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Walter Neiva dedica-se exclusivamente a
direção de ópera. Estagiou
por dois anos em Berlin, na Komische Oper
e Deutsche Staatsoper ao lado de Harry Kupfer.
No Brasil estreou em 1989, com Cosi fan
Tutte de Mozart. Dirigiu ainda as óperas,
As Bodas de Figaro, Il Barbiere di Siviglia,
A Flauta Mágica, Porgy and Bess,
La Traviata, Pedro Malazarte, La Forza del
Destino, Suor Angélica, Don Pasquale,
Il Campanello, além uma série
de espetáculos liricos. Trabalhando
em várias cidades brasileiras, destacando-se,
Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro,
Belo Horizonte, Porto Alegre, Pelotas, Maringá,
Manaus, além de São Paulo,
cidade onde |
nasceu e reside. Em 1999,recebeu o Premio Coca Cola
no Teatro com sua adaptação para Teatro
de Bonecos para a A Flauta Mágica de Mozart.
Como
foi o início de sua carreira como diretor
de ópera?
Vou tentar resumir para não parecer um livro
de memórias. Em 1973, fiz uma assinatura
da Veja, e ganhei, como brinde, um fasciculo da
Abril Cultural, "As Grandes Operas" nº
1 - Aida. Fiquei fascinado com aquele cenário
enorme. Comecei a comprar os outros números,
sempre me interessando pelas fotos de encenações.
No ano seguinte assisti minha primeira temporada
de Ópera no Municipal: Butterfly, Il Trovatore,
Cavalleria Rusticana, I Pagliacci e Il Guarany,
e foi paixão à primeira vista!! Escrevi
uma carta para o Mto Walter Lourenção,
que apresentava um programa sobre ópera na
TV Cultura, pedindo que ele me indicasse uma escola
de Ópera. Ele então colocou-me em
contato com Francisco Giaccheri, então cenotécnico
do Theatro Municipal de São Paulo, para que
eu fizesse um estágio, já que não
existia propriamente uma escola de Ópera.
Comecei então a acompanhar os ensaios de
várias montagens no Theatro Municipal, e
fui conhecendo vários diretores de ópera,
que, sem dúvida, foram meus mestres, destacando-se
Gianni Ratto e Fernando Peixoto, além do
contato com diretores internacionais como Walter
Cataldi e Renzo Frusca. Paralelamente, comecei a
frequentar o Verdi Opera Clube, onde passei a ministrar
palestras sobre a gênese e sinopse das óperas
que eram apresentadas. Ali foi outra grande escola:
devo isso ao seu fundador Raphael Cilento. Foi onde
vi pela primeira vez Maria Callas e as encenações
de Jean Pierre Ponnelle, Franco Zeffirelli, Pier
Luigi Pizzi e a incrível Tetralogia de Wagner
na versão de Patrice Chereau e Pierre Boulez.
Colecionava as críticas e matérias
que o jornalista Lauro Machado Coelho escrevia sobre
ópera no Jornal da Tarde, e também
as do João Cancio Póvoa, J.J. de Moraes
e José da Veiga Oliveira no Estado e Folha.Sempre
me interessei por música clássica,
e me ajudou muito ter estudado quatro anos de piano.
Ao mesmo tempo, comecei a me envolver em produções
de teatro também como autor de trilhas sonoras,
elaborei duas: para "A Bela e a Fera"
- Premio Mambembe 1987 (direção de
Tereza Menezes), e "Depois do Expediente"
de Franz Xaver Kroetz (que deu o Moliere a Ileana
Kwasinski) dirigida por Francisco Medeiros, com
quem aprendi muito sobre direção também.
Além de gastar todas minhas economias em
discos de ópera.
Sempre
querendo saber mais, pesquisava freqüentemente
nas bibliotecas sobre o assunto. Resolvi
que precisava fazer um projeto e dirigir
minha primeira ópera e escolhi a
primeira grande ópera da história,
"La Favola d'Orfeo" de Claudio
Monteverdi. Estudei-a profundamente, e dei
inicio ao |

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projeto "Mãos a Ópera".
Com o apoio do Mto Lourenção, divulguei
o projeto na Rádio Cultura, apresentando
trechos da obra, e convocando pessoas que estivessem
interessadas em participar. Assim fui conhecendo
o meio da Ópera no Brasil. Em 1989 O Mto
Jamil Maluf, me convidou para organizar um programa
na TV Cultura sobre vozes graves femininas. Foi
assim que apareci pela primeira vez na Televisão,
onde pude falar do meu interesse na direção
de ópera. Fui visto pela grande cantora e
Professora Neyde Thomas que me convidou para a assistência
de direção no "Don Giovanni"
de Mozart que estava sendo realizado no Teatro Guaíra
em Curitiba (com Celine Imbért, Luiza de
Moura e Adélia Issa). Gostaram do meu trabalho,
e um mês depois eu estava dirigindo minha
primeira ópera, Così Fan Tutte, também
de Mozart. Viajamos para o Rio de Janeiro e Florianópolis
com o espetáculo, sempre com muito sucesso.
