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Entrevista com Walter Neiva
Julho/2004

Existe algum trabalho que você considere um marco na sua carreira?

Sem duvida foi Pedro Malazarte, uma ópera que demorei sete anos para conseguir montar. Tudo começou em 1989, quando o Instituto Goethe me incumbiu de localizar uma ópera brasileira que pudesse representar o Brasil no Festival Brasileiro

que aconteceria em Zurich. Pesquisei vários titulos e quando vi Mário de Andrade e Camargo Guarnieri na autoria da obra não tive dúvidas. Consegui inclusive várias entrevistas com o próprio Guarnieri ainda vivo, que ficou muito emocionado com a possibilidade de ver novamente encenada essa sua pequena obra prima. Nunca consegui o dinheiro que pudesse levar a produção para lá. Mas não abandonei a idéia. Foram várias reuniões com o compositor, que me elucidou vários aspectos da obra. E Guarnieri me dizia:
-Estão esperando eu morrer para encenarem esta obra.
Só em 1996, consegui finalmente montar no Palácio das Artes em Belo Horizonte, tendo a honra de contar com a participação do veteraníssimo tenor Benito Maresca. E depois como já disse, novamente no Teatro São Pedro em 2000, com excelentes resultados de público e crítica, notadamente a do mestre Lauro Machado Coelho que marcou seu retorno à crítica no Estado de São Paulo com esta matéria. Infelizmente o compositor nunca pode assistir, e vibrar com esse sucesso de sua obra (Camargo Guarnieri nos deixou em 1993). Considero um marco, por ser uma obra prima desconhecida, que ainda me colocou em contato com o compositor, não menos relevante para a nossa história musical. Apesar, de considerar outras montagens muito importantes para minha carreira como foram A Flauta Mágica (quatro vezes), Don Pasquale (três vezes), O

Barbeiro de Sevilha (duas montagens) cuja versão considero minha melhor criação e La Forza del Destino com sua cenografia de papel que algumas pessoas, por puro preconceito, criticaram, se esquecendo de ver que por trás dos 5 km de papel Kraft existia toda uma dinâmica de ilusão e transformação. E por uma força do destino,

esta ópera de Verdi, que há 56 anos não era encenada na cidade, estreou no Municipal de São Paulo, no mesmo dia em que Don Pasquale estreava no Festival de Inverno de Campos do Jordão - quase enlouqueci ensaiando as duas óperas ao mesmo tempo, mas saí vitorioso da empreitada. Acho que sou o único no Brasil que pode se orgulhar de ter dirigido duas grandes óperas em dois grandes teatros, com dois elencos importantes, que estrearam no mesmo dia e horário e ainda com críticas super favoráveis.

Em julho voce estará na direção da ópera Zaíra, de Bernardo José de Souza Queiroz, baseada em tragédia de Voltaire. Como foi o convite para esta obra?

O convite veio da direção do importante Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, promovido há 15 anos, pelo Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora. Participar de uma redescoberta deste porte me deixou muito honrado. Apesar da dificuldade que está sendo montar uma ópera que nunca ouvi uma nota sequer. Os recitativos estão perdidos e está sendo um trabalho duro reconstruir a seqüencia das cenas.

O que podemos esperar da ópera Zaíra?

Creio que o prazer de ouvir e ver uma obra perdida há muito tempo baseada num texto que inspirou pelo menos cinqüenta compositores, entre eles Bellini e Mercadante, e que ainda possui um tema extremamente atual, pois fala da luta

entre cristãos e muçulmanos. Com relação à concepção do espetáculo, adianto que estou fazendo uma pesquisa sobre a cenografia e iluminaçáo da época, para tentar retratar para o público a forma como eram apresentadas as óperas no início do seculo dezenove. E pelo que eu pude ver na partitura que me enviaram a música deve ser muito bonita, se aproximando muito de Gluck, Mozart e Cimarosa, pois a escrita vocal é extremamente ornamentada.


Existe alguma idéia de apresentar esta obra fora do Festival de Juiz de Fora?

Por enquanto nenhuma que eu saiba. Vamos esperar a apresentação e aí, quem sabe, aparece alguma possibilidade.


Além do Festival de Juiz de Fora voce estará trabalhando em uma oficina de cantores em Curitiba. Como será este trabalho?

Já dei várias vezes este tipo de Oficina (em São Paulo, Maringá, Itu,) e a última foi em 2003 em Curitiba mesmo, que culminou na montagem da ópera Suór Angélica. O intuito é desenvolver um estudo aprofundado da partitura de uma ópera, analise dos personagem, e técnicas de representaçáo, especificas para o cantor lirico, aliado a um trabalho corporal com exercicios fisicos de relaxamento e concentração. Este ano não culmina na montagem de uma ópera, e sim na apresentação de uma série de cenas de diversas óperas, o que didaticamente funciona muito bem, além de ser agradável para o público.

O que voce pode nos adiantar sobre a ópera "La Traviata" que será apresentada em Setembro no Theatro São Pedro - SP?

Para mim em primeiro lugar é uma felicidade, retornar ao palco do Theatro São Pedro onde já realizei tanta coisa importante (Malazarte, Barbeiro de Sevilha, Don Pasquale uma série de recitais e onde com a Flauta Mágica para Crianças, recebi o prêmio Coca Cola.) Um teatro com acústica perfeita para o canto. É muito

importante apresentar esta opera no São Pedro, principalmente porque Verdi e Traviata são muito populares. Contamos com o apoio da Prefeitura de Americana (onde estreará dia 11 de Setembro) que inaugura sua orquestra e coral, sob a regencia do Mto Carlos Lima, contamos com solistas convidados, como Kalinka Damiani (com quem já realizei essa Ópera em Ribeirão Preto, sob a regencia de Tullio Colaccioppo) e Marcelo Vanucci. Os demais solistas serão escolhidos por uma comissão da Cia Ópera São Paulo, nos dias 23 e 24 de julho no próprio Theatro São Pedro. As récitas em São Paulo serão nos dias 18 e 19 de Setembro. Quanto a minha concepção, gostaria de não revelar detalhes ainda, apenas, que reservo uma grande surpresa no final.


Voce gostaria de deixar algum recado para os leitores?

Sim, que comecem a avaliar melhor os espetáculos de opera, manifestando realmente o seu agrado ou desagrado,e que não tenham medo de vaiar, como em qualquer lugar do mundo, pois tenho visto tanta produção feia e medíocre, que custa milhões e o público aplaude por educação. Lembrem-se que muitas vezes é dinheiro público que está ali!! E aproveito para agradecer ao Guia Erudito, pela

oportunidade de escrever aqui, aproveitando para parabenizar a feliz iniciativa tão importante na divulgação de nosso trabalho como também o bom gosto da apresentação do site.


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