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Entrevista com Sidney Molina
Novembro/2003

Sidney Molina é violonista e professor de violão, Apreciação Musical e Estética Musical.
Um dos membros fundadores do Quarteto de Violões Quaternaglia, que vem obtendo cada vez maior destaque no meio musical por seu trabalho de excelente qualidade. Sidney Molina acaba de escrever o livro Mahler em Schoenberg - Angústia da Influência na Sinfonia de Câmara nº 1. Este livro é baseado em sua tese de mestrado, defendida em 2001, na PUC-SP. O lançamento deste livro será em 03 de novembro, na loja de artes da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Av. Paulista, 2073, a partir das 18:30h. Vale a pena conferir!

A maioria dos instrumentistas escolheu o seu instrumento por uma razão especial. O que o levou a optar por uma carreira de violonista erudito?

Bem, a razão pela qual eu escolhi o violão, na verdade, é bastante convencional, bastante óbvia. Eu, com 7 anos de idade via os guitarristas de rock, meu tio tinha vários discos dos Beatles e Jimi Hendrix, essa música popular mesmo, internacional, e a partir daí eu manifestei o interesse em estudar violão.


Popular ?

Não necessariamente. Eu dizia apenas violão. A visão que eu tinha do instrumento era roqueira. Aí eu tive uma primeira experiência que não foi muito bem sucedida. Meus pais, que não tem formação musical, fizeram por me colocar numa aula de violão popular da escola em que estudava. Só que eu sou canhoto. E a professora em questão não quis que eu aprendesse como canhoto, queria me forçar a aprender como destro. E eu tinha até os referenciais que eu te falei: Jimi Hendrix, canhoto, Paul McCartney, dos Beatles, canhoto, e eu pensei "Por que não?" Se os únicos músicos que eu me identificava na época tocavam como canhotos, por que não eu? Mas a professora teimou, disse que eu estava querendo colocar alguns empecilhos para estudar e os meus pais ficaram um pouco chateados com isso, mas tiveram a feliz idéia de tentar uma segunda opção e aí caíram num lugar muito legal, o Conservatório Musical Paulistano, no Brooklin Paulista, zona sul de São Paulo, dirigido por portugueses, pelo Manoel Fonseca, pessoas muito bem preparadas e na primeira aula eles disseram "Por que não? Se ele se sente melhor, basta inverter as cordas do instrumento e ele aprender a fazer a mão direita virar esquerda e a esquerda virar direita. E então aí eu comecei a ter uma orientação musical muito boa. Isso é uma coisa que eu agradeço muito, porque com 7 anos eu já comecei a estudar, aprender a ler, técnica, relaxamento. O Manoel Fonseca foi aluno do Isaías Sávio, um grande professor uruguaio, que fundou a cadeira de professor de violão no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Depois eu passei a ter aulas com o Armando Vidigal, também uma pessoa que mexe muito com música popular brasileira, com choro, com linguagem de seresta, mas que também foi aluno do Sávio, tinha uma carreira de concertista. Então eu fui bem orientado desde cedo e eu acho que embora não tivesse a intenção de ser musico profissional, até por volta dos 18 anos de idade, eu tive o privilégio de ter uma boa formação musical desde cedo. Na hora em que eu fiz a minha opção profissional, eu já tinha um preparo, e isso acho que foi uma grande felicidade. Mas não houve uma razão especial na hora da escolha, eu fui me interessando conforme fui estudando.


O violão é um instrumento muito popularizado. Isto dificulta o desenvolvimento de quem escolhe o violão erudito?

Acredito que dificulta realmente. Devido ao fato de o violão ser um instrumento muito popularizado, muito valorizado em geral, ele não é conhecido em todos os

