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Entrevista com Walter Neiva
Julho/2004

Walter Neiva dedica-se exclusivamente a direção de ópera. Estagiou por dois anos em Berlin, na Komische Oper e Deutsche Staatsoper ao lado de Harry Kupfer. No Brasil estreou em 1989, com Cosi fan Tutte de Mozart. Dirigiu ainda as óperas, As Bodas de Figaro, Il Barbiere di Siviglia, A Flauta Mágica, Porgy and Bess, La Traviata, Pedro Malazarte, La Forza del Destino, Suor Angélica, Don Pasquale, Il Campanello, além uma série de espetáculos liricos. Trabalhando em várias cidades brasileiras, destacando-se, Curitiba, Florianópolis, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Pelotas, Maringá, Manaus, além de São Paulo, cidade onde

nasceu e reside. Em 1999,recebeu o Premio Coca Cola no Teatro com sua adaptação para Teatro de Bonecos para a A Flauta Mágica de Mozart.

Como foi o início de sua carreira como diretor de ópera?

Vou tentar resumir para não parecer um livro de memórias. Em 1973, fiz uma assinatura da Veja, e ganhei, como brinde, um fasciculo da Abril Cultural, "As Grandes Operas" nº 1 - Aida. Fiquei fascinado com aquele cenário enorme. Comecei a comprar os outros números, sempre me interessando pelas fotos de encenações. No ano seguinte assisti minha primeira temporada de Ópera no Municipal: Butterfly, Il Trovatore, Cavalleria Rusticana, I Pagliacci e Il Guarany, e foi paixão à primeira vista!! Escrevi uma carta para o Mto Walter Lourenção, que apresentava um programa sobre ópera na TV Cultura, pedindo que ele me indicasse uma escola de Ópera. Ele então colocou-me em contato com Francisco Giaccheri, então cenotécnico do Theatro Municipal de São Paulo, para que eu fizesse um estágio, já que não existia propriamente uma escola de Ópera.
Comecei então a acompanhar os ensaios de várias montagens no Theatro Municipal, e fui conhecendo vários diretores de ópera, que, sem dúvida, foram meus mestres, destacando-se Gianni Ratto e Fernando Peixoto, além do contato com diretores internacionais como Walter Cataldi e Renzo Frusca. Paralelamente, comecei a frequentar o Verdi Opera Clube, onde passei a ministrar palestras sobre a gênese e sinopse das óperas que eram apresentadas. Ali foi outra grande escola: devo isso ao seu fundador Raphael Cilento. Foi onde vi pela primeira vez Maria Callas e as encenações de Jean Pierre Ponnelle, Franco Zeffirelli, Pier Luigi Pizzi e a incrível Tetralogia de Wagner na versão de Patrice Chereau e Pierre Boulez. Colecionava as críticas e matérias que o jornalista Lauro Machado Coelho escrevia sobre ópera no Jornal da Tarde, e também as do João Cancio Póvoa, J.J. de Moraes e José da Veiga Oliveira no Estado e Folha.Sempre me interessei por música clássica, e me ajudou muito ter estudado quatro anos de piano. Ao mesmo tempo, comecei a me envolver em produções de teatro também como autor de trilhas sonoras, elaborei duas: para "A Bela e a Fera" - Premio Mambembe 1987 (direção de Tereza Menezes), e "Depois do Expediente" de Franz Xaver Kroetz (que deu o Moliere a Ileana Kwasinski) dirigida por Francisco Medeiros, com quem aprendi muito sobre direção também. Além de gastar todas minhas economias em discos de ópera.

Sempre querendo saber mais, pesquisava freqüentemente nas bibliotecas sobre o assunto. Resolvi que precisava fazer um projeto e dirigir minha primeira ópera e escolhi a primeira grande ópera da história, "La Favola d'Orfeo" de Claudio Monteverdi. Estudei-a profundamente, e dei inicio ao

