música erudita no Brasil? Há algum fator específico para que isto ocorra?

Falta mercado de trabalho. A quantidade de óperas montadas por ano é pequena em relação à oferta de vozes, e poucos cantores de nome comprovado acabam esgotando o mercado. Ópera é um espetáculo caro no mundo inteiro, e no mundo todo dá prejuízo. Só existe uma maneira de valorizarmos os nossos artistas de canto, principalmente os novos. È com a ajuda - pelo menos parcial - sistemática do governo. Mas não adianta financiar um espetáculo custoso para abandoná-lo depois de cinco ou seis récitas. É necessário que se crie teatros de repertório. Nesse sistema, uma produção - cenários, figurinos, etc. - é utilizada por anos a fio, permitindo que seus custos se amortizem no tempo e que vários artistas se alternem nos papéis ao longo dos anos. Uma produção do Metropolitan Opera House de New York dura, em média 25 anos. Se esse método for utilizado por exemplo em São Paulo, com produções que sejam eficientes sem ser luxuosas, em poucos anos um determinado teatro, suportado pelo estado, poderá ter um repertório de dez a quinze óperas, e cobrar ingressos entre 25 e 30 reais, abrindo espaço para os nossos cantores iniciantes. Nossos novos valores terão lugar para trabalhar, e seu reconhecimento dependerá deles próprios, de seu esforço. Retoma-se a antiga tradição dos anos 40 das temporadas nacionais, forma-se público.
Veja: isto não impede que as temporadas internacionais, com produções e cantores importados continue existindo. É só olhar o exemplo das orquestras sinfônicas de São Paulo. A OSESP, a OSM (sem mencionar as outras) tem tido casas tão cheias pela excelência de seu repertório quanto as orquestras européias e americanas que visitam a cidade. Com a ópera, pode ser feita a mesma coisa. O Theatro Municipal de são Paulo deu alguns passos, embora tímidos, nesse sentido. João e Maria, de Humperdinck, cujos cenários são da casa, vai ser retomada pela terceira vez, provavelmente com preços de ingressos menores que os da estréia.

Você traduziu para o português a ópera "Zaíra", de Souza Queiroz, restaurada por Rogério Budasz e produzida pelo Festival de Musica Antiga e Música Colonial de Juiz de Fora. Qual a importância do resgate e execução de obras que, como essa, estão "perdidas"?

Participar, mesmo indiretamente, de uma realização como esta é algo fabuloso. Em qualquer outro país, estaria havendo, neste momento, uma enorme disputa para gravar e comercializar este verdadeiro achado, que resgata a música que se ouvia na corte portuguêsa, num período de transição entre o classicismo e o romantismo. A Zaira é contemporânea das primeiras óperas de Johann Simon Mayr, o professor de Gaetano Donizetti, é da mesma época de Gaspare Spontini e apenas alguns anos mais velha do que as primeiras composições de Rossini. Além da evidente importância para a História do Brasil - e da História da música no Brasil-, a recuperação desse trabalho é como encontrar um dos elos perdidos na corrente da compreensão de como a música lírica traçou seu caminho evolutivo. Os produtores, diretores e cantores que tem a felicidade de participar dessa exumação - e há uma quantidade enorme de dificuldades, que vão desde a verba até as peculiaridades da encenação - deveriam merecer as páginas centrais das principais revistas de música lirica e erudita do mundo.

Você estará fazendo neste mês o programa "ALMA DE BANDONEÓN", na rádio Cultura de São Paulo. Como será este programa?

Estou ligado à Rádio Cultura há quatorze anos, sempre fazendo programas sobre ópera. Esta será minha primeira experiência fora da área. O bandoneón é um instrumento que me fascina pela sua habilidade de traduzir musicalmente a melancolia e a tristeza urbanas. Nasceu na Alemanha, mas a Argentina - na verdade Buenos Aires - o adotou como o meio perfeito para a expressão da música que é sua alma, o tango. Mas hoje, na era pós-Piazzolla, o bandoneón deixou de ser encarado apenas como um exótico instrumento sul-americano e passou a ser aceito e a participar da música do mundo. Nossa série de cinco programas mostra a evolução do instrumento e de sua utilização, Vamos do tango à música erudita, passamos pela música sinfônica de Piazzolla e terminamos com música incidental e trilha sonora de filmes, com gravações que vão desde 1910 até 2002.

Você gostaria de deixar algum recado para os leitores do Guia?

Não tenham medo de gostar de ópera. É uma experiência fascinante, essa de juntar teatro, orquestra sinfônica e vozes num mesmo caldeirão fervente de emoções. E não se esqueçam: por mais que os discos sejam bem realizados, nada substitui a intensidade apaixonada de uma récita no teatro, memso com todos os defeitos que uma apresentação ao vivo possa apresentar. Hoje, quando dispomos da facilidade da tradução projetada no alto do palco, o idioma deixou de ser empecilho. Venham aplaudir nossos artistas.
Obrigado!


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