seus recursos. Então, por exemplo, alguns instrumentos como violino, como piano, a visão, a imagem sonora que a pessoa, o senso comum têm, que o público médio tem destes instrumentos é relativamente aproximada ao som do instrumento. No caso do violão, a gente vê o violão muito mal gravado, em geral, a sonoridade que chega aos ouvidos das pessoas menos especializadas, às vezes até de músicos, é uma visão um pouco distorcida do instrumento. E tem várias razões para isso, essa popularização grande, o fato da tradição erudita do violão, apesar de ter mais de 500 anos de história, não estar plenamente estabelecida. O violão tem se desenvolvido muito tecnicamente, o repertório está crescendo muito ainda, quer dizer, nesse sentido ele está ainda numa fase de transição, ainda está caminhando, tendo um desenvolvimento que instrumentos como o piano ou o violino, no século XIX já tinham algumas coisas resolvidas. Ainda se faz experiências no caso do violão com relação à postura, à posição das mãos, à maneira de sentar, e muitas coisas novas e interessantes estão sendo pesquisadas. Então eu acho que temos poucas informações, em geral, e até pouca experiencia sensível da sonoridade do violão, ou de todo o potencial do violão. Por outro lado, o violão também produz um grupo de apaixonados. Nesse sentido é um pouco parecido com o canto lírico. Ele tem um grupo de pessoas que quando descobrem o violão tornam-se fanáticos, acompanham todos os concertos, gravações, etc. Certa vez meu professor disse que eu ganharia muito se, além de estudar aquelas lições simples, ouvisse alguma coisa de violão clássico, para prestar atenção na sonoridade e ele gravou uma fita cassete com o segundo disco do Duo Abreu, do Sérgio e Eduardo Abreu, que para mim foi uma experiência muito forte no sentido até de eu direcionar a minha busca de sabor sonoro ao longo da vida, através do violão. Eu nunca tinha ouvido violão tocado daquela maneira. Muitos anos depois eu fui conhecer o Sérgio Abreu e hoje eu toco com um instrumento feito por ele. Mas foi uma experiência adolescente ainda, no início da minha fase de estudos que eu acho que me motivou muito. Quando eu penso no som do meu instrumento eu lembro do som dos irmãos Abreu tocando. Então eu acho que todo mundo busca um pouco isso. Essa imagem sonora, ou da voz, ou do seu instrumento está ligada a alguém, em especial. E eu acho que é isso que falta, porque nós não temos, apesar do violão ser extremamente divulgado, o referencial que passa da sonoridade do violão para as pessoas, é uma coisa muito pobre ainda, muito pequeno.

Existe ainda um agravante, que é a fama de o violão ser um instrumento "fácil" de aprender. Encontramos nas bancas de jornais revistas que ensinam as posições e as músicas e as pessoas saem "tocando".

Isso é uma outra coisa que o professor de violão sempre enfrenta, porque quando alguém vai estudar piano ou violino, a pessoa faz uma imagem: "Bom, vou estudar, sei que é uma coisa que não é fácil, demora muitos anos". A pessoa tem essa imagem mesmo não tendo tido nenhuma experiência anterior de música. No caso do violão não. No caso do violão precisamos interagir muito com o aluno, com o iniciante, no sentido de cultivar essa relação artesanal com o instrumento, essa relação que envolve disciplina, um trabalho diário, um querer se ouvir cada vez mais, e isso às vezes a gente demora mais tempo para conquistar a confiança do aluno para um trabalho mais disciplinado do que em outros instrumentos. Mas aí depende da habilidade do professor de violão. Ele tem que estar preparado para lidar com isso, e não barganhar também além de um certo ponto, quer dizer, realmente procurar abrir portas para quem está lá, abrir possibilidades de expressão musical e não simplesmente, como muitas escolas fazem, alugar uma sala para passar tempo, buscando um mero entretenimento, que acaba nem sendo um real entretenimento, acaba sendo uma coisa que a pessoa vai fazer por alguns meses e se isso não for bem feito pode até prejudicar um interesse posterior que ela venha a ter em música.

Como vem se desenvolvendo a sua carreira, no Brasil e no Exterior?

A minha carreira de violonista vem se desenvolvendo nos últimos 10 anos, basicamente junto com o Quaternaglia, o quarteto de violões que eu fundei. Eu tenho um interesse que vem desde o início da minha formação pela música de câmara, tive professores que