Novamente o Mto Jamil Maluf me chamou para uma assistência
para Jorge Takla em Bodas de Fígaro no Theatro
Municipal de São Paulo. Assim essa maravilhosa
trilogia de Mozart e Lorenzo da Ponte, marcou minha
primeira experiência profissional. Comecei
então a fazer mais assistências no
Municipal, na Administração de Emilio
Kalil. Foi quando, em 1989, John Neschling me convidou
para ser assistente de direção na
"La Boheme" produzida por Hugo de Anna
(grande mestre que me ensinou muita coisa). Em seguida
fui indicado novamente por Neschling, em 1990, que
regeria "Turandot" , na concepção
de Paulo Trevisi. Este diretor italiano veio no
início dos ensaios, me explicou o espetáculo,
e me deixou sozinho, com 200 pessoas envolvidas
na montagem, pois iria dirigir um "Werther"
em Lisboa, e voltaria apenas nos ensaios gerais.
Tive que coordenar inclusive a construção
do cenário que usava 23 quilômetros
de correntes. O sucesso desse trabalho foi definitivo
para mim, pois pude me testar como diretor de um
grande espetáculo. Por isso me considero
hoje um auto-didata. E meu Orfeo, do início,
nunca realizei, mas ainda é um sonho acalentado
com carinho.
E
a Bolsa de estudos na Alemanha, como aconteceu?
Voces acreditam em conto de fadas? Pois bem...
Em 1990 eu era assíduo freqüentador
do Instituto Goethe. Realizavam sempre workshops
sobre teatro e música e ali conheci o teatrólogo
alemão Henry Thorau, que me enviava da
Alemanha interessantes matérias e gravações.
Fiquei tão famliar ao diretor do Goethe,
Klaus Vetter que ele me pedia para levar os convidados
alemães a conhecer São Paulo. O
roteiro incluía Terraço Italia ,
o Centro Histórico de São Paulo
e o Embu. E como minha casa ficava a meio caminho
dessa cidadezinha histórica, um dia convidei
as pessoas para conhecer meu jardim (pois sou
paisagista, e foi desta forma que consegui sobreviver,
e manter minha paixão). Nesse dia estavam
presentes, o Thorau, o Renning Richbieter(editor
e fundador das revistas Theather Heute e Oper
Welt) e Dieter Kranz da Radio de Berlin, responsável
pela programação de musica clássica
naquela cidade. Sobre minha mesa havia um recorte
de revista da encenação do Orfeu
e Euridice por Harry Kupfer, O Richbieter imediatamente
reconheceu a imagem e me disse:
-Isto é Kupfer, eu fui amigo de infância
dele!! Voce gostaria de fazer um estágio
na Komische Oper em Berlin ?
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Eu
disse que sim, mas no fundo pensei que era
uma brincadeira. Um mes depois chegava uma
carta dizendo que Harry Kupfer havia ficado
muito emocionado ao saber que havia um admirador
de seu trabalho no Brasil, e estava me convidando
para estagiar na Opera de Berlin e Komische
Oper. participando das montagens de Butterfly,
Carmen e Falstaff. |
Nesta última pude participar de um Workshop
com Dietrich Fischer Dieskau, falando de suas várias
experiencias com esse personagem. Durante o periodo
da bolsa tive oportunidade de ir para a Italia e
conhecer o La Scala, o La Fenice, e ainda o Palazzo
Ducale de Mantua, onde o L'Orfeo de Monteverdi estreou,
foi uma emoção muito grande estar
na sala onde estreou a primeira grande opera e ainda
poder participar de um congresso sobre a musica
monteverdiana. Voltando ao Brasil, achei que teria
tapete vermelho e banda de Musica... pois sim...
Foi necessário começar tudo de novo.
