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Sinfonia Cultura

É com grande tristeza que a comunidade musical brasileira recebe a notícia da extinção da Orquestra Sinfonia Cultura. Um patrimônio do povo, destacava-se por priorizar o repertório sinfônico brasileiro, apresentando-se a preços muito popupalres
no SESC Belenzinho, em São Paulo, tornando possível o acesso da pappulação de baixa renda aos concertos. Diante desta lamentável notícia, o Guia Erudito não pederia deixar de mostrar sua consternação com tal acontecimento. Segue abaixo uma reflexão do Maestro Lutero Rodrigues, regente titular desta orquestra e também uma carta enviada pelo Sr. Edino Krieger em nome da Academia Brasileira de Música ao Sr. Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Faço minhas as palavras de Edino Krieger (carta abaixo) e realmente espero que alguma providência seja tomada para que esta decisão seja revogada. A Sinfonia Cultura tem um caráter singular e merece ter seu trabalho continuado, sob a competente regência de Lutero Rodrigues.

Priscila Zamlutti
Guia Erudito - Diretora.



SINFONIA CULTURA –
ORQUESTRA DA RÁDIO E TV CULTURA


Uma reflexão sobre suas atividades e projetos futuros


Com a reestruturação da OSESP, em setembro de 1997, alguns de seus ex-músicos passaram a integrar uma nova orquestra, pertencente ao quadro de funcionários da Fundação Pe. Anchieta. A exemplo dos principais países da Europa: Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, etc. , que possuem sólidas e bem estruturadas orquestras de rádio – as quais, em alguns casos, são as mais importantes de seus respectivos países – passamos a ter a única orquestra de rádio do Brasil e da América Latina.


PRINCIPAIS ATIVIDADES e CARACTERÍSTICAS:


- Formação de platéia.

Em parceria com o SESC Belenzinho, desde 1999, a orquestra realizou a série dos Concertos Sesc & Sinfonia Cultura, (cerca de 160 concertos até o final de 2004), consagrada pelo público da região e representando efetivamente a única série de concertos de música erudita oferecida regularmente aos moradores da zona leste de São Paulo.

- Priorização do repertório brasileiro.

Tornou-se a única orquestra no país a incluir, na maior parte de seu repertório, músicas de compositores brasileiros. Este fato tornou-a conhecida e valorizada na vida musical do Brasil, sobretudo entre os compositores e organizações musicais. Em seus 7 anos de atividades, a orquestra executou mais de 300 obras de compositores brasileiros, dentre elas, mais de 50 estréias mundiais.

- Projetos educativos.

Em 1998, 2001 e 2002, participou ativamente de um projeto da Secretaria de Estado da Educação – SEE, realizando mais de 100 apresentações didáticas em escolas públicas do centro e periferia da capital, além de várias cidades do interior. No mesmo projeto, realizou concertos especiais para públicos numerosos (mais de 6000 pessoas), no Ginásio do Ibirapuera (24/10/01) e Basílica de Aparecida (22/05/02 - transmitido pela TV para o interior do estado).

- Valorização do artista brasileiro.
Ofereceu, prioritariamente, ao contrário da maioria das orquestras, oportunidades de atuação aos artistas brasileiros jovens ou consagrados, tanto como solistas quanto como regentes, sendo a orquestra brasileira que maior número de diferentes regentes brasileiros convidou, nos últimos 7 anos.

- Atuação com rádio e televisão.

Todos os concertos da série do SESC Belenzinho foram gravados e retransmitidos pela Rádio Cultura FM, ampliando – e muito – o número de ouvintes que uma sala de concertos comporta. Para a TV, gravou 27 programas compreendendo: concertos temáticos, geralmente de música brasileira; participação em programas regulares da TV Cultura; programas educativos, tendo concluído, em fins de 2004, a gravação do programa piloto de uma projetada série educativa para a TV, com a participação de Marcelo Tas. Além disto, em várias ocasiões, gravou vinhetas para a Rádio e TV que foram incluídas na programação regular da emissora.

- Atuação multimídia.

Cumprindo sua vocação de orquestra pertencente a um meio de comunicação, atendeu às mais diversas solicitações que exigiam a participação de uma orquestra, em vários ramos da atividade artística:

  • Trilhas de cinema: gravou 3 trilhas de filmes, destacando-se “Pelé Eterno”, que terá distribuição internacional e “500 Almas”, de autoria de Lívio Tragtenberg, que ganhou o prêmio de “Melhor Trilha Sonora” do 37º Festival de Cinema de Brasília (final de 2004). Estava prevista a participação da Sinfonia Cultura no lançamento deste filme.
  • Ballet: participou de 4 espetáculos de ballet, destacando-se as 2 vezes com o Ballet Bolshoi (1999 e 2001) e o espetáculo em comemoração aos 35 anos da TV Cultura (transmitido pela TV), com os 3 principais grupos de dança de São Paulo: Stagium, Cisne Negro e Balé da Cidade.
  • Óperas: participou de 4 montagens de óperas (1998, 1999, 2000 e 2002)
- Participações em festivais e outros eventos. (resumo)

  • Festivais de Inverno de Campos do Jordão: 4 vezes (1998, 1999 – 2 vezes, 2003)
  • Festival de Música Nova de Santos: 2 vezes (2003 e 2004)
  • Prêmio Carlos Gomes: 4 vezes (1998, 1999, 2001, 2004)
  • Abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (1999)
- Conclusão: Por serem de natureza muito diferente, as inúmeras atividades da Sinfonia Cultura, ao longo de 7 anos, não se assemelham às atividades de outras orquestras do Estado, inclusive a OSESP, sendo portanto complementares às atividades destes outros organismos. A Sinfonia Cultura tem atendido a um público de baixa renda, da zona leste, que não freqüenta as grandes salas de concertos da cidade. Atendeu à rede pública de ensino indo até as escolas, mesmo nos mais remotos bairros da periferia. Tem dado prioridade à música e aos artistas brasileiros e tem suprido uma considerável demanda cultural, viabilizando a utilização da orquestra sinfônica para variadas manifestações artísticas.