projeto "Mãos a Ópera". Com o apoio do Mto Lourenção, divulguei o projeto na Rádio Cultura, apresentando trechos da obra, e convocando pessoas que estivessem interessadas em participar. Assim fui conhecendo o meio da Ópera no Brasil. Em 1989 O Mto Jamil Maluf, me convidou para organizar um programa na TV Cultura sobre vozes graves femininas. Foi assim que apareci pela primeira vez na Televisão, onde pude falar do meu interesse na direção de ópera. Fui visto pela grande cantora e Professora Neyde Thomas que me convidou para a assistência de direção no "Don Giovanni" de Mozart que estava sendo realizado no Teatro Guaíra em Curitiba (com Celine Imbért, Luiza de Moura e Adélia Issa). Gostaram do meu trabalho, e um mês depois eu estava dirigindo minha primeira ópera, Così Fan Tutte, também de Mozart. Viajamos para o Rio de Janeiro e Florianópolis com o espetáculo, sempre com muito sucesso. Novamente o Mto Jamil Maluf me chamou para uma assistência para Jorge Takla em Bodas de Fígaro no Theatro Municipal de São Paulo. Assim essa maravilhosa trilogia de Mozart e Lorenzo da Ponte, marcou minha primeira experiência profissional. Comecei então a fazer mais assistências no Municipal, na Administração de Emilio Kalil. Foi quando, em 1989, John Neschling me convidou para ser assistente de direção na "La Boheme" produzida por Hugo de Anna (grande mestre que me ensinou muita coisa). Em seguida fui indicado novamente por Neschling, em 1990, que regeria "Turandot" , na concepção de Paulo Trevisi. Este diretor italiano veio no início dos ensaios, me explicou o espetáculo, e me deixou sozinho, com 200 pessoas envolvidas na montagem, pois iria dirigir um "Werther" em Lisboa, e voltaria apenas nos ensaios gerais. Tive que coordenar inclusive a construção do cenário que usava 23 quilômetros de correntes. O sucesso desse trabalho foi definitivo para mim, pois pude me testar como diretor de um grande espetáculo. Por isso me considero hoje um auto-didata. E meu Orfeo, do início, nunca realizei, mas ainda é um sonho acalentado com carinho.

E a Bolsa de estudos na Alemanha, como aconteceu?

Voces acreditam em conto de fadas? Pois bem... Em 1990 eu era assíduo freqüentador do Instituto Goethe. Realizavam sempre workshops sobre teatro e música e ali conheci o teatrólogo alemão Henry Thorau, que me enviava da Alemanha interessantes matérias e gravações. Fiquei tão famliar ao diretor do Goethe, Klaus Vetter que ele me pedia para levar os convidados alemães a conhecer São Paulo. O roteiro incluía Terraço Italia , o Centro Histórico de São Paulo e o Embu. E como minha casa ficava a meio caminho dessa cidadezinha histórica, um dia convidei as pessoas para conhecer meu jardim (pois sou paisagista, e foi desta forma que consegui sobreviver, e manter minha paixão). Nesse dia estavam presentes, o Thorau, o Renning Richbieter(editor e fundador das revistas Theather Heute e Oper Welt) e Dieter Kranz da Radio de Berlin, responsável pela programação de musica clássica naquela cidade. Sobre minha mesa havia um recorte de revista da encenação do Orfeu e Euridice por Harry Kupfer, O Richbieter imediatamente reconheceu a imagem e me disse:
-Isto é Kupfer, eu fui amigo de infância dele!! Voce gostaria de fazer um estágio na Komische Oper em Berlin ?

Eu disse que sim, mas no fundo pensei que era uma brincadeira. Um mes depois chegava uma carta dizendo que Harry Kupfer havia ficado muito emocionado ao saber que havia um admirador de seu trabalho no Brasil, e estava me convidando para estagiar na Opera de Berlin e Komische Oper. participando das montagens de Butterfly, Carmen e Falstaff.

Nesta última pude participar de um Workshop com Dietrich Fischer Dieskau, falando de suas várias experiencias com esse personagem. Durante o periodo da bolsa tive oportunidade de ir para a Italia e conhecer o La Scala, o La Fenice, e ainda o Palazzo Ducale de Mantua, onde o L'Orfeo de Monteverdi estreou, foi uma emoção muito grande estar na sala onde estreou a primeira grande opera e ainda poder participar de um congresso sobre a musica monteverdiana. Voltando ao Brasil, achei que teria tapete vermelho e banda de Musica... pois sim... Foi necessário começar tudo de novo. Finalmente em 1993 dirigi uma primeira ópera - apesar de pequena - no Theatro Municipal de São Paulo "Il Maestro di Capella", sob a regência de Luiz Malheiro. Depois no mesmo ano "Il Campanello" de Donizetti com Claudia Riccitelli, Sandro Christopher e Jeller Filippe, e ainda várias Vesperais Líricas, quando se podia encená-las no palco do teatro. Foi aí que começou uma bela parceria com o Mto Flávio Florence e a Orquestra Sinfônica de Santo André, com quem realizei com muito sucesso três vers?es diferentes da ópera Don Pasquale, A Flauta Mágica (gravada pela TV Cultura) e O Barbeiro de Sevilha. Ali tive a oportunidade de trabalhar com excelentes cantores, como Sebastiáo Teixeira, Sandro Christopher, Claudia Riccitelli, Luciana Bueno, Fernando Portari, Paulo Szot, Silvia Tessutto, Eduardo Itaborahy, Sandro Bodillon, Berenice Barreira e Eduardo Abumrad entre tantos outros excelentes.