Finalmente em 1993 dirigi uma primeira ópera
- apesar de pequena - no Theatro Municipal de São
Paulo "Il Maestro di Capella", sob a regência
de Luiz Malheiro. Depois no mesmo ano "Il Campanello"
de Donizetti com Claudia Riccitelli, Sandro Christopher
e Jeller Filippe, e ainda várias Vesperais
Líricas, quando se podia encená-las
no palco do teatro. Foi aí que começou
uma bela parceria com o Mto Flávio Florence
e a Orquestra Sinfônica de Santo André,
com quem realizei com muito sucesso três vers?es
diferentes da ópera Don Pasquale, A Flauta
Mágica (gravada pela TV Cultura) e O Barbeiro
de Sevilha. Ali tive a oportunidade de trabalhar
com excelentes cantores, como Sebastiáo Teixeira,
Sandro Christopher, Claudia Riccitelli, Luciana
Bueno, Fernando Portari, Paulo Szot, Silvia Tessutto,
Eduardo Itaborahy, Sandro Bodillon, Berenice Barreira
e Eduardo Abumrad entre tantos outros excelentes.
A
originalidade é uma marca em suas concepções,
especialmente quando o dinheiro é curto.
Como é esse processo de criação?
Confesso que estou um pouco cansado de ouvir das
pessoas quando assistem minhas montagens:
- Voce dá nó em pingo d água,
e ainda faz um laço.
- Tira leite de pedra - faz milagre...
No
Brasil acontece algo curioso, quando existe
muito dinheiro para a produção,
chamam quem tem pouca experiência
mesmo que o resultado seja desastroso. Quando
não tem chamam o Walter Neiva, que
dá jeito para tudo. Talvez tivesse
dirigido mais óperas, se tivesse
desenvolvido uma carreira no Teatro de
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prosa ou no cinema. Pois os diretores de cinema
e de teatro estão tendo mais chances na Opera,
hoje em dia. Por isso tenho me dedicado a aperfeiçoar
a técnica com cenários de papel, com
ótimos resultados, como foram a Flauta Mágica,
La Forza do Destino e O Barbeiro de Sevilha (meu
trabalho cenográfico hoje é tese dos
alunos de design da Faculdade Anhembi Morumbi).
Nas minhas montagens tenho uma verdadeira obsessão,
pela busca de originalidade, sempre procurando aquela
idéia que ninguém teve e de que forma
eu poderei grifar o que a música tem de melhor.
De
onde vem as idéias?
Sempre procuro casar texto e musica. Como se
fosse uma palavra cruzada, tenho a musica na horizontal
e como encenador devo colocar a cena na vertical.
A partitura contem tudo! Assim consegui realizar
muita coisa interessante, e sempre obtive boas
críticas. Desafio qualquer outra pessoa
a fazer o que fiz, com o dinheiro que me deram.
Ainda sonho em ter uma produção
decente, onde eu possa dar asas a minha imaginação,
sem ter que esbarrar em orçamentos apertados..
Bem, justiça seja feita, devo dizer que
algumas vezes tive tudo o que quis, como no Pedro
Malazarte, tanto na primeira montagem em Belo
Horizonte com Sebastião Teixeira, Edineia
de Oliveira e Benito Maresca, na produção
de
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Claudia
Malta na gestão de Eduardo Guimarães
Alvares no Palácio das Artes e quando
a remontamos no Teatro São Pedro
na produção de Fernando Calvozo,
com a regência de Lutero Rodrigues,e
Sandro Bodillon no papel título.
E também no Don Pasquale para o mesmo
teatro, produzido por
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Edynnio Rosseto (Regência de Flávio
Florence, com Sandro Christopher, Paulo Szot, Claudia
Riccitelli e Eduardo Itaborahy). São notáveis
as críticas que obtivemos com esses trabalhos,
graças ao perfeito acabamente das produções,
sem ter que ouvir o eterno:
-apesar dos poucos recursos..blá blá
blá..
Qual
foi a importância do seu trabalho na Alemanha?
Não fui para lá esperando aprender
idéias e sim metodologia de trabalho. Aprendi
como organizar uma produção, como
trabalhar com antecedência, para não
dizer na estréia como é comum aqui:
-Esse foi nosso ensaio geral
E o mais importante - o respeito ao intérprete
- ao cantor no caso, saber que não são
marionetes nas minhas mãos, e sim artistas
que tem suas convicçóes também,
e quanto mais eu investir neles, mais verdadeiro
e real ficará o espetáculo. Sempre
tenho como lema "Ou o intérprete me
convence, ou eu o convenço". Brigar
jamais! Odeio trabalhar com "climas" na
produção gosto de envolver todos os
participantes num clima de encantamento e paixão
pelo trabalho. Não acredito em trabalho onde
não exista paixão pelo que se faz.
Na Europa compreendi também a importância
da assiduidade e da pontualidade! Aprendi que o
bom diretor nunca dá "bom dia"
para o elenco - o elenco é que dá
- pois o diretor já chegou antes de todos.
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