CUSTEIO E SITUAÇÃO REAL DA ORQUESTRA AO FINAL DE 2004


No Brasil, praticamente não há orquestras que não sejam mantidas pelo poder público e o mesmo é verdadeiro para quase toda a Europa. Nos EUA, onde havia a tradição contrária, as orquestras estão procurando, cada vez mais, formas de obter recursos públicos para continuarem existindo.

Os principais gastos de uma orquestra têm origem em duas fontes: o pagamento dos músicos e funcionários (custos com pessoal) e o custo da programação (solistas, regentes convidados, aluguel de músicas, etc). Ao custo da programação podem ser ainda acrescentados outros gastos tais como: divulgação, aluguel de instrumentos, aluguel de salas de ensaio e assim por diante.

Na Sinfonia Cultura, ao final de 2004, os salários dos músicos eram os menores do mercado e não sofriam qualquer reajuste há cerca de 4 anos, em função dos conturbados dissídios que passaram a depender de decisões judiciais. Além disto, do quadro inicial de 55 músicos, contávamos com apenas 43 contratados, sendo que os restantes eram pagos através de cachês. A situação da Orquestra assemelhava-se a um longo e gradativo processo de asfixia.

Há 5 anos, ou seja, desde o momento em que iniciávamos a parceria com o SESC, o Estado não mais precisou destinar recursos para a programação da Orquestra, o que nos tornava quase uma exceção no Brasil. O custo de pessoal foi sempre suprido pelo Estado, mas em alguns períodos, o trabalho da orquestra reverteu-se em recursos para a Fundação Pe. Anchieta.
A parceria com o SESC, por exemplo, além dos custos de programação, responsabilizava-se pela transferência de recursos que, ao início da parceria, era equivalente a 10% do orçamento anual (custo com pessoal) da Orquestra e ultimamente, após uma diminuição da programação, equivalia à cerca de 5% do mesmo orçamento.

Os projetos com a SEE, entretanto, trouxeram recursos bem mais vultosos à Fundação Pe. Anchieta, equivalentes a mais de 3 vezes o orçamento anual da Orquestra (cerca de 3 milhões, como divulgado).


PROJETOS FUTUROS

Os projetos que tínhamos elaborado para 2005 seriam, sobretudo, projetos de interesse cultural, que não significavam a automática obtenção de amplos recursos econômicos, embora pudessem ter o potencial de captá-los.
  • Manutenção da série dos Concertos Sesc & Sinfonia Cultura (que passariam a ser gravados pela TV Sesc)
  • Nova série de concertos bimestrais, em local aberto, destinados à grande público, com repertório próprio para formação de platéia (Sesc Itaquera).
  • Programas educativos para a TV Cultura, com a participação de Marcelo Tas (o programa piloto foi gravado em novembro de 2004).
  • Gravação de CDs de obras do repertório brasileiro e DVDs de óperas brasileiras.

LUTERO RODRIGUES Regente e Coordenador Musical da Sinfonia Cultura – Orquestra da Rádio e TV Cultura

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Da: Academia Brasileira de Música

Para: Sr. Governador Geraldo Alckmin

CC:
Sr. Secretário de Estado de Cultura SP
Sr. Diretor Presidente da RTC


Senhor Governador

A Academia Brasileira de Música, fundada em 1945 por Villa-Lobos, órgão técnico consultivo do Governo Federal, vem por este  meio, respeitosamente, manifestar sua surpresa e inconformidade com a extinção da Orquestra Sinfonia Cultura, criada na gestão do saudoso Governador Mário Covas com os
músicos excedentes da nova OSESP.

Durante esses anos, a Sinfonia Cultura tem prestado um serviço inestimável à música brasileira, com sua programação dedicada prioritáriamente ao repertório sinfônico brasileiro do passado e do presente, com várias estréias mundiais a seu crédito.

A extinção de uma orquestra com esse perfil significaria uma perda lamentável para a cultura brasileira. Nem se compreenderia que o mesmo estado que produziu, graças à vontade política de um homem de grande visão, uma orquestra de qualidade internacional como a nova OSESP, permita a
extinção de uma instituição que é também um modelo, respeitada no Brasil e no exterior pelos benefícios que tem trazido para a música brasileira, e cujo público é formado pelos milhares, talvez milhões de ouvintes desse veículo máximo de difusão da cultura que é o rádio.

Temos a certeza de que, por um ato de vontade política idêntico àquele que criou a OSESP, Vossa Excelência  impedirá que um  baluarte da nossa cultura musical seja destruído.

Atenciosamente,

Edino Krieger



 
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