estimularam muito isso, gosto de fazer isso também com os meus alunos e, apesar de ter tido uma atuação mais local como solista, foi a partir da criação do Quaternaglia que essa carreira se configurou como uma carreira real, imersa num mundo de concertos, de programação, de espetáculos musicais. Então, basicamente nestes dez anos, eu acho que nós trabalhamos bastante. Foram três discos gravados, com repertórios muito diferenciados. O primeiro com música do século XX, com a gravação integral da obra de Leo Brower, compositor cubano. O segundo de música Antiga, com composições de músicas renascentistas até o final do classicismo. E o terceiro só de música brasileira composta para nós, de compositores quase todos ainda vivos. Algumas premiações importantes: o Premio Carlos Gomes da Secretaria de Estado da Cultura, de melhor grupo de Câmara, em 1997; o Ensemble Prize, no Concurso Internacional de violão de Havana, em 1998, que é um dos pouquíssimos ou o único grande concurso internacional de violão que tem uma premiação específica para grupos de câmara, duos trios e quartetos de violões formando uma categoria, então há um prêmio aí e um prêmio para solista. E esse ano nós ganhamos, até foi um fato inédito ganhar um quarteto, porque formações como duo, mesmo trio de violões têm um histórico de repertório muito maior, são muito mais tradicionais do que quartetos. Tanto que, na final do concurso, nós competimos com outros três duos, um da Alemanha, um do Japão e outro da Costa Rica e éramos o único quarteto. Esse foi um prêmio bastante importante. Temos uma atuação intensa no cenário da música erudita brasileira, tocamos nas principais capitais do Brasil, São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Brasília, Belém, Cuiabá. Tocamos muito também pelo interior do estado de São Paulo, aliás, o primeiro projeto que nós desenvolvemos, logo no início do quarteto, foi de uma pequena turnê pelo interior de São Paulo, e isso nos deu uma experiência muito grande com relação a essa atividade de concertista, de estar preparado, viagens, de lidar com o que está em torno, como estar preparando o repertório e viajando, e montando uma estrutura de organização para lidar de uma maneira saudável com esse tipo de situação. E desde 1996 temos ido ao exterior, principalmente a América Latina e Estados Unidos. Nosso primeiro concerto internacional foi já uma prova de fogo no Teatro Solis, em Montevideo, no Festival Internacional de Violão "Abel Carlevaro", e ao lado de alguns dos nossos ídolos, como Eduardo Fernandes, o próprio Abel Carlevaro, Carlos Barbosa Lima, que apesar de brasileiro acabamos conhecendo no exterior, o próprio Leo Brower, enfim, foi uma grande prova. E também Buenos Aires, Caracas, e já fizemos 4 turnês pelos Estados Unidos, já tocamos de Nova Iorque a Los Angeles, passando pelo meio do caminho e em algumas séries interessantes, porque no caso da carreira internacional, o trabalho do Quaternaglia permite tanto a atuação em séries específicas de violão, que existem muitas lá fora, como em séries normais de música de câmara. Nós gostamos muito de atuar não apenas para o público violonista, mas também para o público de música de câmara. Séries para as quais são convidados quartetos de cordas, de todos os lugares do mundo, ou duos, ou trios, com piano, etc, que nós estamos sendo programados. Então isso é bastante interessante para nós, até como uma prova de que há uma viabilidade nessa construção de repertório que temos feito com o Quaternaglia. Nesse sentido, somos parte de um processo que está tornando essa formação de quatro violões uma formação mais tradicional. Quer dizer, acho que estamos ajudando neste processo de criar o próprio repertório para a formação de quatro violões. Então, parte do repertório que está surgindo para nós está sendo gravado por outros quartetos, e isso acho que é uma coisa bem legal. O Quaternaglia já fez participações com a OSB, também teve a estréia de um concerto feito para o Quaternaglia pelo compositor goiano Estércio Marques Cunha, realizado pela Sinfônica Municipal de Santos e depois pela RTC, enfim, concertos no Teatro São Pedro, com a orquestra Villa-Lobos, numa transcrição do concerto para quatro cravos e orquestra de cordas de Bach, baseado em Vivaldi, para quatro violões, com transcrição do Fábio Ramazina. E agora, estamos prestes a estrear o concerto do Leo Brower para quatro violões, fazendo a estréia no hemisfério sul, porque este concerto foi tocado só na Itália.


Como surgiu o Quarteto Quaternaglia?