A originalidade é uma marca em suas concepções, especialmente quando o dinheiro é curto. Como é esse processo de criação?

Confesso que estou um pouco cansado de ouvir das pessoas quando assistem minhas montagens:
- Voce dá nó em pingo d água, e ainda faz um laço.
- Tira leite de pedra - faz milagre...

No Brasil acontece algo curioso, quando existe muito dinheiro para a produção, chamam quem tem pouca experiência mesmo que o resultado seja desastroso. Quando não tem chamam o Walter Neiva, que dá jeito para tudo. Talvez tivesse dirigido mais óperas, se tivesse desenvolvido uma carreira no Teatro de

prosa ou no cinema. Pois os diretores de cinema e de teatro estão tendo mais chances na Opera, hoje em dia. Por isso tenho me dedicado a aperfeiçoar a técnica com cenários de papel, com ótimos resultados, como foram a Flauta Mágica, La Forza do Destino e O Barbeiro de Sevilha (meu trabalho cenográfico hoje é tese dos alunos de design da Faculdade Anhembi Morumbi). Nas minhas montagens tenho uma verdadeira obsessão, pela busca de originalidade, sempre procurando aquela idéia que ninguém teve e de que forma eu poderei grifar o que a música tem de melhor.

De onde vem as idéias?

Sempre procuro casar texto e musica. Como se fosse uma palavra cruzada, tenho a musica na horizontal e como encenador devo colocar a cena na vertical. A partitura contem tudo! Assim consegui realizar muita coisa interessante, e sempre obtive boas críticas. Desafio qualquer outra pessoa a fazer o que fiz, com o dinheiro que me deram. Ainda sonho em ter uma produção decente, onde eu possa dar asas a minha imaginação, sem ter que esbarrar em orçamentos apertados.. Bem, justiça seja feita, devo dizer que algumas vezes tive tudo o que quis, como no Pedro Malazarte, tanto na primeira montagem em Belo Horizonte com Sebastião Teixeira, Edineia de Oliveira e Benito Maresca, na produção de

Claudia Malta na gestão de Eduardo Guimarães Alvares no Palácio das Artes e quando a remontamos no Teatro São Pedro na produção de Fernando Calvozo, com a regência de Lutero Rodrigues,e Sandro Bodillon no papel título. E também no Don Pasquale para o mesmo teatro, produzido por

Edynnio Rosseto (Regência de Flávio Florence, com Sandro Christopher, Paulo Szot, Claudia Riccitelli e Eduardo Itaborahy). São notáveis as críticas que obtivemos com esses trabalhos, graças ao perfeito acabamente das produções, sem ter que ouvir o eterno:
-apesar dos poucos recursos..blá blá blá..

Qual foi a importância do seu trabalho na Alemanha?

Não fui para lá esperando aprender idéias e sim metodologia de trabalho. Aprendi como organizar uma produção, como trabalhar com antecedência, para não dizer na estréia como é comum aqui:
-Esse foi nosso ensaio geral
E o mais importante - o respeito ao intérprete - ao cantor no caso, saber que não são marionetes nas minhas mãos, e sim artistas que tem suas convicçóes também, e quanto mais eu investir neles, mais verdadeiro e real ficará o espetáculo. Sempre tenho como lema "Ou o intérprete me convence, ou eu o convenço". Brigar jamais! Odeio trabalhar com "climas" na produção gosto de envolver todos os participantes num clima de encantamento e paixão pelo trabalho. Não acredito em trabalho onde não exista paixão pelo que se faz. Na Europa compreendi também a importância da assiduidade e da pontualidade! Aprendi que o bom diretor nunca dá "bom dia" para o elenco - o elenco é que dá - pois o diretor já chegou antes de todos.


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