Bom, o Quaternaglia surgiu em 1992, quando quatro alunos do professor Edelton Gloeden, da USP, por sugestão do Eduardo Fleury (que hoje não faz mais parte do Quaternaglia) foram fazer um ensaio de quarteto. Ele tinha algumas partituras que ele tinha trabalhado com quarteto na sua fase de graduação, e todos nós já tínhamos uma atividade como solistas, como cameristas. Na época eu estava tocando com um flautista,

o Breno estava tendo uma carreira solo, tinha feito um recital no MASP, enfim, todos já eram pessoas atuantes, não foi um grupo que surgiu de uma fase de formação, todos já tinham uma formação bem delineada, estavam fazendo uma especialização com o Edelton. Eu tive muitas dúvidas, para falar a verdade, em apostar nessa idéia num primeiro momento. São muitos violões juntos. Eu já tinha tocado em duo, com trio eu já estava achando que tinha muitas cordas, e quarteto de violões parecia um pouquinho demais. Mas eu tive uma uma situação que me fez experimentar. Eu tinha acabado de conseguir o meu primeiro violão feito pelo Sérgio Abreu. Um violão feito mesmo para mim, um instrumento canhoto, feito com inversão de toda a estrutura interna, porque eu adaptava os instrumentos antes disso. E eu queria tocar com aquele instrumento, ver como eu iria me sentir. Fizemos um primeiro ensaio, não fomos muito incentivados por ninguém à nossa volta porque todo mundo dizia que o repertório era muito pequeno - e não estavam totalmente errados naquele momento. Houve uma grande afinidade entre as pessoas e isso serviu como motivação para que nos encontrássemos como um grupo de amigos, sem nenhuma pretensão. Mas as coisas caminharam rapidamente. Nós tivemos uma primeira experiência num recital comemorativo à ECO92, feito pela PUC - foi a nossa estréia. E sentimos muita receptividade do público, com a formação, com o repertório e com o nosso jeito de tocar, e uma coisa foi puxando a outra.
Na verdade o Quaternaglia surgiu sem nenhuma pretensão de fazer uma carreira, pois não pensávamos que isso pudesse acontecer. Uma dica para os jovens estudantes de música: a arte tem uma certa generosidade, o espaço não é fechado, não é fixo, e as formas de se atuar nesse espaço também não são, então tudo pode acontecer com as pessoas, mas é preciso trabalhar sério. Eu me lembro que nas vésperas da primeira gravação nós tínhamos ensaios diários, de 6, 7 horas, durante alguns meses. Essa experiência e a de muitos recitais - o Quaternaglia deve ter feito já mais de 200 ou 300 recitais - traz uma busca por um bom resultado. Acreditamos que a música de câmara tem um grau de seriedade idêntico ao dos solos. Uma das coisas que até são comentadas com destaque sobre o Quaternaglia é o fato de nós tocarmos "de cor", pois em música de câmara, mesmo grandes quartetos de cordas tocam lendo. Pensamos da seguinte forma: se um pianista, num recital solo, toca tudo "de cor", com repertório longo, por que não na música de câmara? A resposta é simples: isso não é sinônimo de qualidade, pois tocar "de cor" não garante nada, mas o fato é que as pessoas dão menos atenção para a música de câmara. Há trabalhos em que os músicos fazem apenas dois ou três ensaios - se são bons músicos até saem trabalhos interessantes, mas não é a nossa concepção de música de câmara. A nossa concepção é a de um trabalho em grupo real, onde o grupo soe como um grande instrumento. Isso não se faz, nem se juntarmos quatro grandes solistas, da noite para o dia. Isso é tempo de trabalho conjunto. A sonoridade do grupo não é o som de nenhum dos quatro, embora cada um tenha sua individualidade, é o som do Quaternaglia, acho que é isso o que passa muito nas nossas apresentações.


Vocês conseguiram um destaque bastante considerável no exterior. Ironicamente, o último CD do quarteto, que traz obras de compositores brasileiros dedicadas ao Quaternaglia, teve mais destaque fora do Brasil do que aqui dentro. Como você vê o apoio das entidades culturais brasileiras a este tipo de trabalho?

O último CD do Quaternaglia - Forrobodó - foi lançado com produção do Egberto Gismonti para o selo ECM, um selo que é um sinal de qualidade, são poucos artistas que gravam por esse selo, tanto de música erudita quanto de música popular internacional instrumental. Quase todo o repertório desse disco foi composto para o Quaternaglia, e já há mais de 15 gravações de outros quartetos de violões europeus e americanos de algumas das peças dedicadas a nós, que estão nesse disco. Então, além desse disco ter sido a nossa primeira gravação para um selo internacional, ele colocou o Quaternaglia na vanguarda do repertório de quarteto de violões. Esse tipo de repertório está se tornando comum, o que é muito bom. Quando damos Masterclasses nos Estados Unidos, já temos atendido a quartetos. Nas primeiras idas, estávamos dando aulas para solistas, ou às vezes para duos. E agora já há quartetos apoiados até por universidades, que trazem, às vezes, algumas das peças do nosso repertório. Se torna então uma coisa mais parecida com o Masterclass de um quarteto de cordas, ou de um pianista, violinista ou cantor. Agora, quanto à

sua questão: esse disco é importado, pode ser encontrado aqui em pouquíssimas lojas, e a um preço absurdo. Até para nós o acesso a esse disco é muito difícil. É um disco que está mais lá fora mesmo. O que eu acho que falta para maximizar os esforços dos inúmeros trabalhos musicais de qualidade que estão sendo feitos no Brasil atualmente, é uma política cultural e educacional para a música, em termos nacionais. Não existe uma política nem para educação musical e nem para os circuitos de concertos. O que há

são iniciativas isoladas. Não existe um programa obrigatório para as escolas livres de música, como se as pessoas que lá estão buscassem apenas um mero entretenimento. É como se não fosse necessário nenhum pré-requisito para se trabalhar com música. E da mesma maneira, na área de concertos. Se acontece a estréia de uma obra com orquestra em SP, por que não fazer o mesmo em Brasília, em Salvador, não há um circuito universitário que unifique os projetos de escolas de música. É claro que é mais fácil, se você vai fazer uma turnê pelo nordeste brasileiro, em 6 ou 7 cidades, os custos de transporte, alimentação, etc., diminuem se 4 ou 5 sociedades se organizarem para dividir. E para o músico é mais vantajoso também. É assim que funciona na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Existe um circuito através do qual você pode sustentar uma carreira. Aqui no Brasil, infelizmente não há a sustentação de uma carreira de concertista, única e exclusivamente contando com a realidade brasileira. Você tem projetos que caem do dia para a noite, isolados. Compõem algo no orçamento de um solista, de um grupo de câmara atuante, mas que não sustentam, você não tem a possibilidade de fazer uma turnê pelo Brasil. Nem mesmo os estrangeiros fazem isso aqui. E, mais grave ainda - outra coisa que temos que aprender com as pessoas de fora - praticamente não existe um concerto que façamos nos Estados Unidos em que não haja um Masterclass ou um Workshop acoplado. Nem que seja um bate-papo com os violonistas daquela pequena cidade americana na tarde do concerto. Eles não perdem a oportunidade de trocar idéias conosco, de tocar Villa-Lobos para violonistas brasileiros, etc. Aqui, moramos em São Paulo que é uma cidade pela qual tem passado grande parte dos nomes mais notáveis da música internacional, em todas as áreas. Não há uma política que junte as apresentações com masterclasses, com contatos com estudantes universitários, etc. São assinaturas vendidas com um ano de antecedência e que não precisam da mídia para vender esses ingressos, porque tem patrocínios e casa lotada, então não há divulgação. Por exemplo, por que o Jô Soares não poderia ter entrevistado o Kurt Masur, ou o Pepe Romero não pode ter ido na Marília Gabriela, uma coisa que seria absolutamente normal em qualquer lugar do mundo. E teríamos pessoas falando de música e trazendo informações para o grande público. A grande perda é que não há essa troca com os estudantes. Assiste-se a um concerto de qualidade e a distância com aquele artista permanece grande, sendo que isso não é o normal. Eu sou professor da Faculdade de Música da UniFIAMFAAM e, há três anos atrás, quando a Filarmônica de Berlim veio a São Paulo, o primeiro flautista, todo o naipe de trompas e o spalla dos cellos estiveram aqui na faculdade passando uma tarde com os estudantes daqui, sem cobrar nenhum cachê, porque isso pra eles é praxe, eles estão acostumados com isso. Mas isso só aconteceu porque alunos furaram o bloqueio e falaram direto com os músicos e os trouxeram aqui. E as instituições públicas não se interessam por isso. É uma coisa que eu acho que depende de uma organização da música mesmo, tanto no nível de concertos quanto no nível de educação. É possível difundir isso, há mercado para tanto, o Brasil é muito grande, há interesse. O que não há é um intercâmbio, não há comunicação. Está faltando um "regente" da música brasileira, da situação da música no país.


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